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Na Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, psicóloga perinatal alerta para os riscos à saúde mental e reforça a importância do acolhimento
A
gravidez na adolescência não é apenas uma questão de planejamento familiar, mas
também de saúde mental. De acordo com a psicóloga perinatal Rafaela Schiavo,
autora de centenas de estudos científicos e fundadora do Instituto MaterOnline,
a prevalência de gestações não planejadas em mulheres com menos de 20 anos é
alta e varia entre 15% e 20%. Isso acontece porque a adolescência, por si só,
já é uma fase de intensas mudanças emocionais e, quando combinada com os
desafios da gestação e da maternidade, pode aumentar os riscos de sofrimento
psíquico.
“Gestantes
adolescentes são um grupo de risco para a saúde mental. A fase da adolescência
já é um período potencial de risco para ansiedade e depressão, e o período
perinatal também é um período de risco. Imagine então quando esses dois
períodos de risco se encontram", alerta Rafaela.
A
Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, realizada anualmente
na primeira semana de fevereiro, busca ampliar o debate sobre o tema e garantir
que adolescentes tenham acesso à informação e suporte adequado.
"Precisamos
abordar essa temática, levando informações e orientações não somente aos
adolescentes, mas também aos pais, professores e profissionais da saúde. Sem o
apoio desses, o trabalho pode ser ineficaz". Ela também destaca que muitas gestações na
adolescência não ocorrem apenas por falta de informação, mas por fatores
sociais, religiosos e culturais, que impactam a segurança das relações sexuais
desses jovens.
"Achei
que não teria apoio"
O
medo do julgamento e a insegurança sobre o futuro foram os primeiros sentimentos
que surgiram quando Nicole Gomes, aos 16 anos, descobriu que estava grávida.
Como muitas adolescentes na mesma situação, ela não sabia como contar para a
família e temia enfrentar tudo sozinha.
“Fiquei
em choque e pensei que não conseguiria dar conta. As pessoas sempre falam que
uma gravidez na adolescência muda tudo, e eu tinha medo de não ter apoio”, conta.
A
reação da família foi diferente do que ela imaginava. “Minha mãe ficou receosa no começo,
mas me ajudou. Meu pai disse que já desconfiava e minha irmã ficou dividida
entre a preocupação e a felicidade. Mas o mais difícil foi perceber que, dos
muitos amigos que eu tinha, apenas uma realmente esteve ao meu lado”,
relembra.
Com
o passar dos meses, os desafios aumentaram. O pai do bebê se afastou, e Nicole
precisou aprender a lidar com a nova rotina sem o suporte dele. "Eu queria que ele estivesse
presente, mas isso não aconteceu. Além disso, as pessoas comentavam e me
olhavam diferente, e isso machuca. O começo foi o mais difícil, porque eu não
sabia como cuidar do meu filho. Aprendi aos poucos, mas foi um processo",
diz.
Os
impactos também atingiram seus estudos e a vida profissional. “Parei de estudar no começo porque
tinha medo do que as pessoas falariam. Depois que meu filho nasceu, voltei aos
estudos e tive que buscar empregos que me permitissem estar com ele. Meu maior
receio sempre foi perder momentos importantes da infância dele”,
afirma.
Hoje,
com quase 20 anos e com mais maturidade, Nicole explica que a “maternidade não é fácil, principalmente
no começo. É normal sentir medo e insegurança, mas aos poucos tudo melhora. Com
apoio e paciência, a gente aprende e segue”.
Mais
acolhimento, menos cobrança
Além
das pressões emocionais e culturais, as adolescentes grávidas enfrentam barreiras
sociais que tornam o período ainda mais desafiador. “A sociedade costuma responsabilizar apenas a jovem pela
gravidez e ignora o papel do parceiro. Isso agrava a pressão e aumenta o risco
de isolamento e abandono emocional”, alerta a psicóloga.
Para
Rafaela, o acolhimento não deve ser apenas para a mãe, mas para toda a rede de
apoio envolvida, incluindo os próprios adolescentes que desejam assumir a
paternidade, mas enfrentam essas barreiras sociais e familiares.
“Acolher
essas jovens com empatia e respeito é o primeiro passo para transformar o
futuro delas e dos bebês. Com suporte adequado e um olhar empático sobre as
barreiras culturais e sociais, é possível enfrentar os desafios da gestação
precoce de forma mais segura”, conclui.
Ainda
segundo a psicóloga, a prevenção da gravidez na adolescência vai além do acesso
a anticoncepcionais. É necessário criar um ambiente seguro para que os
adolescentes tomem decisões com mais consciência e desenvolvam relações
saudáveis.
Veja 5 formas de acolher:
1.
Evite julgamentos
Frases
como “você estragou sua vida” aumentam o isolamento da adolescente. Acolher sem
críticas é essencial para que ela se sinta segura e tenha o suporte necessário
para enfrentar a gestação.
2.
Incentive o início do pré-natal
Muitas jovens escondem a gravidez por medo ou vergonha, o que pode atrasar o início do pré-natal e aumentar os riscos de complicações. Oferecer apoio emocional é essencial para que busquem atendimento médico o quanto antes.
3.
Fique atento a sinais de depressão
Rejeição ao bebê, tristeza persistente ou falta de motivação podem ser sinais de depressão. Nem toda rejeição ao bebê está ligada a transtornos mentais, mas uma avaliação psicológica é fundamental para entender o contexto e oferecer suporte adequado.
4.
Apoie a continuidade dos estudos
O abandono escolar é uma das consequências mais comuns da gravidez precoce, comprometendo o futuro da jovem e do bebê. Com apoio familiar e uma rede de apoio, é possível reorganizar a rotina para que ela conclua os estudos.
5.
Oriente sobre os direitos disponíveis
Muitas
adolescentes desconhecem que têm acesso a serviços como pré-natal gratuito pelo
SUS e, em casos previstos em lei, ao aborto legal. Informar sobre esses
direitos pode salvar vidas e oferecer mais segurança durante a gravidez.
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