De
minha infância em Santana do Livramento resultaram inesquecíveis as longas
matinês dominicais do Cine Rex, em Rivera. Quatro filmes eram exibidos em
sequência e os mais ruidosamente saudados eram os de faroeste, de “bandido e
mocinho”, rodados no Far West dos
Estados Unidos, preferivelmente em meio às Montanhas Rochosas. As disputas se
davam entre os homens da lei, os xerifes, que sempre venciam, e os fora da lei,
os out law, que sempre perdiam.
Saía-se do cinema com a gratificante sensação de que o Bem vencera e a Justiça
fora feita. Talvez por isso me acompanhe a ideia de que Justiça e Bem devem
fusionar-se de modo indissociável.
Modernamente,
ideologias malsãs rompem esse lacre, em favor de suas próprias pautas. Cidadãos
de quem não se esperaria algo assim aplaudem corruptos, torcem pelo bandido e
condenam o xerife. Muitos protegem ovos de tartaruga, ninhos de passarinho e
exigem o aborto como direito da mulher. Outros, ainda, desdenham a inocência
das crianças. Magistrados devolvem às ruas bandidos perigosos, presos em
flagrante. A vida honesta se faz perigosa e dispendiosa, e o crime,
compensador. A ordem é destruída e a autoridade fenece em todas as esferas da
vida social. Há muito sangue nas ruas e nas páginas dos jornais. É um filme sem
sentido: mataram o xerife e foram ao cinema. Estragaram a matinê! Isso não é
coisa que se projete nem se proteja. O sucesso dos fora da lei empurrou a
candidatura de Bolsonaro e, agora, os defensores de bandidos querem a cabeça do
juiz. Filme desgraçado!
Percebo três tipos de fora da lei. O
primeiro corresponde ao numeroso contingente dos bandidos da criminalidade
rasteira. Estando ao alcance do braço da lei esquivam-se de seus efeitos graças
a uma legislação leniente, às curvas e dobras processuais, às penas que não se
cumprem, às franquias do semiaberto e a uma parceria ideológica entre setores
do Estado e a criminalidade. No segundo grupo estão aqueles cuja conduta produz
crescente indignação e repulsa social. Refiro-me aos criminosos beneficiados
pelo aconchego da prerrogativa de foro junto ao Supremo Tribunal Federal. Esses
têm a garantia da inconsequência de seus crimes; o braço da lei os alcança, mas
não os toca. A frase de Fidel Castro, repetindo Hitler, lhes serve às avessas:
o presente os absolve, só a história, na posteridade, os condenará.
Há por fim, o terceiro grupo dos fora
da lei. A expressão lhes corresponde por outra razão. Eles são a última
instância, a última voz, a última caneta do mundo onde Justiça e Bem
deveriam firmar compromisso. No entanto, o que temos visto é abuso desse poder,
condutas muito estranhas, intervenção de ministros em processos de seu próprio
interesse, blindagem contra rotineira e impessoal averiguação. Todas as
denúncias formalizadas contra membros da Corte perante o Senado Federal –
dezenas! - foram sepultadas nos últimos quatro anos por decisão pessoal dos
presidentes Renan Calheiros, Eunício Oliveira e Davi Alcolumbre. Acho que não
preciso explicar. A condição não é meritória.
Alega-se, em favor dessa omissão, que o
processo de impeachment contra um ministro do STF causaria grave problema
institucional. Penso o oposto: problema institucional é a presente situação. O
devido trâmite de alguns desses processos causaria imenso bem ao Senado, ao STF
e à nação neste novo momento de sua história. Veríamos a Justiça procurando o
Bem. E vice-versa.
Percival Puggina - membro da
Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular
do site www.puggina.org,
colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o
totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do
Brasil. Integrante do grupo Pensar+.
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