Ampliação do acesso a medicamentos
isentos de prescrição, como a venda em supermercados, acende um alerta para os
riscos da automedicação no Brasil, indica a Sociedade Brasileira de Medicina de
Família e Comunidade
Embora os medicamentos de venda livre não exijam receita médica,
seu uso não é isento de riscos. Nas farmácias, a presença de farmacêuticos e
técnicos contribui para orientar a população. No entanto, com mudanças recentes
na legislação que ampliam os pontos de venda, como os supermercados, cresce a
preocupação com o acesso facilitado sem o devido acompanhamento técnico. Para a
Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), a medida pode
reforçar uma percepção equivocada de que medicamentos são itens comuns, sem a
necessidade de cuidados básicos no consumo.
“Medicamentos não são produtos como qualquer outro. Eles fazem
parte de um processo técnico de cuidado em saúde e devem ser utilizados com
responsabilidade. A banalização do uso pode contribuir para o aumento da
automedicação, fenômeno que já cresce no país e está associado a problemas como
erros de dosagem, uso inadequado, interações medicamentosas, internações e até
óbitos", Ricardo Heinzelmann, médico de família e comunidade, diretor de
Exercício Profissional da SBMFC.
Apesar de reconhecer que a medida pode ampliar o acesso em regiões
onde há escassez de farmácias, especialmente em cidades menores, os riscos
superam os possíveis benefícios. Isso porque o uso sem orientação pode fortalecer
uma lógica mercadológica do medicamento, em detrimento de seu papel como
recurso terapêutico.
Um dos principais riscos da automedicação é a interação entre
medicamentos. Mesmo aqueles considerados seguros para venda livre podem causar efeitos
adversos quando combinados com outros fármacos, especialmente em pacientes que
fazem uso contínuo de medicamentos para doenças crônicas, como hipertensão e
diabetes.
“A recomendação é que pessoas em tratamento contínuo consultem o
médico ou médica antes de utilizar analgésicos, anti-inflamatórios,
antialérgicos ou qualquer outro medicamento sem prescrição. A combinação
inadequada pode não apenas causar efeitos colaterais indesejados, mas também
comprometer a eficácia do tratamento em curso. Além disso, a facilidade de
acesso pode transmitir a falsa ideia de que esses medicamentos são totalmente
seguros. Não exigir receita não significa que o uso dispensa orientação”,
reforça Heinzelmann, que também é Mestre e Doutorando em epidemiologia pela
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Outro ponto de atenção é o possível adiamento da busca por
atendimento nas unidades de saúde. A automedicação pode mascarar sintomas e
retardar diagnósticos, agravando condições que poderiam ser tratadas de forma
mais eficaz na Atenção Primária à Saúde.
Heinzelmann finaliza que diante desse cenário, é necessário reforçar a importância da orientação profissional e do uso consciente de medicamentos, destacando o papel das equipes de saúde, especialmente da Medicina de Família e Comunidade, no cuidado integral da população.
Sobre a Medicina de Família e Comunidade
A Medicina de Família e Comunidade é uma especialidade médica, em intenso processo de crescimento no Brasil. O médico/a de família e comunidade (MFC) é o especialista em cuidar das pessoas, da família e da comunidade no contexto da Atenção Primária à Saúde. Ele acompanha as pessoas ao longo da vida, independentemente do gênero, idade ou possível doença, integrando ações de promoção, prevenção e recuperação da saúde. Esse profissional atua próximo aos pacientes antes mesmo do surgimento de uma doença, realizando rastreamentos, diagnósticos precoces e os poupando de intervenções excessivas ou desnecessárias.
Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade - SBMFC
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