Alguns voluntários apresentavam fatores de risco para doença
cardiovascular, que aparentemente foram potencializados pela COVID-19
(foto: Andréia Machado Santos)
Em estudo com 130 voluntários
conduzido na UFSCar, foi observada – até seis semanas após a infecção – uma
diminuição drástica na variabilidade da frequência cardíaca, ou seja, na
capacidade do coração de se adaptar às demandas ambientais e fisiológicas
Pessoas que tiveram COVID-19,
incluindo quadros leves, tendem a apresentar no curto e médio prazo
desequilíbrios no sistema cardiovascular, precisando buscar tratamento de reabilitação.
Foi o que constatou um estudo com 130 voluntários conduzido na Universidade
Federal de São Carlos (UFSCar) com apoio da
FAPESP.
Segundo dados divulgados na revista Scientific
Reports, os participantes testados até seis semanas após a infecção
apresentaram uma diminuição drástica na variabilidade da frequência cardíaca
(VFC), ou seja, na variação do tempo entre cada batimento do coração. Já
aqueles testados nos períodos entre dois e seis meses ou entre sete e 12 meses
após a infecção mostraram melhoras paulatinas, mas sem chegar ao patamar do
grupo-controle (composto por pessoas não infectadas pelo SARS-CoV-2).
A VFC é considerada um bom
indicador da saúde, pois sinaliza a capacidade do coração de se adaptar às
demandas fisiológicas. Dessa forma, quanto menor for o índice, pior os ajustes
da frequência cardíaca e a adaptação a estressores ambientais (situações de
fuga, angústia e medo) e fisiológicos (inflamação sistêmica, característica da
COVID-19, por exemplo).
“Este estudo reforça a
necessidade de programas de reabilitação até para pessoas que tiveram COVID-19
leve e não foram hospitalizadas. Os participantes tinham em média 40 anos de
idade e alguns apresentavam fatores de risco para doença cardiovascular, como
colesterol elevado, tabagismo, diabetes, obesidade e hipertensão arterial.
Aparentemente, a COVID-19 potencializou esse desequilíbrio cardiovascular e,
por consequência, aumentou o risco de doenças”, conta Audrey Borghi Silva,
coordenadora do Laboratório de Fisioterapia Cardiopulmonar (Lacap) da
Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
O impacto da COVID-19 no
controle autonômico cardíaco tem sido demonstrado em diversos estudos. “Nossa
pesquisa contribui para a confirmação desse impacto e demonstra que ele pode
acontecer também em indivíduos jovens ou de meia-idade que tiveram COVID-19
leve e não precisaram ser hospitalizados”, destaca Aldair Darlan
Santos-de-Araújo, pesquisador da UFSCar e primeiro autor do artigo.
Descompasso
Além da menor variabilidade da
frequência cardíaca, os pesquisadores observaram nos voluntários infectados
pelo SARS-CoV-2 uma predominância do sistema nervoso simpático sobre o
parassimpático. Estes são as duas faces do sistema nervoso autônomo, que
controla as funções involuntárias do organismo, como a pressão arterial e a
temperatura corporal. Enquanto o sistema parassimpático, entre outras tarefas,
faz o coração desacelerar quando necessário, cabe ao simpático aumentar a
frequência cardíaca em situações que envolvam perigo e medo, por exemplo.
“O bom funcionamento
cardiovascular exige um equilíbrio entre esses dois mecanismos e, o que
observamos, é que o impacto negativo da infecção pela COVID-19 nesses
indivíduos provocou um desbalanço no sistema nervoso autonômico”, conta
Santos-de-Araújo. “O padrão observado – de redução da variabilidade da
frequência cardíaca e predominância do sistema nervoso simpático [ou redução da
atividade parassimpática] – indica não apenas diminuição da modulação
autonômica global, mas também sugere uma maior probabilidade de desfechos
cardiovasculares desfavoráveis.”
Além disso, destacam os
pesquisadores, os resultados inferem uma possível fase de transição da
recuperação autonômica cardíaca, uma vez que os indivíduos avaliados no grupo
com maior tempo de recuperação desde o diagnóstico apresentavam um
comportamento melhor desse equilíbrio simpático-parassimpático.
“Esse efeito transitório pode
ser observado com mais clareza no grupo avaliado mais precocemente [até seis
semanas após a infecção], que apresentava pior variabilidade de frequência
cardíaca, melhorando progressivamente com o tempo, contudo, não atingindo os
níveis observados no grupo de participantes não infectados”, explica
Santos-de-Araújo.
O estudo mostrou ainda que a
dispneia (falta de ar) foi o sintoma mais comum entre os indivíduos com pior
modulação autonômica cardíaca, mas não foi o único. “No grupo dos indivíduos
monitorados no período mais próximo da infecção observamos maior percentual de
tosse [47%], fadiga [50%], cefaleia [56%], ageusia [perda do paladar, 53%],
ansiedade [62%], coriza [50%] e maior prevalência de indivíduos não vacinados
[44%]”, conta Santos-de-Araújo.
O artigo Impact of
COVID-19 on heart rate variability in post-COVID individuals compared to a
control group pode ser lido em: www.nature.com/articles/s41598-024-82411-w.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/ate-a-forma-leve-da-covid-19-tende-a-causar-desequilibrio-no-sistema-cardiovascular-e-requer-atencao/54065
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