“O mundo não nos importa \ O nosso mundo começa \ Cá dentro da nossa porta \...\ Vamos viver o presente \ Tal qual a vida nos dá \ O que reserva o futuro \ Só Deus sabe o que será” (Só Nós Dois É Que Sabemos, Joaquim Pimentel).
Eis a (contraditória)
expressão do pequeno burguês forjado na tradição cristã: o burguesismo tem seu
território na vida privada e valoriza o herói de si mesmo; o cristianismo
refuta a materialidade da História, desresponsabiliza-se dela, entregando-a a
um deus.
Burguesismo: “Sem jantar e
bem cansado \ Mas lá em casa \...\ Um punhado de problema \ E criança prá
criar... \ Mas felizmente \ Eu consegui me formar \...\ Dizem que sou burguês \
Muito privilegiado \ Mas burgueses são vocês \...\ E quem quiser ser como eu \
Vai ter que penar um bocado” (O Pequeno Burguês, Martinho da Vila).
Cristianismo: “Diz que deu,
diz que dá, diz que Deus dará \ Não vou duvidar, ô nega, e se se Deus não dá \
Como é que vai ficar, ô nega? \...\ Eu vou me indignar e chega” (Partido Alto,
Caetano Veloso, Chico Buarque).
Esta composição, ademais,
adverte: a divindade é “um cara gozador, adora brincadeira”, e quando brinca,
brinca com pessoas. O crente resta um joguete: renuncia (nada indignado) à
construção da vida, deixando-a ao deus que sabe, ao deus que dará.
“Milton Santos dizia: ‘A
humanidade ainda não começou’. Parece terrível dizer que ainda não somos gente.
Mas é de profunda esperança; ele quer dizer que nós ainda não somos
suficientemente bons para aquilo que virá. Virá coisa melhor. Eu me
identifiquei: não conformar, não acreditar que o grotesco faz parte do conceito
de humanidade.
A humanidade acontece num
bicho. Partimos de um bicho que poderia ser igual aos outros, mas que tem a
capacidade de projetar sobre si outra realidade, outra mundividência. Não é o
corpo que nos faz humanos. O corpo, sendo natural, é uma espécie de veículo. A
humanidade é sobretudo uma construção de consciência e cultura. É uma
construção mental.
Aconteceu conosco. Tivemos
na mente o instrumento que nos habilitou a essa construção. Estaremos tão mais
perto de sermos humanos quanto mais sofisticarmos o pensamento, quanto mais
progredirmos nessa sofisticação mental (Valter Hugo Mãe, ESPM, editado).
Uma mentalidade
sofisticada: “A humanidade está enfrentando uma pandemia. Milhões de mortos.
Não seria o momento de a humanidade trabalhar em conjunto, em vez de
continuarmos a ficar uns contra os outros? Queremos vencer, não cooperar. Não
poderíamos viver de forma cooperativa, sem a necessidade de subjugar uns ao
outros, em vez de cooperar para o bem comum?
Ainda não conseguimos
aprender a nos ver como membros de uma única família. A realidade é tecida por
relacionamentos, mas permanecemos cegos para o fato de que prosperamos na
relação com outros, não uns contra os outros” (Carlo Rovelli, O tempo não
existe, BBC Brasil, editado).
Tempo de discursos
estúpidos: negação da ciência, prestigiação da ignorância. Necropolítica. Os
sintomas que emergem da gerência da nossa vida pública trazem as marcas da
pulsão de morte. Quem nos preside mata-nos por matar a nossa inscrição no
melhor da Civilização Ocidental.
“A insensibilidade com
relação à morte individual tem paralelo com a inconsciência referente ao
destino do planeta. Pela primeira vez na História da humanidade a morte
ultrapassa a dimensão do indivíduo e ameaça a sobrevivência de todos.
Por isso é preciso resgatar
a consciência da morte, o que não deve ser entendido como preocupação mórbida
de quem vive obcecado pela morte inevitável. Ao contrário, ao reconhecer a
finitude da vida, reavaliamos nosso comportamento e escolhas, e podemos
proceder a uma diferente priorização de valores.
A absolutização do poder,
do acúmulo de bens, da notoriedade... A reflexão sobre a mortalidade torna
ridículos esses anseios, privilegiando outros valores que nos dão maior
dignidade. Esta reflexão, em dimensão planetária, nos ajuda a questionar os
equivocados objetivos do progresso a qualquer custo.
A consciência da morte nos
proporciona questionar não só se nossa vida é autêntica ou inautêntica, mas
também se faz sentido o destino que os povos lograram para seus herdeiros”
(Leda Salm de Mello, Facebook).
Falar sobre formas de vida
privada egoístas e de administração pública preconceituosa que facilita a morte
nos estimula a criar sentidos não só para a vida pessoal, mas, sobremaneira,
para a vida em comum, contribuindo para que se exercite a pulsão de vida,
insistente por natureza.
“Os temas da humanidade se
atravessam uns aos outros. Os estereótipos, concepções moralizantes com seus
fundamentos históricos, políticos, econômicos, religiosos vão atravessando o
cotidiano nas coisas mais simples e naquilo que mais causa sofrimento.
Quanto falamos em
sofrimento humano, estereotipamos, imaginamos uma situação traumática. Não,
sofrimento humano é isso do dia a dia. O sofrimento humano é o das coisas
corriqueiras: compras, contas, gravidez, crianças, escola” (Maíra Marchi Gomes,
Amor e Ódio Maternos, Instituto Cidade, editado).
Tudo isso é sofrimento e
pode produzir coisas, gerar efeitos. O que a gente vai fazer disso? O que a
gente vai fazer do sofrimento pode produzir diferenças, não vai deixar
aniquilar a vida (Andreia Moessa Coelho, Amor e Ódio Maternos, Instituto
Cidade).
“Se a gente olha para trás
e observa, através do tempo, tudo o que o mundo se tornou, a gente vê que as
possibilidades de uso daquilo que é criado são numerosas. E por que seria uma
só senda, um só resultado? Creio que é isso que se tem que discutir, entender
por que é assim, e sugerir outras maneiras de combinar o que aí está (Milton
Santos, Roda Viva, editado).
Milhares de manifestantes
foram às ruas (29mai21), tocados pelo interesse público, premidos por problemas
domésticos. Valentes, expondo-se à morte na aglomeração, bradaram pelo viver;
assustados pelo miasma da peste que nos infesta, gritaram o temor de morrer.
Por civismo ou por medo, um gesto edificante de humanidade.
O mundo importa e começa
depois da nossa porta; deus não dará. Vale penar por projetos particulares,
está necessário penar por projetos comuns. “Um projeto de dedicação ao mundo”
(Contardo Calligaris, Estamos distraídos demais para sermos hedonistas,
Fronteiras do Pensamento).
Léo Rosa de Andrade
Doutor em
Direito pela UFSC.
Psicanalista e
Jornalista.
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