Pesquisa do
Ministério da Saúde mostra que obesidade aumentou, mesmo com brasileiros
seguindo as orientações nacionais sobre alimentação e nutrição
Dados mais recentes do Ministério da Saúde mostram
que a obesidade aumentou no Brasil, reforçando a importância de um olhar mais
atento sobre a doença no país. Segundo a Pesquisa de Vigilância de Fatores de
Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) de
2018, 19,8% dos adultos que vivem nas 26 capitais brasileira e mais no Distrito
Federal estão obesos. O índice manteve-se estável, em 18,9%, durante três anos,
e voltou a crescer. O inquérito mostrou também que mais da metade da população
do país (55,7%) apresenta excesso de peso. Em 2006, o percentual era de 42,6%.
Em 13 anos, houve um acréscimo de 30,8%.
O médico, diretor-presidente da Associação
Brasileira LowCarb (ABLC), José Carlos Souto, destaca, contudo, uma contradição
que emerge dos números apresentados pela Vigitel. Isto porque, não obstante a
elevação da porcentagem de obesos e de pessoas com excesso de peso, a pesquisa
mostra que os brasileiros vêm adquirindo hábitos alimentares mais saudáveis ao
longo dos anos. Conforme o levantamento, a porcentagem de pessoas que comem
mais frutas e hortaliças cresceu de 20%, em 2008, para 23,1%, em 2018. Já a
porcentagem de brasileiros que consomem refrigerantes e bebidas açucaradas, em
cinco ou mais dias da semana, caiu de 30,7%, em 2007, para 14,4%, no ano
passado.
Levando-se em conta que os hábitos não alimentares
também melhoraram a situação se torna ainda mais complexa. De acordo com a
Vigitel, o número de adultos que praticam alguma atividade física no tempo
livre, pelo menos 150 minutos na semana, passou de 30,3%, em 2009, para 38,1%,
em 2018, contabilizando um acréscimo de 25,7% no período. Já o número de
adultos fumantes apresentou queda relevante entre 2006 e 2019, saindo do
patamar de 15,7% para 9,3%.
É sabido que a obesidade tem causa multifatorial,
não apenas dependente de fatores genéticos e metabólicos, como culturais,
comportamentais e sociais. Nesse sentido, a questão suscitada pela
pesquisa, conforme Souto, é: por que, mesmo mudando hábitos e se alimentando
cada vez mais de acordo com as diretrizes estabelecidas pelo Ministério da
Saúde – o Guia Alimentar para a População Brasileira – os índices de obesidade
entre os habitantes do país não diminui, pelo contrário, aumenta?
De acordo com Souto, a tendência de muitos que
trabalham com esse tema e do próprio Mistério da Saúde é dizer que as pessoas
estão engordando porque não estão mudando os hábitos como deveriam. Mas, o
diretor-presidente da ABLC reitera que transformações ocorreram, como a própria
Vigitel demonstrou, e mesmo assim a obesidade aumentou. “De maneira que, se as
pessoas estão seguindo as diretrizes e o resultado não está sendo bom, talvez
seja o momento de indagar se as diretrizes estão corretas”, declara Souto.
O diretor-presidente da ABLC enfatiza que as mesmas
diretrizes que indicam a prática de exercícios e a ingestão em maior quantidade
de frutas e hortaliças recomendam aumentar o consumo de grãos integrais e
diminuir o teor de gordura na dieta. Na apresentação dos dados da Vigitel, o
próprio secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Wanderson
Oliveira, aponta como causador do aumento da obesidade no país o acréscimo, não
apenas do consumo de alimentos ultraprocessados e de açúcar, mas o de gordura.
“Na realidade, os estudos mostram que uma dieta
pobre em açúcar e em carboidratos, mesmo contendo uma proporção maior de
gordura, é uma estratégia que leva a um dos melhores resultados no que diz
respeito a perda de peso e emagrecimento, melhora do controle da glicemia e
produz reversão da síndrome metabólica”, afirma o diretor-presidente da ABLC.
