Historicamente, o conceito de saúde ocular no Brasil desenvolveu suas raízes em torno da profissão médica. Este caminho gerou uma percepção equivocada do que significa a saúde visual. A reserva de mercado, o desconhecimento sobre a multidisciplinaridade neste campo e a falta de uma cultura ocular resultam na ausência de uma política pública eficiente no combate à cegueira evitável, na falta de um protocolo de prevenção e na escassez de atendimento primário, além de gerar filas no Sistema Único de Saúde (SUS) para atendimentos desta modalidade. A saúde pública brasileira é pouco eficiente no âmbito dos tratamentos oculares, e não possui um programa difundido para terapia com pessoas com algum tipo de disfunção visual, motora e sensorial.
No mundo, 314 milhões de pessoas apresentam
dificuldade em algum dos olhos. No Brasil, estima-se que, da população geral,
14,5% apresentam alguma deficiência e, destes, 48,1% possuem alguma dificuldade
visual, ou seja, quase 12 milhões de pessoas. Por outro lado, segundo a
Organização Mundial da Saúde (OMS), 75% de toda cegueira é tratável e/ou
evitável. A medicina não conseguirá resolver sozinha os problemas de saúde
visual da população. A formação médica em saúde ocular está voltada para o
tratamento de média e alta complexidade, os profissionais médicos estudam e se
formam para tratarem das doenças que podem acometer o globo ocular.
A OMS alega que a demanda por serviços de saúde
ocular está concentrada na avaliação de problemas refrativos. Entretanto, o
diagnóstico precoce e o tratamento das morbidades oculares crônicas, como a
catarata, o glaucoma e a retinopatia diabética, são importantes demandas
potenciais. A oferta de serviços de saúde ocular no Brasil é limitada,
especialmente no setor público, e centrada no oftalmologista. A população
acredita que o único profissional em saúde visual é o médico oftalmologista e,
muitas vezes, o procura exclusivamente para atendimentos de atenção primária à
saúde visual.
A organização do sistema de saúde, dentro dessas
premissas, impede que exista nas Unidades Básicas de Saúde - UBS um
profissional que filtre a maior parte das demandas dentro da área de saúde
visual. Tal configuração torna o gargalo muito grande para o atendimento nos
níveis secundários e terciários. Quem perde é a população que, sem uma
avaliação precoce, pode vir a ficar cega, uma vez que o sistema é pouco
eficiente e caro. Por exemplo, problemas de saúde visual mais comuns, como
ametropias, poderiam ser corrigidos por profissionais não-médicos, e os
consórcios municipais de saúde economizariam com atendimentos mais completos
por um custo menor.
O Optometrista realiza cuidados em saúde visual,
particularmente a avaliação refrativa e a adequação da correção, sendo o
profissional mais indicado para desempenhar ações de saúde desta complexidade.
O reconhecimento do problema e a promoção do profissional formado em Optometria
têm a capacidade de rapidamente reverter o cenário e impactar os atendimentos
de saúde visual.
Como profissional da saúde (não qualificado como
médico), o Optometrista é treinado para a detecção, medição e correção de erros
refrativos, habilitado a detectar a visão subnormal e a presença de problemas
oculares, indicando ao paciente um oftalmologista que conduzirá exames mais
aprofundados e oferecerá tratamento. Uma solução simples que pode desafogar o
sistema de saúde do país, desde que reconhecida pelos órgãos reguladores
nacionais.
Carlos Eduardo Scarpim Winnikes - professor da
Universidade do Contestado e presidente do Conselho Regional de Óptica e
Optometria do Paraná (CROO-PR).
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