Exposição em excesso a dispositivos digitais causa impactos na saúde mental e perda do brincar durante a infância
As férias escolares surgem como um convite para que crianças e adolescentes
possam descansar, brincar e fortalecer vínculos familiares. Uma oportunidade
para que pais e responsáveis incentivem e promovam experiências reais, algo
cada vez mais raro em uma rotina dominada por telas e dispositivos móveis.
Segundo
Ana Claudia Favano, psicóloga, pedagoga e gestora da Escola Internacional de Alphaville – EIA, de Barueri/SP, a hiper conexão digital impacta
profundamente o desenvolvimento infantil, criando uma dependência digital. “A
tecnologia passou de ferramenta a extensão do corpo humano. Smartphones,
notificações, jogos online e redes sociais nos governam de fora para dentro,
diminuindo nossa capacidade de autorregulação. E isso se reflete diretamente na
vida emocional e escolar das crianças”, afirma.
Favano
destaca que os prejuízos não são apenas comportamentais. A hiperexposição à luz
das telas afeta diretamente o sono, a memória, o humor, a linguagem e a
atenção; impactando a aprendizagem e a saúde mental. Nos últimos anos,
educadores têm observado, entre alunos, um aumento significativo de sintomas
como irritabilidade, isolamento social, queda de rendimento escolar,
comparações constantes, padrões de perfeccionismo, dificuldade para dormir,
ansiedade e até episódios de agressividade quando o acesso às telas é
interrompido.
“Esse
cenário é catastrófico e não pode mais ser tratado como exceção. As crianças
estão vivendo menos a infância e mais o universo adulto. Estão aceleradas,
expostas e conectadas demais”, alerta Favano.
Tecnologia está “roubando” a infância
A
educadora ressalta que o “brincar” está sendo substituído por conteúdos
digitais rápidos, jogos hiper estimulantes e redes sociais, e isso tem impacto
direto no desenvolvimento cognitivo e emocional. “Brincar é um direito e uma
necessidade do indivíduo. Quando pulamos etapas do desenvolvimento ou
antecipamos experiências adultas, criamos fragilidades profundas. Estamos vendo
crianças cada vez mais preocupadas com estética, padrões, comportamentos de
adultos, exposição em redes e busca constante por validação”, diz Favano.
Esse
fenômeno, conhecido como adultização infantil, está intimamente ligado ao uso
precoce e sem supervisão das telas. Conteúdos sexualizados, perfis de
influenciadores adultos, conversas impróprias e padrões de consumo aceleram uma
maturidade que não acompanha a idade real. “A infância está sendo interrompida
pela tecnologia. As telas criam uma pressa que o cérebro infantil não suporta”,
reforça.
Como desconectar e reconstruir vínculos?
Segundo
Ana Claudia Favano, as férias são o momento ideal para reorganizar hábitos
familiares e criar rotinas que diminuam a dependência digital. A seguir, ela
sugere ações práticas que ajudam pais e responsáveis a conduzirem esse processo
de forma gradual e eficaz.
Acordo em família:
o primeiro passo é conversar com as crianças e adolescentes e estabelecer um
“acordo de férias”, com regras simples e coerentes sobre o uso dos aparelhos.
Definir horários específicos; elencar um local para guardar os dispositivos
durante os momentos de convivência; estabelecer ambientes da casa onde
celulares não entram; evitar os aparelhos durante as refeições e afastá-los dos
quartos à noite, são medidas práticas que ajudam a trazer previsibilidade e
equilíbrio ao dia a dia.
Ofereça alternativas reais e atrativas ao tempo de tela: os adultos podem preparar uma lista de atividades
“offline”, garantindo que a criança tenha opções concretas, simples e
interessantes. Ideias como montar cabanas, promover noites de jogos, cozinhar
juntos, fazer um álbum de fotos impressas ou criar caças ao tesouro são
recursos simples que devolvem à criança o prazer do brincar. Além disso,
explorar atividades ao ar livre como piqueniques, passeios de bicicleta ou
caminhadas, contribui para regular emoções e reduzir a ansiedade que pode surgir
com a diminuição das telas.
Proporcione atividades de convivência: a educadora reforça que as tarefas cotidianas
podem se tornar momentos de conexão. Fazer compras com as crianças, organizar o
quarto ouvindo música ou instituir o “minuto da conversa”, em que cada membro
da família compartilha algo bom ou difícil do dia, são maneiras de fortalecer
vínculos e ensinar escuta ativa. Esses rituais simples ajudam a construir um
ambiente emocionalmente seguro, especialmente importante em um período de
transição entre rotina escolar e férias.
Favoreça o descanso e qualidade de sono: é importante estabelecer rotinas de descanso que
incluam o desligamento total das telas pelo menos uma hora antes de dormir. Ler
histórias, conversar ou fazer pequenas atividades relaxantes ajudam o corpo e o
cérebro a desacelerarem; contribuindo para um sono mais profundo e restaurador,
o que impacta diretamente humor, memória e atenção.
Use a tecnologia com propósito: como não é possível restringir totalmente a tecnologia, é preciso
redefinir seu papel. Assistir a um filme juntos e comentá-lo, pesquisar conteúdos
educativos para um projeto manual ou ajudar a criança a navegar por temas de
interesse são formas de transformar o uso da tecnologia em algo construtivo. O
importante é que as atividades digitais nunca sejam uma “escolha automática”,
mas uma ação consciente, guiada ou acompanhada por um adulto, e com uma
finalidade clara.
Promova convivência e relações reais: as férias também são uma oportunidade para
reforçar o convívio presencial entre crianças. Convidar amigos para brincar sem
telas, organizar trocas de brinquedos com vizinhos ou propor atividades
coletivas, como pintura em grandes folhas ou oficinas de massinha, favorece a
socialização e o exercício das habilidades socioemocionais. Essas experiências
ajudam a resgatar o espírito do brincar, tão necessário para o desenvolvimento
saudável.
Dê o exemplo: nenhum
combinado se sustenta se o exemplo não vier dos adultos. Atitudes como guardar
o celular durante as refeições, evitar interrupções por notificações enquanto a
criança fala e demonstrar esforço pessoal para reduzir o tempo de tela, criam
um ambiente mais coerente e inspirador. As crianças aprendem muito mais pelo
que observam do que pelo que escutam. Quando percebem que os adultos também
estão tentando, a resistência diminui e a conexão aumenta.
“As
férias são a chance perfeita para iniciar essa mudança de comportamento. Ao dar
tempo, presença e limites, permitimos que crianças e jovens recuperem saúde
emocional, desenvolvam autonomia e reencontrem a alegria da convivência real. A
tecnologia não pode continuar substituindo a vida”, finaliza Ana Claudia.
Ana Claudia Favano - fundadora e atual gestora da Escola Internacional de Alphaville. É psicóloga; pedagoga; educadora parental pela Positive Discipline Association/PDA, dos Estados Unidos; e certificada em Strength Coach pela Gallup. Especialista em Psicologia da Moralidade, Psicologia Positiva, Ciência do Bem-Estar e Autorrealização, Educação Emocional Positiva, Convivência Ética e Dependência Digital. Dedicada à leitura e interessada por questões morais, éticas, políticas, e mobiliza grande parte de sua energia para contribuir com a formação de gerações comprometidas e responsáveis.
ISP – International Schools Partnership
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