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quarta-feira, 28 de maio de 2025

InCor estuda impacto no coração de atleta que correu 366 maratonas em 366 dias consecutivos

 

Pesquisa inédita publicada na revista Arquivos Brasileiros de Cardiologia, investigou os efeitos do exercício extremo no coração.

Os resultados surpreendem: mesmo sob esforço contínuo e intenso, a função cardíaca de Hugo permaneceu preservada, sem sinais de arritmias ou alterações inflamatórias


O ultramaratonista Hugo Farias entrou para o Guinness World Records ao completar um feito inédito: correr 366 maratonas em 366 dias consecutivos. Mais do que uma conquista esportiva extraordinária, o desafio serviu como base para um estudo científico liderado pela equipe do Instituto do Coração (InCor) HCFMUSP que monitorou, de forma inédita, o impacto de um volume extremo de exercício contínuo sobre o sistema cardiovascular humano.

A pesquisa, que acaba de ser publicada na revista científica Arquivos Brasileiros de Cardiologia — principal periódico da especialidade na América Latina e de repercussão internacional —, une ciência e superação humana em uma narrativa inédita na cardiologia esportiva. Com o objetivo de investigar as possíveis adaptações cardiovasculares provocadas por esse esforço prolongado, uma equipe multidisciplinar acompanhou o atleta ao longo de um ano. O protocolo incluiu avaliações clínicas periódicas, exames laboratoriais, testes cardiopulmonares de esforço, ecocardiogramas e análise da composição corporal.

Durante a primeira avaliação, o atleta mostrou estar em ótima forma, sem doenças cardíacas ou comorbidades prévias. Ele tinha excelente capacidade cardiorrespiratória, pressão arterial normal, e todos os exames de sangue estavam normais. Ao longo de um ano, mesmo correndo a distância de uma maratona (42,195 km) todos os dias, seus exames continuaram estáveis, sem sinais de problemas no coração ou no metabolismo.

“O funcionamento do coração também está bom: a parte do coração que bombeia o sangue (o ventrículo esquerdo) está funcionando normalmente, com uma fração de ejeção do ventrículo esquerdo de 62%, o que é considerado saudável. Não foram encontradas arritmias perigosas (batimentos cardíacos irregulares graves), e os exames de sangue que poderiam indicar algum problema no coração — como a troponina e a proteína C reativa — estão com resultados normais”, explica o pesquisador Francis Ribeiro de Souza, do Centro de Avaliação CardioMetabólica da Comissão Científica do InCor.

Segundo ele, os dados sugerem que o sistema cardiovascular humano pode se adaptar de forma eficiente a volumes extremos de exercício aeróbico diário, desde que com intensidade moderada e com acompanhamento adequado. Além de entrar para a história do esporte mundial, o caso representa um marco na medicina esportiva, destacando o potencial de adaptação do corpo humano a desafios antes considerados fora dos limites fisiológicos.

“O acompanhamento cardiovascular do ultramaratonista reforça uma mensagem fundamental: a prática regular de atividade física, quando bem acompanhada, é segura e tem um impacto direto na melhora da saúde vascular e é uma aliada poderosa na prevenção de doenças. Promover o exercício é também uma forma de reduzir a sobrecarga sobre o sistema público de saúde.”, conclui o Prof. Dr. Roberto Kalil Filho, presidente do InCor e diretor da Divisão de Cardiologia Clínica.


Feito histórico

O estudo foi realizado entre 28 de agosto de 2022 e 28 de agosto de 2023 e ao todo, Hugo percorreu 15.443 km durante o Projeto Propósito, distância equivalente a uma viagem de Americana, no interior de São Paulo, até a Sibéria, no extremo do continente asiático. Durante o desafio, ele consumiu mais de 2 milhões de calorias, o equivalente a cerca de 8.000 pratos de feijoada ou a energia necessária para abastecer uma casa por quase um ano.

Para suportar o impacto diário das corridas, utilizou 27 pares de tênis, o suficiente para calçar um time inteiro de futebol por quase três temporadas. Além disso, acumulou um ganho altimétrico de mais de 122.950 metros — o que representa cerca de 14 vezes a altitude do Monte Everest ou quase 400 vezes a altura do Pão de Açúcar.

 

InCor


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