Dentre os principais benefícios está a redução do risco de infarto, AVC e câncer, mesmo em idades mais avançadas
O número de fumantes no Brasil aumentou 25%, entre 2023 e 2024, de acordo com dados recentes apresentados pelo Ministério da Saúde, o que acende o sinal de alerta. Para se ter ideia, mais de 174 mil pessoas morrem no País anualmente por conta de doenças causadas pelo tabaco, sendo 55 mil por câncer. No mundo, são oito milhões de mortes, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Para diminuir essa porcentagem, campanhas como o Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado no dia 29 de agosto, são essenciais para conscientizar os jovens e a população 60+.
De acordo com a Dra. Amanda Santoro Fonseca Bacchin, geriatra especialista pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), o tabagismo iniciado na adolescência e mantido ao longo da vida está associado a um impacto substancialmente negativo sobre a saúde, incluindo maior risco de mortalidade precoce, com uma perda média de expectativa de vida entre oito e 10 anos, quando comparados a não fumantes. “O tabagismo contínuo está fortemente associado ao maior declínio funcional, o que inclui limitações físicas, pior mobilidade, dores musculoesqueléticas e maior prevalência de sintomas depressivos e ansiosos. Além disso, esse comprometimento da função física tende a se acentuar com a idade”, revela.
A geriatra explica
que as pessoas que começam a fumar após os 60 anos tendem a apresentar menor
carga tabágica em relação aos fumantes de longa data. No entanto, a pessoa
idosa pode ser mais vulnerável a infarto do miocárdio e acidente vascular
cerebral, devido à presença de comorbidades e reserva fisiológica reduzida. “É
importante ressaltar que a cessão do tabagismo traz benefícios mesmo em idades
avançadas, incluindo pessoas com mais de 80 anos.”
Diferentes
problemas
Dra. Amanda ressalta que a principal consequência do tabagismo é a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), atualmente a terceira causa de mortalidade no mundo e a quinta de internação pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Na pessoa idosa, particularmente, o tabaco provoca problemas cardiovasculares devido à aterosclerose, como infarto e Acidente Vascular Cerebral (AVC); alterações vasculares, osteoporose, hipertensão arterial, doença do refluxo gastresofágico; apneia do sono; diabetes, arritmia, depressão, demência, entre outros. “Independentemente se for cigarro, cachimbo, charuto, cigarro eletrônico ou narguilé, todos apresentam riscos significativos. Porém, existem diferenças importantes em relação à agressividade e à toxicidade de cada um”, observa, ao comentar que o cigarro é reconhecido como o mais agressivo à saúde, sendo responsável pelo maior risco de mortalidade por todas as causas, incluindo cânceres de pulmão, bexiga, esôfago, laringe, cavidade oral e pâncreas, além de doenças cardiovasculares. AVC e DPOC. “O risco de morte por câncer de pulmão, por exemplo, é maior em fumantes de cigarro a fumantes de charuto ou cachimbo, embora estes também apresentem risco elevado, especialmente para cânceres de vias aéreas superiores e DPOC.”
“Moda” entre os
mais jovens, o cigarro eletrônico também é outro vilão, provocando forte
dependência à nicotina e doenças respiratórias e problemas cardíacos. De acordo
com a geriatra, em adolescentes, pode afetar o desenvolvimento cerebral, além
de aumentar o risco de transição para o cigarro tradicional. “Apesar de ser
visto como menos prejudicial, não é seguro, e os efeitos a longo prazo ainda
são desconhecidos”, afirma, ao revelar que o narguilé, embora frequentemente
tido como menos nocivo, também são bastante prejudiciais, pois expõe as pessoas
a elevados níveis de monóxido de carbono, metais pesados (como cádmio e
chumbo), hidrocarbonetos aromáticos policíclicos e partículas finas, muitas
vezes superiores aos do cigarro convencional em uma única sessão de “uso”, que
costuma levar, em média, 30 minutos. “A literatura destaca que, embora a
evidência de doenças atribuíveis exclusivamente ao narguilé ainda esteja em
desenvolvimento, os níveis de exposição a toxinas são preocupantes e
potencialmente superiores ao cigarro em determinados cenários de uso.”
Quero parar.
O que fazer?
Para quem deseja parar de fumar, o primeiro passo é se inscrever em um programa antitabagismo, como os oferecidos nas Unidades Básicas de Saúde. Dra. Amanda explica que lá a pessoa terá o acompanhamento multiprofissional e auxilio de medicamentos para largar o vício. “Parar de fumar é um grande desafio, com altas taxas de insucesso. Mas, existem alternativas como reposição de nicotina por meio de gomas e adesivos; antidepressivos como a Bupropiona e a Vareniclina, que podem auxiliar a reduzir a ansiedade; intervenções comportamentais, como a terapia cognitivo-comportamental; aplicativos e tecnologias digitais; atividade física; meditação; mindfulness e até uma alimentação saudável pode trazer benefícios nesta luta”, ensina.
E nunca é tarde
para largar. Segundo a geriatra, ao parar de fumar é possível obter melhorias
claras em diversos órgãos e sistemas, embora nem todos os danos possam ser
completamente revertidos, principalmente em casos de doenças já estabelecidas,
como enfisema pulmonar avançada. “Depois de 20 minutos sem a nicotina, a
pressão arterial e a frequência cardíaca começam a se normalizar; após 12
horas, os níveis de monóxido de carbono no sangue caem, melhorando a oxigenação
dos tecidos. Além disso, o olfato e o paladar começam a melhorar já nas
primeiras 48 horas e a própria função pulmonar pode melhorar até 30% entre três
meses e nove meses sem cigarro. A partir de um ano, o risco de doença arterial
coronariana cai pela metade, assim como o risco de AVC que passa a ser
semelhante a quem nunca fumou. Por isso a cessação do tabagismo deve ser incentivada
em qualquer idade.”
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