Justiça é uma coisa; igualdade, outra. O hábito de absorver a primeira na segunda leva a situações bizarras. Contam-se, por exemplo, mortes de bandidos e mortes de policiais e se deduz que há uma desigualdade entre esses óbitos, caracterizando situação de combate injusto. É como se tudo ficasse mais gentil caso o número de policiais mortos fosse maior. E por aí vai o estrabismo moral dos falsos justiceiros.
Em importante matéria (1), o site
Tribuna Diária registra (19/08) depoimento do Coronel Cajueiro, da Polícia
Militar do Estado do Rio de Janeiro. No estudo que fez, na condição de Superintendente de Comunicações Críticas e Presidente da Comissão
de Análise da Vitimização da PMERJ, fornece números impressionantes de baixas
sofridas pela corporação. Os dados que incluem mortos e feridos em serviço e em
folga chegam, em 25 anos, a 20% de seu contingente atual.
Não tenho notícias de que o STF
já tenha sido requisitado, ou de que qualquer ministro haja espontaneamente se
manifestado sobre impor algo em benefício da segurança dos policiais em
conflito com inimigos da Lei, da qual ele, Tribunal, é principal guardião. No
entanto, leio que para regular no sentido oposto o ministro Edson Fachin,
relator da ADPF das Favelas, consumiu 81 páginas. Páginas de tempo e papel!
No que o ministro determinou,
se inclui a ordem para que os policiais militares da PEMRJ restrinjam o uso de
helicópteros em voos sobre os morros cariocas a situações excepcionais. O
ministro Lewandowsky, a seu turno, quer que o Estado do Rio de Janeiro elabore
um plano com "medidas objetivas, cronogramas específicos e
previsão dos recursos necessários" para redução da letalidade policial
e ao controle de violações de direitos humanos.
Assuntos como o genocídio de
policiais mencionado pelo coronel Cajueiro não comparecem ao caderno de
encargos dos partidos de esquerda, entre eles o PSB, autor da ADPF das Favelas,
sempre intensamente preocupado com as graves questões nacionais que desembocam
em pautas como os óbices ao uso de helicópteros pela polícia em operações nos
morros cariocas.
Nessa voragem da
razão, com aval do STF, suprime-se uma das vantagens da polícia militar em
relação aos criminosos e se reproduz o acordo de Brizola com o mundo do crime,
quando ele se foi enraizando, calcificando, cristalizando e fortificando nos
morros da capital fluminense. E a polícia? Bem, a polícia poderia procurar bandidos
e combater o crime organizado longe dali, na pacífica Petrópolis, ou nos
espaços despovoados da região serrana...
A Agência Brasil, em matéria de 18/8, tratando dessa
decisão do pleno do Supremo, informou que "no início do mês, o STF tomou a primeira
decisão para limitar as operações policiais em comunidades do Rio. Pela
decisão, as operações poderão ser deflagradas somente em casos excepcionais. A
polícia ainda deverá justificar as medidas por escrito e comunicá-las ao
Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, órgão responsável pelo controle
externo da atividade policial". Policiamento de papel. Papel para lá, papel para cá. Atividade
policial não se planeja como um evento, assim, tipo convenção, feira ou
casamento. Nem têm proclamas ou editais as atividades criminosas.
Policiais militares agindo contra o crime que nos aterroriza, nas suas
organizações ou na atividade rueira, salvo exceções, nos representam e defendem
com risco da própria vida. Gratidão é a palavra! Contê-los é conter-nos. Atacá-los
é atacar-nos, seja com as armas de fogo, seja com as armas da palavra; ou seja,
ainda, com a caneta, na segurança dos gabinetes e no conforto dos estofados e
tapetes.
{C}(1) {C}https://www.tribunadiaria.com.br/noticia/1183/cel-da-pmerj-defende-o-uso-de-helicopteros.html?
Percival Puggina - membro da Academia Rio-Grandense de Letras e Cidadão de Porto Alegre, é arquiteto, empresário, escritor e titular do site Conservadores e Liberais (Puggina.org); colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil pelos maus brasileiros. Integrante do grupo Pensar+.
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