Com quase quatro horas diárias conectados às redes sociais, os brasileiros estão entre os usuários mais ativos do mundo. O dado impressiona e chama atenção para um fenômeno que tem se agravado: o uso excessivo das plataformas digitais, embora traga inúmeras facilidades, está cada vez mais associado ao aumento de casos de ansiedade, depressão e baixa autoestima, sobretudo entre os jovens, ainda que os efeitos se espalhem por todas as faixas etárias. Um exemplo disso é o da influenciadora Gkay, que revelou no início do ano estar em tratamento para lidar com distorção de imagem. A pressão estética intensificada pelo ambiente digital a levou a reavaliar sua própria aparência, a reduzir o número de procedimentos estéticos e a buscar apoio psicológico. A ex-BB Gizelly Bicalho, a atriz Cristiana Oliveira e Giulia Costa, filha de Flávia Alessandra, também relataram sofrer do distúrbio.
A psicóloga Denise Tinoco Bedim, professora da Unig
(Universidade Iguaçu), afirma que o problema começa quando as redes deixam de ser
ferramentas de conexão e passam a alimentar comparações irreais.
“Ao se depararem com corpos padronizados, rotinas
perfeitas e conquistas constantes, as pessoas, sobretudo jovens, passam a se
comparar e podem desenvolver sentimentos de inadequação. Isso distorce a
percepção que têm de si mesmos e fragiliza sua identidade, o que em alguns
casos pode levar à depressão e à ansiedade”, explica.
Quando o feed vira armadilha
A comparação social, mesmo inconsciente, é um dos principais
gatilhos desse processo. Denise recorre à psicanálise para explicar: trata-se
de um mecanismo de defesa do ego, chamado idealização, ativado diante de
sentimentos de vazio e insegurança.
“Mesmo sabendo que as redes mostram apenas recortes,
reagimos emocionalmente”, pontua a especialista. “As postagens nas redes
sociais podem ativar sensações de pertencimento social, de mecanismos de
comparação, de busca por padrões ‘perfeitos’ ainda que dentro de uma realidade
editada, reforçando a ideia da busca pela completude, tão sonhada e
imaginada”.
Estudos recentes confirmam o alerta. Segundo o instituto
sueco Karolinska, o uso intenso de redes sociais está ligado ao aumento da
ansiedade e à queda da autoestima entre adolescentes, principalmente entre
meninas.
Já dados da plataforma Statista — um dos maiores portais globais de estatísticas e estudos de mercado — revelam que 81% dos brasileiros conectados à internet usam redes sociais. O Brasil também lidera o ranking mundial no tempo médio diário gasto nas plataformas: cerca de 3h49min por pessoa, superando países como Nigéria (3h44min) e Filipinas (3h38min).
Sinais de alerta
Entre os indícios de que a comparação nas redes está
afetando a saúde mental, Denise destaca:
• Sensação
frequente de inferioridade
• Dificuldade
em aceitar a própria aparência ou rotina
• Isolamento,
tristeza constante ou perda de prazer nas atividades diárias
• Medo
de postar ou interagir por insegurança
• Uso
excessivo de filtros ou edições em busca de aceitação
Como se proteger
A psicóloga reforça que é possível adotar atitudes simples
para evitar que as redes sociais se tornem prejudiciais:
• Praticar
o autoconhecimento e valorizar suas qualidades
• Evitar
comparações com vidas editadas
• Seguir
perfis que representem realidades diversas e positivas
• Priorizar
conversas e conexões offline
• Estabelecer
pausas regulares e conscientes no uso das redes
A professora da Unig reforça que não se trata de abandonar
totalmente as redes, mas de usá-las com mais consciência. Para ela, é essencial
investir em autoconhecimento, reconhecer as próprias qualidades e buscar
equilíbrio. Reduzir a exposição digital excessiva e valorizar conexões off-line
também são atitudes importantes nesse processo de fortalecimento da autoestima
e saúde emocional.


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