A pandemia da Covid-19 tem demonstrado que o home office é tecnicamente viável e veio para ficar. Firma-se o modelo híbrido de trabalho remoto, na medida em que este permite o revezamento entre o trabalho em casa e na empresa, equilibrando qualidade de vida, produtividade e necessidade de interação social.
Atento às milhares de notícias (e fake news) sobre
a pandemia que leio, vejo e escuto diariamente em todos os meios, uma delas me
chamou a atenção: ela dizia que, além de inúmeros benefícios para as empresas,
o home office contribui ainda para o meio ambiente. Essa afirmação
trata-se de uma realidade complexa que precisa de análise crítica e mensuração
científica. No centro dessa discussão estão, principalmente, energia, água,
alimentação e mobilidade, justamente os recursos que mais causam lesão
ambiental ao planeta.
De fato, é possível considerar que o home office
acelerou a transformação digital, especialmente em digitização e digitalização
de processos corporativos. Além de agilidade nos processos, houve diminuição do
uso de papel e impressões. Também há que se considerar a menor mobilidade e,
portanto, menor consumo de combustíveis. Ainda é possível considerar a menor
necessidade por roupas e calçados novos.
Contudo, a realidade já dá alguns indícios de que o
impacto do trabalho remoto no meio ambiente também depende do estilo de vida do
colaborador. Se a rotina de trabalho está implicando em maior uso de recursos,
como água e energia, então, o home office pode estar sendo uma prática menos
sustentável se comparado ao trabalho tradicional na empresa. O mesmo é válido
para a alimentação. Se houver aumento do consumo de alimentos industrializados,
então é esperada maior geração de resíduos, especialmente plásticos, que também
são predominantemente originados do petróleo.
Percebe-se, portanto, que estilo de vida e hábitos
de consumo são elementos decisivos na análise do impacto do trabalho remoto
sobre o meio ambiente. Diante disso, a empresa deve promover a sustentabilidade
ambiental também no home office, uma vez que ocorre uma evidente transferência
de responsabilidades sobre o uso de recursos, especialmente os já mencionados,
como energia, água e alimentação. Deve, por exemplo, orientar a adequada
disposição de móveis e equipamentos para o melhor uso de iluminação natural, o
uso de embalagens retornáveis para aquisição de refeições, o consumo consciente
de água, o consumo de serviços e produtos ofertados próximos à residência dos
colaboradores, dentre outros possíveis comportamentos domésticos que ampliem a
consciência sobre o consumo de recursos, como princípios do minimalismo, por
exemplo.
Consciência sobre o consumo significa abandonar
comportamentos automáticos e agir objetivamente nos chamados 3Rs (reduzir,
reutilizar e reciclar), princípios basilares da sustentabilidade ambiental que
também devem estar presentes nas práticas de toda empresa.
Este tempo, do novo normal do trabalho remoto,
também é o tempo em que o planeta chega ao chamado ponto de não retorno da
capacidade de autorrecuperação dos sistemas naturais. Sobram evidências
científicas dessa possível realidade sem volta. Portanto, pesa sobre o
colaborador a necessidade de transformar o seu escritório doméstico em um
reduto ambientalmente sustentável, inclusive podendo contribuir com as letárgicas
práticas de neutralização de emissões de carbono da grande massa das empresas
globais.
Cleonir Tumelero - doutor em Administração, é professor dos Programas de Pós-Graduação em Administração e Gestão Ambiental da Universidade Positivo.
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