A palavra está na
boca do povo, mas a sustentação de políticas públicas voltadas à conservação
não admite entendimentos enviesados
Divulgação / Pixabay
As palavras biodiversidade e diversidade estão na boca do
povo. Somos frequentemente confrontados com o uso desses termos na mídia, na
política, nas conversas coloquiais, mas poucos realmente buscam saber qual é,
de fato, a sua definição. Infelizmente, a informação rasa predomina e parece
haver uma crença coletiva de que o entendimento dos conceitos será absorvido
pela simples repetição dos termos. E isso é perigoso, pois acaba provocando
entendimentos enviesados que levam ao empobrecimento da percepção do mundo ao
nosso redor.
Se não compreendermos a diversidade de forma precisa e
abrangente, a definição de políticas públicas eficientes para a sua proteção
fica prejudicada, penalizando toda a sociedade. Proponho uma aproximação ao
tema com base na Teoria da Informação. Se utilizarmos os chamados índices de
informação para a leitura de um texto, por exemplo, poderemos entender a
riqueza das letras presentes (lógica de organização) e a abundância na qual
aparecem (forma como se repetem ao longo do texto). Conteúdos escritos com
poucas letras acabam não trazendo informação, assim como aqueles em que as
letras se repetem em demasia também não. Esses dois parâmetros (riqueza e
abundância), importantes elementos da Teoria da Informação, são a base dos índices
de diversidade e podem ser aplicados em uma enormidade de campos de pesquisa,
desde a Informática até a Ecologia.
Quando aplicamos os conceitos na Ecologia, usamos o termo
riqueza para expressar quantas espécies nossa amostra possui, enquanto o termo abundância
refere-se a quantos indivíduos representam cada uma dessas espécies. Desta
forma, entendemos que diversidade é um índice matemático que expressa a relação
entre o número de espécies e a abundância de indivíduos presentes em um
ambiente.
Quando dizemos que um ecossistema possui muita diversidade,
significa que contém muita informação biológica. Por isso, quando perdemos
ecossistemas com alta diversidade, perdemos muita informação biológica.
Empobrecemos a quantidade de informação que nosso planeta nos fornece, bem como
todas as possibilidades trazidas pelo entendimento desse conhecimento sobre a
definição de nossas estratégias diante da vida.
A informação biológica está organizada na natureza, compreendendo
um arranjo complexo que envolve diferentes níveis e grandezas. Toda a expressão
de vida no planeta contém essa complexidade de organização, seja ela a
referência contida em uma pequena sequência de DNA e RNA até todo o conjunto
dos componentes vivos de um ecossistema, que chamamos de biota. Desta forma,
dizer que biodiversidade se refere a toda a vida da terra ou que é a variedade
de formas de vida é extremamente simplório e, por que não, terrivelmente
errôneo, pois não informa o pilar crítico do conceito que é a organização da
manifestação da vida e os processos ecológicos relacionados.
Devemos considerar processos ecológicos essenciais para a
geração e a manutenção da biodiversidade, como as interações ecológicas, a
seleção natural e os ciclos biogeoquímicos, como parte da biodiversidade. O
conceito precisa incorporar a importância hierárquica da organização da vida.
Com isso, quem e quantos são esses componentes (composição), de que forma estão
organizados (estrutura) e como interagem entre si e com o ambiente (função) são
compreensões essenciais no entendimento do conceito de biodiversidade.
Essa visão mais ampla é fundamental, pois frequentemente os
gestores públicos consideram apenas a composição da biodiversidade na
elaboração de políticas públicas, deixando de lado a estrutura e a função na
natureza. Sem observar a organização hierárquica da complexidade biológica em
genes, espécies, populações, comunidades, ecossistemas e biomas, bem como dos
processos e estruturas existentes, a compreensão da biodiversidade fica
comprometida.
A mutação em um gene que expressa uma característica
positivamente herdada irá interferir na seleção da espécie, que por sua vez irá
influenciar na composição de outras espécies, levando a mudanças nos
ecossistemas e assim por diante. Da mesma forma, mudanças nas paisagens, como a
retirada de florestas, afetarão a diversidade de genes presentes nessa região.
Em todo o ciclo da vida há transferência de massa e energia
entre os processos biológicos e isso faz com que a compreensão sobre a
biodiversidade não seja estática, mas sim uma engrenagem em constante
movimento. E é esse movimento que gera as propriedades emergentes dos
ecossistemas, dentre os quais os serviços ecossistêmicos que possibilitam a
nossa sobrevivência no planeta. Até mesmo a evolução é parte do funcionamento
do maquinário da biodiversidade.
As diferenças na história evolutiva e na ecologia dos
ecossistemas acabam gerando interessantes processos na estruturação da
biodiversidade, que tem sido foco de diversos estudos sobre a forma como a vida
se manifesta e atua no planeta. Desde sempre os seres humanos utilizam
elementos da biodiversidade, influenciam e até atuam como força seletiva dessa
estrutura. Entretanto, o aumento na escala de impacto da atuação humana
apresenta novos desafios à natureza, bem como a necessidade de entender melhor
a forma na qual a vida humana se inter relaciona com a vida não-humana.
Portanto, quando falamos em biodiversidade precisamos levar
em conta o estudo das relações evolutivas entre grupos de organismos, a
filogenética; o processo de descrição da diversidade dos seres vivos, a
taxonomia; e a interação das espécies com o ambiente. Sem compreender essa
engrenagem complexa continuaremos a ouvir o galo cantar, mas não saberemos onde.
Reuber Brandão - membro da Rede de Especialistas em Conservação da
Natureza (RECN) e professor de Manejo de Fauna e de Áreas Silvestres na
Universidade de Brasília.
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