Ouvi essa história na prédica de um monge budista brasileiro, Gustavo Pinto, na década de noventa. A vida parecia mais fácil nos anos noventa. A história, encantadora, é de um mestre Zen que estava para fazer alguma viagem, o que exigiria alguns dias de ausência. Ele reuniu seus seguidores e apontou para a sala de Meditação. Disse que quando voltasse, essa sala deveria estar perfeita. Foi um rebuliço. Os monges passaram os dias em meticulosa limpeza de cada centímetro quadrado daquela local de meditação: cada grão de poeira foi removido e cada detalhe, polido. Ela estava toda brilhando e foi fechada antes da chegada do mestre, para se preservar a limpeza próxima da perfeição. Quando o amado guia chegou, o monastério fervia de expectativa, se aquela sala estaria, ou não, perfeita. O mestre adentrou o recinto com cuidado e atenção, examinou a limpeza e a harmonia do local. Inesperadamente, saiu da sala e pegou um bocado de sujeira, de poeira, de insetos e de folhas e espalhou nos bancos e no piso brilhante. Houve quem fizesse menção de impedir aquele ato e limpar aquela sujeira. O mestre olhou para aqueles olhares atônitos e falou: “Agora está perfeito”.
Essa pequena história menciona a perfeição da
imperfeição. Soa estranha para nossos ouvidos e para nossos conceitos de que a
perfeição é a ausência do pecado, e o pecado é a sujeira, a falha, a
contaminação do que deveria ser puro e sem mácula. Na minha opinião, o que o
mestre estava demonstrando é o conceito impressionante da Aceitação da natureza
imperfeita do mundo e da nossa experiência. Isso pode parecer óbvio, mas, em
nosso tempo, em nosso século vinte e um, é um autêntico sacrilégio.
O filósofo Byun-Chul Han aponta que nossa sociedade
cansada se apoia compulsivamente na ideia do positivo. Vivemos no
mais-mais-mais, ou no melhor-melhor-melhor o tempo todo, bombardeados de metas
e de ideias que nunca saem de nossos calcanhares. Passamos o tempo todo
tentando deixar a sala perfeita, para esquecer que a função da sala é estar
aberta para as experiências, as introvisões, as meditações que lá vão
acontecer.
Nossa era da positividade nos empurra para uma
felicidade compulsória e obrigatória, ou seja, para um estado meio permanente
de infelicidade e vazio. O vazio empurra a nossa fúria pelo mais, mais, mais:
mais dinheiro, mais sucesso, mais visibilidade, mais likes, mais admiração, no
teatro de Personas onde estamos afundados. Quando a perfeição vier, junto com
ela, vem a tal da Felicidade. Certo? Não. Não está certo.
Outra história dos anos noventa: estava começando o
meu consultório, e atendia uma paciente querida que trabalhava na casa de
famosos terapeutas da época. Um deles me pediu para ajudá-la: tinha um quadro
ansioso difícil, e uma de suas características era uma sensação meio permanente
de vazio e de angústia sem razão aparente. Isso desembocava numa compulsão
alimentar também severa. Ela não conseguia aceitar o seu próprio corpo e
alternava tentativas de dietas restritivas com episódios de excessos
alimentares, num ciclo repetitivo e doloroso. A história que nunca esqueço foi
ela que me contou: acho que ela estava numa festa, num churrasco e conversava
com um dos familiares do aniversariante, que era um cadeirante. A conversa foi
para o lado da angústia que ela sentia diante da vida, e o homem retrucou:
“Sabe, vocês se queixam da vida e ficam infelizes com isso e aquilo, mas eu que
estou nessa cadeira de rodas e tinha tudo para ser infeliz, na verdade sou o
mais feliz, sabe por que? Porque eu aceito a minha limitação. Aceito a minha
dificuldade todo dia. Isso me deixa em paz”. Ela me contou essa conversa em lágrimas,
e a sua terapia durou mais algum tempo. Espero que a história tenha tido o
mesmo impacto nela que teve em mim.
Tenho uma boa e uma má notícia para quem está lendo
esse texto: a má notícia é que somos todos cadeirantes existenciais. Temos,
todos, nossas contusões, nossas pernas mancas e nossas limitações com as quais
vamos mais conviver do que superar. Não adianta os gurus digitais gritarem que
vão te transformar no Batman ou na Mulher Maravilha.
A autoaceitação é o superpoder que está sendo
negado a todos presos na ciranda do “self improvement”, ou autoaperfeiçoamento.
É errado tentar melhorar todo dia? É claro que não. Eu tento melhorar todo dia,
como você, que está lendo. Mas entendo que Aceitação do outro e da vida torta e
do mundo torto em que eu vivo é um superpoder. Pense nas pessoas queridas, que
tentamos mudar toda hora: como traria benefício Aceitar que a pessoa tem
limitações, que a vida tem limitações e que é Dentro dessas limitações que
vamos tentar viver. Essa é a boa notícia: a partir da Aceitação que as mudanças
ocorrem.
Imagino que o rapaz cadeirante e o mestre Zen
seriam grandes amigos. E eu adoraria ser amigo deles.
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