Alguém pode estar só meramente porque restou
em algum instante desacompanhado; há quem opte por estar afastado de todos; é
possível que alguém acabe sozinho porque se tornou insuportável para as demais
pessoas; muitos são solitários por não conseguir vencer o medo de aproximação.
Algumas pessoas procuram companhia para
preencher o vazio da sua existência. Outras o fazem por não se suportarem a si
mesmas. Suponho que há muitos motivos para quase ninguém gostar de estar só.
Não importa a razão, em geral, não suportamos estar solitários. Ficamos
agoniados.
Sei que há muito palpite sobre a solidão.
Altemar Dutra cantava: “Antes só do que mal acompanhado”. Não creio nisso. A se
ficar só, prefere-se qualquer tipo de companhia, inclusive as más. Vinicius de
Moraes foi mais sincero: “Mesmo o amor que não compensa é melhor que a
solidão”.
Desconfio que até Charles Bukowski mentia
quando afirmava que gostava das pessoas, mas as preferia longe. Afinal, ele se
complicava com a maioria delas, mas gostava de ter sempre com quem se
complicar. Bukowski não era um retirado, mas um provocador. Um provocador
acompanhado.
Intelectuais importantes refletiram sobre as
circunstâncias da convivência: Jean Paul Sartre dizia que o inferno são os
outros. Victor Hugo pensava que solidão é o inferno. Nem sempre. Fico no
entremeio proposto por Josh Billings: a solidão é um lugar bom de se visitar,
mas não é uma boa morada.
A ciência, enfim, compareceu. A FSP (Juliana
Vines, 22jul14), noticia uma pesquisa da “Science” sobre essa questão de ficar
a sós com os próprios pensamentos. “O resultado do estudo surpreendeu até o seu
coordenador, o psicólogo Timothy Wilson, da Universidade da Virgínia (EUA).
Desafiadas a ficar de seis a 15 minutos sem
companhia (e sem celular), 57% das pessoas afirmaram dificuldades para se
concentrar, 89% disseram que a mente vagou e 49% não gostaram da experiência.
Em outro teste, 67% dos homens e 25% das mulheres preferiram levar choques a
ficar sós”.
Para Wilson, "parece que há uma
dificuldade para se distrair com a própria mente”. A convivência com a
tecnologia de comunicação individual denuncia um sintoma e é uma causa dessa
dificuldade, restando que “hoje temos menos oportunidade para refletir e desfrutar
dos nossos pensamentos".
A meu ver, esse problema acompanha a humanidade;
é seu apanágio. O sucesso de todo esse aparato tecnológico não é só uma questão
de oferta tentadora, mas também de uma tentação demandadora. Esses
brinquedinhos serenam a nossa insaciável sede de contato.
E a isso, segundo Lívia Godinho Nery Gomes
(psicóloga, UFS), soma-se outro fenômeno que as mídias sociais incrementaram: a
necessidade de estar sempre disponível. “Há um apelo muito grande para
estar em rede, compartilhar. Quem está de fora sente que está perdendo alguma
coisa”.
Roberto Novaes de Sá (psicólogo, UFF) pontua:
"A noção de realidade, de estabilidade e segurança é construída
socialmente, através das relações com os outros e das ocupações. Quando não
estamos inseridos em alguma atividade há um sentimento de não realização,
fragilidade e angústia".
O sociólogo português José Machado Pais
abrange o relacionar-se consigo e com outras pessoas, e arremata bem: “A
solidão surge quando não há capacidade de comunicação com os outros ou consigo.
O estar só não significa estar em solidão se você está de bem consigo
mesmo".
Estar de bem consigo mesmo. Essa é toda a
questão. Mas tal só é possível se o indivíduo portar um tanto de conteúdo
mental que aporte sentidos à própria existência. Se alguém for um deserto de
ideias, como poderá ter afetos agradáveis consigo? Que vida interior há em um
interior vazio?
Aliás, falta de conteúdos que enriqueçam o
existir produz estranhos agrupamentos de solitários: ovelhas buscam suas
religiões, entorpecidos acorrem aos balcões das farmácias, bêbados apostam
esperança no álcool, utentes de outras drogas se empenham com seus traficantes.
Penso nas noites: multidões à procura de
encontros. Nenhum encontro basta para a completude humana. Sós não somos
suficientes, mas ninguém se apazigua buscando sentidos fora de si. Ou o sujeito
se faz admirável por si mesmo, ou jamais deixará de estar ávido do que não
encontrará.
Léo Rosa de Andrade - Doutor em
Direito pela UFSC. Psicólogo e Jornalista.
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