Março é mês de prevenção do tumor de colo uterino; 90% das mortes ocorrem em países de média a baixa renda
Anualmente, cerca de 311.000 mulheres morrem por câncer de colo uterino, sendo que aproximadamente 90% dessas mortes ocorrem em países de média a baixa renda. No panorama global atual das neoplasias malignas, o tumor é o quarto tipo de câncer mais comumente diagnosticado entre as mulheres, e a terceira causa de morte por câncer entre elas. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer estima para o triênio de 2020 a 2022 uma média de 16.000 novos casos de câncer de colo uterino por ano, representando o terceiro câncer mais comum entre as mulheres brasileiras. De acordo com o oncologista Leonardo Roberto da Silva, do Grupo SOnHe – Sasse Oncologia e Hematologia, apesar desse cenário, o câncer de colo uterino é uma doença evitável. “Além disso, é potencialmente curável, quando diagnosticado precocemente e tratado de forma adequada”.
O câncer de colo uterino é causado por uma infecção viral sexualmente transmissível. O vírus responsável é chamado papilomavírus humano (HPV), um vírus de DNA que apresenta mais de 200 sorotipos. Dentre eles, 14 tipos são causadores de câncer, sendo denominados de alto risco. “Os tipos mais comumente associados ao câncer de colo uterino são o 16 e o 18, responsáveis por cerca de 70% dos casos desse tipo de câncer. A grande maioria das pessoas será infectada pelo HPV em algum momento da vida, sendo o maior pico de infecção logo após o início da vida sexual ativa. Além disso, sabe-se que algumas pessoas sofrerão infecções repetidas”, explica o oncologista.
Frequentemente, a
infecção pelo HPV sofre resolução espontânea, em um período que pode chegar a
dois anos. No entanto, em alguns casos, a infecção pode persistir e levar ao
desenvolvimento de lesões precursoras e, eventualmente, o câncer de colo
uterino. “O tempo médio entre a infecção e o desenvolvimento do câncer de colo
uterino é de 15-20 anos. Existem alguns fatores que estão associados ao aumento
do risco de persistência da infecção pelo HPV e, consequentemente, do
desenvolvimento do câncer. São eles: deficiências do sistema imune, tabagismo
(ativo e passivo), e concomitância de outras infecções sexualmente
transmissíveis (como gonorreia e clamídia)”, esclarece o médico.
Estratégias de prevenção
Segundo o
oncologista, é possível reduzir o número de novos casos da doença e, em última
instância, reduzir também o número de mortes causadas pelo câncer em questão.
“A prevenção do câncer de colo uterino envolve a tomada de ações com o objetivo
de reduzir o risco de desenvolvimento da doença. A primeira delas é a
prevenção da infecção pelo HPV com a vacina quadrivalente, introduzida no
Programa Nacional de Imunização (PNI) no ano de 2014, recomendada para meninas
com idade entre 9 e 13 anos e para meninos com idade de 11 a 13 anos. Elas são
capazes de prevenir mais de 95% das infecções pelo HPV tipos 16 e 18, mas
também oferecem proteção cruzada com outros tipos menos comuns. As vacinas contra
o HPV são bastante seguras. A segunda estratégia baseia-se no
rastreamento do câncer de colo uterino. O objetivo é detectar lesões
precursoras de câncer ou mesmo o câncer, porém nos seus estágios mais iniciais.
Atualmente, dispomos de três medidas para rastreamento: a. exame de
Papanicolaou; b. inspeção visual do colo uterino com aplicação de ácido
acético; c. exame para detecção de infecção por HPV de alto risco. A
recomendação da OMS é de que todas as mulheres sejam submetidas a no mínimo um
exame de rastreamento entre os 30 e 49 anos de idade”, explica.
No ano de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou uma campanha mundial para o aceleramento da eliminação do câncer de colo uterino, com o compromisso de 194 países para a adoção de medidas que visam atingir esse objetivo. Tais medidas devem ser atingidas até o ano de 2030, com o objetivo de atingir uma incidência de no máximo 4 casos por 100.000 mulheres, fazendo com que o câncer de colo uterino deixe de ser um problema de saúde pública. Em estudo publicado recentemente, com base em uma análise de 78 países de baixa e média renda, estimou-se que, caso as metas da OMS sejam alcançadas, até o ano de 2120 serão evitadas quase 61 milhões de mortes por câncer de colo uterino. Ao longo dos próximos 10 anos, quase metade das mortes evitadas ocorreria na África sub-Sahariana.
O programa da OMS
para o aceleramento da eliminação do câncer de colo uterino envolve três
medidas: cobertura de vacinação de 90% das meninas até os 15 anos; cobertura de
rastreamento do câncer de colo uterino de 70%, aos 35 anos e aos 45 anos, com
testes adequados e de qualidade e, garantia de que 90% das mulheres com doença
de colo uterino (lesões precursoras ou câncer) recebam tratamento adequado e em
tempo hábil. “Em 2020, pesquisadores publicaram uma análise de modelos
estatísticos considerando 78 países de baixa e média renda para a avaliação dos
resultados de longo prazo da associação da vacinação contra HPV ao
rastreamento. Estimou-se que quando realizada apenas a vacinação, 60% dos
países atingiriam uma incidência de até 4 casos/100.000 mulheres (o alvo
definido pela OMS). A combinação com o exame de rastreamento elevou essa
porcentagem de países para 99%. Além disso, a eliminação do câncer de colo
uterino seria alcançada 11-31 anos antes com a estratégia combinada (vacinação
+ rastreamento), quando comparada à vacinação apenas. Ou
seja, uma combinação potencial de reduzir significativamente o impacto do
câncer de colo uterino no mundo”, finaliza Dr. Leonardo.
Leonardo Roberto da Silva -
formado em Oncologia Clínica pela Universidade Federal Minas Gerais, é
oncologista do Caism/Unicamp, com função docente junto aos residentes em
Oncologia Clínica da Unicamp. É mestre em Oncologia Mamária pela Unicamp e
doutorando na área de Oncologia Mamária pela FCM-Unicamp, com extensão na
Baylor College of Medicine – Houston/Texas, EUA. É membro titular da
Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), da Sociedade Americana de
Oncologia Clínica (ASCO) e da Sociedade Europeia de Oncologia Clínica (ESMO).
Leonardo faz parte do corpo clínico de oncologistas do Grupo SOnHe –
Sasse Oncologia e Hematologia e atua no Radium Instituto de Oncologia, no
Hospital e Maternidade Madre Theodora e no Hospital Santa Tereza.
Grupo
SOnHe - Sasse Oncologia e Hematologia
Redes
sociais @gruposonhe.
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