Pesquisa
com participação do Brasil revela lacunas na comunicação entre pacientes e
médicos; efeitos colaterais dos tratamentos interferem no bem-estar
Os avanços no tratamento da Leucemia Mieloide Crônica
(LMC) transformaram esse tipo de câncer em uma condição crônica controlável
para muitos pacientes. No entanto, por trás dessa evolução científica, a
experiência de quem convive com a doença é marcada por desafios que vão além do
controle clínico, e que impactam diretamente na qualidade de vida, no bem-estar
e na rotina.
O tratamento padrão com inibidores de tirosina quinase
(ITQs), administrados diariamente e, em muitos casos, por tempo indeterminado,
representa um dos principais marcos dessa evolução. No entanto, a necessidade
de uso contínuo da medicação traz implicações relevantes para a qualidade de
vida dos pacientes.
Entre os principais desafios desse câncer estão os
efeitos colaterais de longo prazo dos tratamentos, como fadiga, náuseas, dores
musculares e retenção de líquidos, que podem impactar atividades cotidianas e o
bem-estar geral4. Além disso, a adesão rigorosa ao tratamento exige
disciplina constante, o que pode se tornar difícil ao longo dos anos.
Um estudo recém-publicado na revista Haematologica,
conduzido em 11 países — incluindo o Brasil — com a participação de 361
pacientes e 198 médicos, evidencia um desalinhamento relevante entre as
percepções de pacientes e profissionais de saúde no manejo da doença. Enquanto
médicos tendem a priorizar indicadores clínicos, como resposta molecular e
eficácia do tratamento, pacientes atribuem maior valor à qualidade de vida, à
tolerabilidade e ao impacto da doença em sua rotina.
“Esses pacientes convivem diariamente com efeitos
colaterais que impactam significativamente a qualidade de vida. Por isso é
fundamental avançarmos na comunicação e na decisão compartilhada, fortalecendo
a adesão, a confiança e os resultados clínicos”, afirma a hematologista
Dra. Carla Boquimpani, líder em leucemias crônicas do Grupo Oncoclínicas e
pesquisadora do HEMORIO, que participou do estudo.
A pesquisa também revela barreiras importantes no diálogo
durante as consultas. Cerca de um em cada cinco pacientes, mesmo percebendo
efeitos colaterais, evita mencioná-los ao médico — seja por receio de mudanças
no tratamento, medo de parecer excessivamente queixoso ou por acreditar que os
sintomas são inevitáveis. Em contrapartida, metade dos pacientes relata que
gostaria de receber mais informações sobre efeitos colaterais, impacto na
rotina e perspectivas de longo prazo.
Segundo a hematologista, “existem diferentes
estratégias para lidar com a baixa tolerabilidade aos tratamentos, incluindo
ajustes de dose, mudança no horário de administração ou até a substituição da
medicação, sempre de forma individualizada e centrada na qualidade de vida,
rotina pessoal e profissional e objetivos de tratamento de cada paciente”.
Nesse sentido, a disponibilização de novas opções
terapêuticas também amplia as possibilidades de cuidado. No final de 2025, a
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o uso de asciminibe
como tratamento para pacientes adultos recém-diagnosticados com LMC cromossomo
Filadélfia positivo em fase crônica (LMC Ph+ FC), representando um avanço
relevante no cenário nacional[i],[ii]. Hoje o asciminibe já está
incorporado ao SUS e aos planos de saúde para o tratamento após o uso de pelo
menos dois ITQs anteriores.
“A aprovação do asciminibe em primeira linha representa
uma mudança de paradigma no tratamento da LMC. A possibilidade de iniciar o
tratamento com uma terapia mais direcionada desde o diagnóstico pode aumentar e
acelerar as taxas de resposta, além de reduzir a toxicidade, contribuindo para
uma melhor qualidade de vida”, destaca a Dra. Carla.
[i] BRASIL. Agência
Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução-RE nº 4.841, de 28 de novembro de
2025. Diário Oficial da União: seção 1. Disponível em:
http://www.in.gov.br/autenticidade.html. Acesso em março de 2026.
[ii]
Scemblix ® (cloridrato de asciminibe): novo registro. Disponível
em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/scemblix-r-cloridrato-de-asciminibe-novo-registro#:~:text=Scemblix%C2%AE%20(cloridrato%20de%20asciminibe)%20%C3%A9%20indicado%20para%20o%20tratamento,da%20tirosina%20quinase%20(ITQ).
Acesso em março de 2026
[i] BRASIL. Agência Nacional de Vigilância
Sanitária. Resolução-RE nº 4.841, de 28 de novembro de 2025. Diário Oficial da
União: seção 1. Disponível em: http://www.in.gov.br/autenticidade.html. Acesso
em março de 2026.
[ii]
Scemblix ® (cloridrato de asciminibe): novo registro. Disponível
em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/scemblix-r-cloridrato-de-asciminibe-novo-registro#:~:text=Scemblix%C2%AE%20(cloridrato%20de%20asciminibe)%20%C3%A9%20indicado%20para%20o%20tratamento,da%20tirosina%20quinase%20(ITQ).
Acesso em março de 2026
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