No mês de maio, quando celebramos o Dia Nacional da Adoção (25/05), uma notícia curiosa chamou atenção: uma mulher entrou na Justiça para pedir a guarda compartilhada de um bebê reborn — aquelas bonecas ultrarrealistas que imitam bebês de verdade. O caso gerou repercussão e dividiu opiniões nas redes sociais. Afinal, seria possível dividir a guarda de uma boneca? A resposta jurídica é clara: não. Por mais realista que pareça, o bebê reborn é uma “coisa”, um objeto, e o Direito não atribui guarda a objetos, mas sim a pessoas.
Esse fenômeno de “humanizar” objetos não é novo. Na clássica história de
Pinóquio, escrita por Carlo Collodi em 1883, o velho Gepeto, solitário e
carente, cria um boneco de madeira e sonha que ele se torne um menino de
verdade. A ficção revela, de forma poética, algo muito humano: a necessidade de
dar e receber afeto. Hoje, muitas pessoas — por solidão, traumas ou frustrações
— projetam sentimentos profundos em animais de estimação, mas o curioso é que
também acontece de ser manifestado em robôs e até em bonecas! Não é difícil
compreender, mas é importante refletir sobre o quanto esse afeto poderia ser
transformador se direcionado a crianças reais, que estão nos abrigos, esperando
uma família.
Atualmente, segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Brasil tem cerca de
4.800 crianças e adolescentes aptos à adoção. Ao mesmo tempo, há mais de 36 mil
pretendentes habilitados — ou seja, famílias dispostas, no papel, a adotar. O
que impede esse encontro? Um dos principais obstáculos está nas preferências
dos adotantes: a maioria quer bebês com até 2 ou 3 anos de idade, do sexo
feminino, brancos ou de pele clara. No entanto, o perfil predominante das
crianças disponíveis é outro: são, em sua maioria, meninos, com mais de 7 anos,
e de etnia parda ou negra.
Esse descompasso gera uma fila que, na prática, anda muito devagar. Enquanto
algumas famílias esperam anos por uma criança que se encaixe no “perfil ideal”,
milhares de meninos e meninas crescem em abrigos, vendo o tempo passar e a
esperança diminuir. A adoção tardia ainda é cercada de mitos e receios — o medo
de lidar com traumas, de não ser aceito, de não dar conta. Mas é importante
lembrar que todas as crianças, de qualquer idade, precisam de afeto, cuidado e
oportunidade.
Adotar não é um ato de caridade, mas de amor e responsabilidade. Não é
"salvar" uma criança, mas construir juntos uma nova história. E isso
exige coragem para acolher, paciência para aprender e disposição para amar de
verdade. Em vez de buscarmos a criança “perfeita”, talvez devêssemos nos
perguntar: que tipo de pais e mães queremos ser?
Neste mês da adoção, que tal olhar menos para os ideais e mais para a
realidade? Bonecos podem servir de consolo, mas não substituem o calor de um
abraço verdadeiro. Se você tem amor para dar, há uma criança de verdade
esperando por isso.
Marcelo Santoro
Almeida - professor de Direito de Família da Faculdade Presbiteriana Mackenzie
Rio
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