"A chave para reduzir esses danos é a implementação de boas práticas assistenciais"
Uma decisão recente da 9ª Câmara de Direito Privado
do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, determinou a indenização de R$ 500
mil a uma mulher que perdeu o bebê devido a um “erro médico” durante a
gestação. O caso reacende o debate sobre a segurança nos cuidados pré-natais e
a responsabilidade médica em casos de falha na assistência às gestantes.
Especialista em perícia médica aponta que muitos casos poderiam ser evitados com
diagnósticos precoces, condutas seguras e protocolos atualizados.
A médica Caroline Daitx, especialista em medicina
legal e perícia médica, destaca que embora seja popularmente
conhecido como “erro médico”, o termo deixou de ser utilizado pelo judiciário
brasileiro desde o ano passado, quando o Conselho Nacional de Justiça (CNJ)
substitui a nomenclatura para “danos materiais e/ou morais decorrentes da
prestação de serviços de saúde”.
Os chamados "danos associados aos cuidados com
a saúde" na gestação, podem ocorrer por falhas no diagnóstico, tratamento
inadequado, negligência ou omissão. Entre as causas mais comuns a médica
destaca:
- Diagnóstico
e tratamento inadequado de doenças maternas: falhas na identificação de
hipertensão gestacional, diabetes gestacional e infecções;
- Erro
na detecção de malformações fetais: omissão de exames de ultrassom morfológico ou
testes genéticos quando necessários;
- Falta
de identificação do sofrimento fetal: sinais de restrição de
crescimento intrauterino podem ser ignorados;
- Condutas
inadequadas no parto: uso excessivo de ocitocina sem indicação
adequada, demora na indicação de cesariana em casos de risco e manobras
contraindicadas, como a manobra de Kristeller, proibida pelo Conselho
Federal de Medicina (CFM);
- Acompanhamento
insuficiente do trabalho de parto e monitoramento da vitalidade fetal.
Para evitar esses problemas, a especialista
ressalta que um pré-natal bem conduzido, com exames regulares e atenção
contínua às queixas maternas, é essencial. “A chave para reduzir esses danos é
a implementação de boas práticas assistenciais, baseadas em evidências
científicas e na atualização constante dos protocolos médicos”, enfatiza Daitx.
Nos casos de possíveis “erros médicos”, a perícia
médica desempenha um papel crucial na avaliação da conduta profissional.
Segundo a especialista, a perícia não tem o papel de julgar se houve
negligência, imperícia ou imprudência, pois isso cabe ao juiz de direito.
Entretanto, o perito médico analisa documentos, prontuários, exames e, quando
necessário, realiza avaliações físicas da paciente ou exames post-mortem para fornecer
ao magistrado subsídios técnicos para a tomada de decisão.
Há também a figura do assistente técnico, que é um
perito atuando na defesa da parte envolvida, seja em processos judiciais ou
extrajudiciais. Esses profissionais são fundamentais para esclarecer se houve
falha na condução do caso e quais foram os impactos dessa falha na vida da
gestante e do bebê.
Por fim, a perita enfatiza que “a prevenção de
danos à saúde materno-fetal não é apenas uma questão de responsabilidade
individual dos profissionais, mas também um compromisso das instituições de
saúde. A perícia médica atua como uma grande fiscalizadora das condutas médicas
e institucionais, contribuindo para a melhoria dos índices de assistência,
redução de processos judiciais e economia de recursos do sistema de saúde,
tanto público (SUS) quanto suplementar (planos de saúde)”, finaliza Daitx.
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