Fonoaudióloga mostra por que a emoção
“aparece” na fala e o impacto disso no ambiente de trabalho
No trabalho ou no cotidiano, não importa apenas o que você diz,
importa, sobretudo, como a sua voz chega ao outro. Muitas vezes, é a entonação
que determina se você será percebido como uma pessoa segura ou insegura, aberta
ou defensiva, firme ou agressiva. Criado originalmente para chamar atenção para
o câncer de laringe, o Dia Mundial da Voz (16/04) hoje também abre espaço para
outra discussão essencial, a da voz como marcador imediato de emoções,
intenções e, cada vez mais, de liderança no ambiente corporativo.
Diferentes pesquisas em comunicação e neurociência mostram que o cérebro
humano reage à emoção presente na voz antes mesmo de processar o significado
verbal. Isso significa que, antes de alguém entender o que você diz, já
interpretou como você falou e essa leitura rápida influencia relações,
decisões, conflitos e reputações não apenas no dia a dia, mas dentro das organizações.
“A voz funciona como um cartão de visitas emocional. Ela revela mais sobre nós
do que gostaríamos de admitir, mesmo quando tentamos disfarçar. No fim das
contas, não existem frases neutras. Existem vozes que comunicam mais do que as
palavras”, afirma a fonoaudióloga Juliana Algodoal, especialista em comunicação
corporativa e linguagem no trabalho.
Juliana explica que no ambiente corporativo, em que a pressão por
resultados é alta, as emoções são constantes e a comunicação é acelerada, isso
aparece todos os dias. Levantamentos da Society for Human Resource
Management (SHRM)
indicam que uma parcela significativa dos conflitos nas empresas começa pelo
tom de voz, e não pelo conteúdo da mensagem. Pesquisas publicadas no Journal of Applied Psychology mostram que tons agressivos, mesmo sem
gritos, aumentam a ansiedade e reduzem a performance das equipes. “A voz não
transmite apenas informação, ela transmite emoção”, diz Juliana.
“Estudos de Paul Ekman, por exemplo, mostram que diferentes
emoções moldam a forma como a mesma frase é percebida. Uma fala tecnicamente
igual pode soar como ameaça, insegurança, desalento ou conquista, dependendo da
emoção dominante. É impossível separar voz e emoção. As pessoas não reagem às
suas palavras, elas reagem ao seu estado emocional”, complementa.
Por isso, para a fonoaudióloga, a consciência vocal deveria fazer
parte da formação de líderes e equipes. “Liderança não é só saber o que dizer,
é saber como dizer. Profissionais costumam planejar o conteúdo de reuniões,
feedbacks e apresentações, mas deixam de lado algo essencial: a intenção vocal.
Planejar com que voz você vai, seja ela mais firme, mais acolhedora, mais calma
ou mais diretiva, deveria ser tão importante quanto planejar os argumentos. A
voz é o que sustenta ou derruba qualquer mensagem”, enfatiza.
Ao longo de suas consultorias e programas corporativos, Juliana
observa um padrão: quando falta repertório linguístico para argumentar, a voz
se desregula. As pessoas elevam o tom, aceleram a fala, endurecem a entonação
ou perdem firmeza. “Isso não é ‘falta de voz’. É falta de consciência emocional
e de repertório linguístico. A voz denuncia antes de você perceber”, destaca.
Por isso, neste Dia Mundial da Voz, Juliana propõe ampliar o
debate além da saúde vocal tradicional, sem deixá-la de lado, para incluir a
dimensão comportamental da voz no trabalho. “Como as emoções filtram nossas
mensagens? Que intenção comunicamos quando falamos? Que impacto causamos com o
tom que escolhemos ou que simplesmente deixamos escapar? E, principalmente: que
emoção queremos que o outro perceba em nós?”, questiona.
Para ela, as respostas a essas perguntas definem não apenas a qualidade das interações profissionais, mas também a credibilidade, a influência e a presença de liderança de cada pessoa. “A voz é uma competência estratégica. Ignorá-la custa caro para as relações, para o clima e para a liderança”, conclui.
Juliana Algodoal - Considerada uma das maiores especialistas em Comunicação Corporativa do país, Juliana Algodoal é PhD em Análise do Discurso em Situação de Trabalho – Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem e fonoaudióloga pela PUC/SP e fundadora da empresa Linguagem Direta*. Acumula mais de 38 anos de experiência no desenvolvimento de projetos que buscam aprimorar a interlocução no ambiente empresarial - tendo como clientes grandes companhias, como BASF, Porto Seguro, Novartis, Pfizer, Aché, Itaú, Citibank, Unimed Nacional, Samsung, dentre outras. É autora do livro Inteligência Humana e Comunicativa e coautora do livro Thought Leadership: muito além da influência e membro do conselho de administração da Sociedade Brasileira de Fonoaudiologia onde já foi presidente.
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