![]() |
| Estar presente para si mesma é o que permitirá, a longo prazo, que a mãe atípica continue estando presente para seu filho Freepik |
Ana sempre sonhou com a maternidade. Quando seu filho, Pedro, nasceu e foi diagnosticado com uma condição neurológica rara, sua vida mudou. Deixou o emprego, adaptou sua rotina e se tornou onipresente em cada etapa do desenvolvimento. Com o tempo, Ana foi esquecendo de si mesma. Seu mundo passou a girar apenas em torno dos cuidados, e o cansaço e a solidão se tornaram companhias constantes. Ana é um exemplo fictício, mas reflete a realidade de muitas mães atípicas: mulheres que precisam ser lembradas de que, para cuidar bem, é preciso, antes de tudo, cuidar de si.
Ser mãe atípica é atravessar uma transformação
profunda na forma de ver o mundo e de se relacionar com a vida. Mulheres que
têm filhos com deficiências intelectuais, físicas, transtornos do espectro
autista ou síndromes raras se tornam, muitas vezes, mais do que mães: tornam-se
cuidadoras constantes, presentes em todas as dimensões do desenvolvimento de
seus filhos.
Essa dedicação é, sem dúvida, belíssima. O
envolvimento ativo da mãe faz diferença decisiva no progresso, na reabilitação
e na socialização da criança. No entanto, também é comum que a mulher, diante
dessa entrega integral, acabe negligenciando suas próprias necessidades
enquanto ser humano.
Abandono e sobrecarga
Uma das primeiras condições para que a mãe atípica
não se perca de si mesma é contar com uma rede de apoio. No entanto, sabemos
que nem sempre essa rede se concretiza. Segundo um levantamento realizado pelo
Instituto Baresi, cerca de 78% dos pais abandonaram as mães de crianças com
deficiências e doenças raras no Brasil antes que os filhos completassem cinco
anos. Essa realidade impõe às mães uma sobrecarga emocional e física que
precisa ser reconhecida.
Construir uma comunidade de apoio, especialmente
com outros pais e mães atípicos, torna-se um pilar de autocuidado. Nessas
relações de troca, é possível reencontrar a autoestima, redescobrir, a partir
do exemplo de vivências de terceiros, possibilidades de vida social, de vida
afetiva, sexual e de atenção à própria saúde física e mental.
O cuidado físico também é essencial. Muitas mães
que precisam erguer, carregar ou movimentar seus filhos desenvolvem lesões
musculoesqueléticas ao longo dos anos. A intervenção da terapia ocupacional,
tanto para a criança quanto para a mãe, faz diferença ao orientar estratégias
de proteção ao corpo e adaptação de tarefas diárias, ajudando a preservar a
autonomia e prevenir complicações de saúde.
Não menos importante é o acompanhamento
psicológico. A sobrecarga emocional de quem cuida é intensa e acumulativa.
Estresse, ansiedade, medo do futuro e de imprevistos na vida causarem sua
ausência na vida da criança, são sentimentos frequentes que merecem acolhimento
e tratamento.
Conhecer seus direitos
Outro ponto fundamental é o conhecimento dos
direitos das mães atípicas. Recentes decisões do Tribunal Superior do Trabalho
(TST) têm reconhecido, por exemplo, o direito à redução ou flexibilização da
jornada de trabalho sem redução salarial para quem tem filhos com Transtorno do
Espectro Autista (TEA).
Isso possibilita às mães negociar com seus
empregadores formas de trabalho que respeitem sua condição de cuidadora.
Benefícios sociais como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) também são
direitos importantes, que podem aliviar o peso financeiro, anda mais da mãe em
situação de abandono.
Valorizar a própria existência é, portanto, uma estratégia de sobrevivência e resistência. Estar presente para si mesma é o que permitirá, a longo prazo, que a mãe atípica continue estando presente para seu filho, com a força e a ternura que esse papel tão singular exige.
Syomara Cristina Szmidziuk - atua há 34 anos
como terapeuta ocupacional e tem experiência no tratamento em reabilitação dos
membros superiores em pacientes com lesões neuromotoras. Faz atendimentos com
terapia infantil e juvenil, adultos e terceira idade. Desenvolve trabalhos com
os métodos Bobath, Baby Course Reabilitação Neurocognitiva Perfetti,
Reabilitação de Membro Superior- Terapia da Mão, Terapia Contenção Induzida
(TCI) e Imagética Motora entre outros.

Nenhum comentário:
Postar um comentário