A tragédia em Brumadinho, no
dia 25 de janeiro, causou, entre tantas outras consequências, uma das piores
crises do setor de mineração. De 2015 a 2019 vivenciamos uma recorrência de
fatos nesse segmento, o que torna difícil prever o que acontecerá daqui para a
frente. Apesar disso acredito que, ao contrário de Mariana, Brumadinho terá
desdobramentos mais demorados.
Além da recorrência, temos
um quadro de muitos outros fatores negativos, como vidas ceifadas, natureza
destruída, falta de confiança dos investidores e dos acionistas, negociadores e
de toda uma sociedade nacional e internacional. Levando em conta tudo isso, a retomada
da confiança na companhia pode ser lenta e até isso acontecer teremos
oscilações das ações da Vale na Bolsa, algo já esperado pelo mercado.
Devemos questionar o que
será feito no futuro. Economicamente, o mercado entende que a Vale já vinha
operando de maneira arriscada. No período de 2000 a 2010, a Vale distribuiu
algo em torno de US$ 15 bilhões em dividendos para seus acionistas. Nos anos
seguintes, 2011 a 2018, a empresa distribuiu um valor duas vezes maior.
Além disso, no início do
período de aumento significativo nos dividendos, o preço do minério de ferro
caiu pela metade, entre janeiro de 2011 e janeiro de 2019. Entendo que a
estratégia utilizada pela companhia para enfrentar essa queda foi aumentar a
produção, talvez em nível maior do que a segurança comportaria, para aumentar o
faturamento, ao mesmo tempo em que investiu menos em manutenção, para reduzir
gastos.
Esse tipo de estratégia nada
tem a ver com incompetência, mas, sim, com um plano que prioriza o lucro em
detrimento da segurança. Após a barragem de Brumadinho sucumbir e causar uma
tragédia de grandes proporções, o plano ficou mais do que evidente aos olhos do
público.
Em consequência, há uma
pressão da sociedade civil, dos ministérios públicos, dos investidores e da
população pela mudança da estratégia. A lição que aprendemos com tudo o que
aconteceu é que há necessidade de seguir e cumprir normas punitivas e
preventivas. Não basta corrigir apenas o que há pela frente. Precisamos de leis
e normas que reconheçam todos os envolvidos e não apenas quem emite laudos.
Para a retomada da empresa,
a transparência é fundamental na transmissão de informações à população e aos
investidores. Claramente, a Vale conta com uma equipe técnica competente que
possui um mapeamento de risco da situação. Podemos constatar isso no
posicionamento rápido da empresa ao descomissionar dez barragens similares a
Brumadinho e Mariana.
Essa agilidade para evitar
que mais tragédias como essa se repitam nos mostra que o rompimento das
barragens aconteceu por escolhas estratégicas e não por falta de conhecimento.
Por isso, a companhia precisa ser transparente e abrir sua investigação por
mais que isso seja seu atestado de culpa.
Além das consequências
nacionais, a Vale enfrentará uma série de ações vindas dos Estados Unidos, da
Ásia e da Europa. A China, grande compradora de minérios, possivelmente se
pronunciará. E acredito que a maioria dessas ações deverá resultar em acordos
financeiros.
Do ponto de vista
estratégico, considero que a Vale deva voltar para suas raízes. Para isso, é
necessária transparência, gestão reestruturada e respostas claras à
sociedade. A companhia também deve reformular a estratégia de remuneração
de seus acionistas, visando sustentabilidade do negócio ao longo dos anos.
Apesar da grave situação, há
luz no túnel para a Vale. Os bloqueios enfrentados pela mineradora são
preventivos e devem ser superados por medidas judiciais em breve, para que não
se inviabilize o setor.
O que aconteceu em Mariana e
Brumadinho pode ser o ponto de partida para uma nova fase, que marca o fim da
estratégia da atual Vale e o possível recomeço de uma tradicional companhia.
Ainda veremos a Vale fechando muitos acordos
indenizatórios e isso terá um impacto expressivo em suas finanças, mas ainda
assim não será algo que represente risco de fechamento ou falência, o que é
positivo não só para a companhia, mas também para a economia em geral.
Fábio Astrauskas - economista, professor e coordenador
economista, professor coordenador do Insper e CEO da consultoria Siegen.
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