Crenças comuns, como escovar com força ou ignorar sangramentos, seguem presentes no dia a dia e podem levar a problemas silenciosos; especialistas alertam para riscos e avanços na prevenção
Mesmo com o avanço da Odontologia e o fácil acesso à informação,
hábitos prejudiciais à saúde bucal ainda persistem no dia a dia dos
brasileiros, muitos deles baseados em crenças antigas que continuam sendo
reproduzidas dentro das famílias e, mais recentemente, nas redes sociais.
Para especialistas, esse cenário reflete uma
combinação entre tradição cultural e desinformação. “Grande parte dessas
crenças nasce da transmissão familiar e da falta de acesso a informações
qualificadas. Mesmo com a evolução da Odontologia, muitos desses conceitos
continuam sendo repetidos”, explica a Dra. Camila Borges Fernandes,
ortodontista, periodontista e adepta do Protocolo GBT.
Segundo a especialista, a ciência odontológica já investigou e refutou diversas dessas ideias. “Mitos como a percepção de que o sangramento gengival é normal ou de que só devemos procurar o dentista quando há dor não encontram respaldo na literatura científica”, afirma.
Os equívocos mais comuns
Entre os erros mais recorrentes observados nos consultórios,
destacam-se:
1.“Se não dói, não tem problema”
Doenças como cáries e problemas periodontais podem evoluir de
forma silenciosa. Quando a dor aparece, o quadro costuma estar mais avançado.
2.“Escovar com força limpa melhor”
A prática pode causar desgaste do esmalte, retração gengival e
aumento da sensibilidade.
3.“Sangramento na gengiva é normal”
O sangramento é um sinal de inflamação, que pode evoluir para
quadros mais graves se não tratado.
4.“Dente de leite não precisa de cuidado”
Essenciais para a fala, mastigação e desenvolvimento da dentição
permanente.
5.“Tratamento odontológico é caro”
A prevenção segue sendo mais acessível do que intervenções
complexas.
6.“Procedimentos são dolorosos”
Com os avanços tecnológicos, os tratamentos se tornaram significativamente mais confortáveis.
Outro ponto de atenção está na popularização de receitas caseiras
nas redes sociais. Misturas com bicarbonato, carvão ativado ou limão,
frequentemente associadas ao clareamento dental, podem causar danos
irreversíveis ao esmalte. “Essas substâncias são abrasivas ou ácidas e podem
aumentar a sensibilidade e comprometer a estrutura dos dentes”, alerta.
Além disso, práticas como substituir o fio dental por palitos ou
utilizar enxaguantes bucais como alternativa à escovação também estão entre os
hábitos que preocupam os especialistas.
Impactos vão além da estética
As consequências da desinformação não se limitam à aparência.
Problemas bucais podem comprometer funções básicas, como mastigação e fala,
além de impactar diretamente a autoestima e o convívio social.
“A saúde bucal está diretamente ligada ao bem-estar geral. Quando
negligenciada, pode afetar desde a nutrição até a confiança ao sorrir e se
comunicar”, destaca a Dra. Camila.
Avanços reforçam a prevenção
Diante desse cenário, a chamada Odontologia baseada em evidências
tem ganhado protagonismo, orientando práticas mais seguras e eficazes com base
em estudos científicos.
A educação em saúde também tem papel central nesse processo. “Não
se trata apenas de informar, mas de transformar comportamento e estimular o
autocuidado”, afirma a especialista.
Paralelamente, avanços tecnológicos vêm mudando a forma como a
prevenção é realizada. Protocolos mais modernos, como o Guided
Biofilm Therapy (GBT), utilizam técnicas menos
invasivas e focadas na remoção direcionada do biofilme, proporcionando maior
conforto ao paciente.
“Mais de 98% dos pacientes relatam pouca ou nenhuma dor durante o
procedimento, o que aumenta a adesão ao cuidado preventivo”, explica.
Além do conforto, essas abordagens permitem diagnósticos mais
precoces e tratamentos mais personalizados, reduzindo a necessidade de
intervenções mais invasivas no futuro.
Hábitos simples ainda fazem a diferença
Apesar das inovações, os cuidados básicos continuam sendo essenciais: escovação adequada com creme dental com flúor, uso diário de fio dental, alimentação equilibrada e visitas regulares ao dentista.
“No fim, o mais importante ainda é a consistência. São hábitos simples, mas que fazem toda a diferença ao longo da vida”, reforça.
O recado é direto: informação de qualidade segue sendo a principal aliada da saúde bucal. “Desmistificar crenças é essencial para que as pessoas assumam o controle do próprio cuidado de forma consciente e baseada na ciência”, conclui.
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