O fato de a gordura natural dos alimentos não ser a
vilã, mas sim o excesso de carboidratos, é explicado pelo modo como o
metabolismo humano age para estocar a gordura no organismo. Souto explica que,
ao ingerir mais carboidratos, principalmente amido e açúcar, o nível de glicose
no sangue aumenta. Com isso, eleva-se o hormônio insulina, que é responsável
por retornar a glicose a valores normais e por sinalizar ao corpo que armazene
gordura. Ou seja, o consumo excessivo e frequente de carboidratos,
especialmente os refinados, favorece o armazenamento de gordura no tecido
adiposo por mecanismos que vão além de seu simples impacto calórico,
contribuindo bastante para que as pessoas ganhem peso e se tornem obesas.
Para Souto, em uma estratégia alimentar low carb,
na qual o carboidrato deve ser evitado, o consumo das gorduras naturalmente
presentes nos alimentos é importante. Com a diminuição da glicose na dieta, o
corpo passa a utilizar a gordura como fonte de energia. O objetivo é que tal
gordura venha dos depósitos adiposos do próprio corpo; porém, a gordura dos
alimentos fornece sabor e saciedade, que são elementos fundamentais na adoção
de uma estratégia alimentar como um estilo de vida permanente. Assim, a
gordura natural dos alimentos, sem exageros, entra como peça-chave, saciando o
apetite, sem acarretar armazenamento de gordura no corpo, no contexto de uma
dieta pobre em carboidratos.
Não se trata, porém, de qualquer gordura que deva
ser ingerida; apenas a gordura natural dos alimentos (carne e frutas). Gorduras
artificiais (margarinas) e refinadas (óleos extraídos de sementes) devem ser
evitadas. Souto também recomenda o consumo de gordura com parcimônia. “Mesmo
não sendo comum, há a possibilidade de se ganhar peso em low carb, devido ao
excesso de gordura na dieta”, diz.
Em relação aos grãos integrais, Souto argumenta que
sua recomendação, por parte das diretrizes nacionais e internacionais, deve-se
ao fato de serem fontes de fibras e micronutrientes (vitaminas e minerais). “Se
grãos fossem as únicas, ou mesmo as melhores fontes, eu concordaria, mas
folhosas, vegetais de baixo amido e legumes, fartamente disponíveis, apresentam
densidade nutricional muito superior a qualquer grão”, afirma.
Além disso, grãos possuem grande quantidade de
amido - polímero de glicose, desprovido de valor nutricional, semelhante ao
açúcar exceto pela ausência de frutose. “De que forma seria justificável
submeter um diabético, por exemplo, ao consumo de grandes quantidades de amido
(grãos) apenas para que possa consumir a fina casca de fibra que os envolve?”,
questiona Souto. “Legumes são uma opção muito superior”.
Grande parte dos brasileiros não está com a saúde
em dia e isso deve ser levado em conta, de acordo com o diretor-presidente da
ABLC, para o estabelecimento da linha mestra de alimentação e nutricional do país.
“As diretrizes, teoricamente, devem ser válidas para a maioria da população. Se
a maioria estivesse saudável, talvez as regras, como estão postas, não fossem
tão ruins” diz. Entretanto, conforme Souto, o próprio Ministério da Saúde
mostra que não é isso que ocorre: a maioria da população já tem sobrepeso e
cada vez há mais pessoas com diagnóstico de diabetes. “Para elas, uma dieta low
carb é comprovadamente mais eficaz”, assegura.
Neste cenário, diante de números tão alarmantes, o
diretor-presidente da ABLC defende que a low carb faça parte das diretrizes de
alimentação do país e que o Ministério da Saúde recomende a médicos e
nutricionistas a prática como terapia para tratamento de obesidade e outras
doenças relacionadas. “Não a única, mas uma das estratégias a serem
empregadas”, diz Souto, enfatizando que, na literatura científica, a low carb é
a estratégia alimentar que apresenta os melhores resultados relativos ao
tratamento dessas condições que, atualmente, acometem mais da metade da
população brasileira.
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