A hipertensão é mais comumente relacionada ao coração, mas o que poucas pessoas sabem é que uma das formas de combater o problema é mantendo a saúde bucal em dia, particularmente a gengiva.
É
natural ter dificuldades de compreender inicialmente como a gengiva pode
interferir em um quadro de hipertensão. Para isso, é importante ter em mente
que o organismo humano é formado por um conjunto de sistemas tão intricadamente
relacionados que um desequilíbrio em uma parte ou em um processo do mesmo pode
refletir no organismo como um todo.
Há
décadas têm sido publicados diversos estudos que comprovam haver uma conexão
linear entre saúde bucal e saúde cardíaca. Ou seja, os casos de periodontite
interferem diretamente no risco de pressão alta, e quanto maior for a gravidade
do seu quadro, maior também será o risco de hipertensão – que pode levar a um
AVC ou a um ataque cardíaco fatal.
Depois
da cárie dentária, as doenças periodontais são as que mais afetam a saúde bucal
da população brasileira. Elas podem ser definidas como um conjunto de
enfermidades que afetam as estruturas que suportam os dentes. São basicamente
divididas em gengivite (inflação da gengiva) e periodontite (inflação do osso
com perda óssea), sendo esta última a de maior relevância clínica e que causa
maior dano ao paciente.
Assim
como a gengivite, a periodontite é geralmente assintomática, sendo percebida
pelo paciente principalmente através de: sangramento da gengiva (espontâneo ou
usando fio dental), aparência da gengiva (fica inchada, mais vermelha e
brilhante), aparência de “dentes crescidos”, aumento dos espaços entre os
dentes, pus, mobilidade dental (dente “bambo”), gosto ruim na boca e/ou mau
hálito. Dificilmente há dor causada pela periodontite; por isso o paciente deve
ficar atento aos sinais e sintomas descritos acima.
Há
números que mostram o tamanho da preocupação que se deve ter com a infecção da
gengiva. A periodontite é uma doença crônica que afeta de 45% a 50% da
população mundial, sendo que a sua forma mais grave afeta 11,2% das pessoas. É
a sexta doença mais comum. Só no Brasil são registrados mais de 2 milhões de
novos casos de periodontite por ano.
“A
periodontite abre literalmente um caminho para a proliferação e entrada de
bactérias patogênicas no sistema vascular, além de seus subprodutos bacterianos”,
explica o cirurgião-dentista André Luiz Pataro, doutor e mestre em Odontologia
e especialista em Periodontia. E ele acrescenta: “se essa porta de entrada não
for estancada, a quantidade de bactérias que vão invadir o sistema circulatório
tende a aumentar, desencadeando problemas mais graves de hipertensão e suas
consequências”, esclarece.
Por
outro lado, as doenças cardiovasculares são responsáveis por 17,9 milhões de
óbitos no mundo, um terço do total de mortalidade, afetando milhões de
indivíduos no Brasil, sendo atualmente considerada a maior causa de morte nessa
população.
“Sabemos
que periodontite e hipertensão possuem correlações e plausabilidades biológicas
bastantes evidentes, havendo vários fatores envolvidos nesse processo”,
destaca.
Uma
importante revisão sistemática presente no estudo “Periodontitis and
cardiovascular diseases: Consensus report” do professor espanhol Mariano Sanz e
colaboradores, publicado no Journal of Clinical Periodontology em 2020,
demonstrou um risco aumentado de primeiro evento coronário em pacientes com
periodontite clinicamente diagnosticada. Também têm sido relatadas associações
positivas entre periodontite e insuficiência cardíaca.
“Há
evidências de que espécies bacterianas orais podem entrar na circulação e
causar bacteremia, sendo que um maior risco foi associado a um pior estado de
saúde periodontal. Há evidências de vestígios de DNA, RNA ou antígenos
derivados de espécies bacterianas orais em tecidos aterotrombóticos. Estudos em
animais têm demonstrado que bactérias periodontais aceleram a aterosclerose,
induzindo estrias de gordura na aorta e também lesões aórticas e coronárias
após bacteremia”, ressalta.
Pataro
recomenda que:
-
Pessoas que apresentem diagnóstico de doenças cardiovasculares passem por um
exame oral completo, que inclui uma avaliação periodontal abrangente e
tratamento específico quando necessário.
-
De forma semelhante, pacientes com periodontite precisam saber que há um risco
maior de doenças cardiovasculares, devendo gerenciar ativamente todos os fatores
de risco cardiovasculares (tabagismo, exercícios físicos, excesso de peso,
pressão arterial, gestão de lipídios e glicose, além de adequada terapia e
manutenção periodontal para manter a saúde bucal).
“Isso
precisa ficar bastante claro: não estou falando de cura, mas de prevenção.
Essas são medidas preventivas que visam reduzir os riscos bidirecionalmente e
aumentar a qualidade de vida e a longevidade”, conclui.
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