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terça-feira, 8 de junho de 2021

Pandemia de Covid-19 pode atrasar diagnóstico de autismo e evolução no tratamento

Acompanhamento dos pais é essencial na identificação de sinais característicos nas crianças. Pediatra ressalta a necessidade de acompanhamento médico e terapêutico aos pacientes já diagnosticados

 

O autismo é um transtorno de desenvolvimento neurológico que atinge uma em cada 270 crianças no mundo, de acordo com os dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). O cenário provocado pela pandemia do novo coronavírus tem dificultado o acesso ao acesso ao diagnóstico, bem como às terapias de desenvolvimento, aumentando os obstáculos para que as pessoas com autismo usufruam desses direitos. Caracterizada por dificuldades de comunicação e interação social e pela presença de comportamentos e/ou interesses repetitivos ou restritos, essa condição apresenta variações quanto à gravidade de como os sintomas do transtorno podem se apresentar em cada pessoa. 

O primeiro diagnóstico do autismo ainda ocorre no Brasil por volta dos seis anos de vida da criança, o que é considerado tardio. “A partir dos 16 meses de vida já é possível identificar o risco de autismo nas crianças. A Sociedade Brasileira de Pediatria indica um questionário de triagem que os pais podem responder e que pode ajudar o especialista a identificar riscos de alterações no desenvolvimento da criança. Caso o teste identifique alto risco, o paciente ainda tem de ser submetido a outras avaliações para o diagnóstico de autismo. Apesar de permanente, a intervenção precoce é importante para alterar o prognóstico e suavizar os sintomas, minimizando os impactos do autismo para o paciente”, aponta Camila Batista Andrade Elmauer, pediatra da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo. 

Camila reforça também a importância da necessidade de acompanhamento especializado o quanto antes para que o paciente possa se beneficiar. “Até os 24 meses de vida, o cérebro da criança é muito plástico, pode se adaptar e fazer novas conexões, o que ajuda muito no desenvolvimento. Com a pandemia de Covid-19, nós sentimos que até mesmo a procura por consultas de rotina diminuiu. É por isso que ferramentas como a teleconsulta são tão importantes, pois a demora na intervenção pode ser crucial para os resultados e, por consequência, para a qualidade de vida da criança”, ressalta a pediatra. 

Alguns dos sinais de alerta que costumam se manifestar em crianças com o transtorno do espectro autista são: a dificuldade de interação com outras pessoas tanto na comunicação verbal (manifesta algum tipo dificuldade de fala e de compreensão) quanto na interação social – por exemplo a criança não sorri de volta, não aponta para pedir algum objeto ou não atende quando alguém a chama pelo nome. Movimentos repetitivos e desconforto com ambientes ruidosos ou com muitos estímulos visuais também podem ser sinais que devem ser comunicados aos médicos. 

Outra questão que tem se agravado com a pandemia de Covid-19 é que a ansiedade tem crescido entre as crianças, em especial entre as que possuem transtornos do espectro autista. Camila destaca que os pais e responsáveis devem redobrar a atenção aos sinais de ansiedade ou demais transtornos psiquiátricos. “A pandemia já altera a rotina, o que aumenta a ansiedade em pacientes pediátricos, mas isso é mais exacerbado entre os autistas. De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, mais de 80% dos pacientes em acompanhamento com esse transtorno podem ter manifestações de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), depressão e ansiedade. Os pais precisam observar se há mudanças de sono, alterações sensoriais como sensibilidade ao som, aumento na seletividade alimentar, comportamentos de repetição como as estereotipias (sons ou movimentos repetitivos compulsivos, muitas vezes de difícil controle, conhecidos como tiques nervosos), pois eles indicam que há algo incomodando a criança”, reforça a pediatra. 

No caso das crianças já diagnosticadas com algum transtorno do espectro autista e que sejam acompanhadas por profissionais, a atenção deve ser aos progressos que ela já havia conquistado e possíveis regressões. “Esse comportamento já manifesta sinais de sofrimento dessas crianças. Como o espectro é amplo, é essencial reportar ao médico como a criança estava evoluindo, seja com uma imitação ou o retorno do sorriso social, e também notar o retorno aos padrões anteriores, como os movimentos repetitivos em busca de acalmar a mente. O ideal então, nesses casos, é retomar as terapias para que ele possa voltar a evoluir e diminuir o estresse”, explica a médica da BP. 

Além do suporte familiar e escolar, as terapias (fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional, dentre outras) podem ajudar muito na melhora da independência e na comunicação do paciente. Com o isolamento social imposto pela pandemia de Covid-19, a maioria dessas terapias passou a ser realizada remotamente, mas em alguns casos o acompanhamento presencial pode ser necessário. Algumas medidas podem ser adotadas para minimizar riscos em caso de necessidade de atendimento presencial. “Observar as adaptações do local como espaçamento nos agendamentos, medidas de higiene como disponibilização de álcool em gel e distanciamento são importantes. O uso de máscara pelos pais, responsáveis, médicos e terapeutas deve ser essencial e, caso tolerado, pelo paciente. É necessário avaliar os riscos e benefícios e sempre tomar todos os cuidados necessários”, finaliza Camila.

 

Beneficência Portuguesa de São Paulo


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