Silenciosa, comum e muitas vezes
negligenciada, a hipertensão arterial segue como um dos principais gatilhos
para duas das doenças que mais matam no país: infarto e Acidente Vascular
Cerebral (AVC).
Só em 2025, o Brasil registrou 156.981
mortes por infarto e 130.963 mil por AVC, segundo levantamento da Organização
Nacional de Acreditação (ONA), com base no Sistema de Informações sobre
Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde (DATASUS).
Os
dados incluem diferentes tipos de eventos cardiovasculares e reforçam o tamanho
do problema: foram ainda 64.109 óbitos por insuficiência cardíaca. Para 2026, os
números ainda estão em consolidação, mas já indicam a continuidade do cenário
preocupante. Total de 352.053 óbitos por
infarto, AVC e insuficiência cardíaca.
Uma doença
silenciosa e perigosa - A
hipertensão é considerada uma doença silenciosa justamente porque, na maioria
dos casos, não apresenta sintomas. É um dos principais fatores de risco para
doenças cardiovasculares no mundo, como infarto e AVC. “Ela pode causar lesões
progressivas nos órgãos-alvo, como coração e cérebro, mesmo antes do
surgimento de sintomas. Infelizmente, muitos pacientes desconhecem que são
hipertensos e acabam recebendo o diagnóstico apenas após um evento mais grave”,
alerta o intensivista e membro da ONA, Dr. Fábio Basílio.
O especialista ressalta, no entanto, que a hipertensão arterial é considerada um fator de risco modificável. “Quando identificada precocemente e devidamente acompanhada, é possível reduzir de forma significativa o risco de complicações ao longo do tempo, mas não deve ser subestimada justamente por seu caráter silencioso”.
Para o doutor, a identificação precoce é uma das estratégias mais importantes para prevenir eventos cardiovasculares graves e reduzir mortes evitáveis. “Quando o paciente descobre a hipertensão tardiamente, muitas vezes já existe algum grau de comprometimento cardiovascular. Por isso, o diagnóstico precoce faz toda a diferença”.
Como identificar
um AVC precoce? O SAMU destaca a escala de Cincinatti
utilizada como uma ferramenta de reconhecimento precoce. “É importante sempre
pedir para a pessoa sorrir, levantar os braços e falar. Qualquer sintoma novo
como assimetria na face durante um sorriso, perda de força em um dos braços ou
fala enrolada, o indivíduo deverá procurar atendimento de urgência”, alerta o
doutor.
Quando começar a
tratar - As Diretrizes Brasileiras de
Hipertensão Arterial, atualizadas em 2025 por sociedades médicas (Cardiologia,
Hipertensão e Nefrologia), reforçam que níveis de pressão arterial acima de 120
por 80 mmHg já são associadas ao aumento do risco cardiovascular, inclusive em
indivíduos aparentemente saudáveis. “A aferição da pressão arterial é
fundamental, mesmo na ausência de sintomas. A prevenção começa com
acompanhamento, mudança de hábitos e controle dos fatores de risco”, explica o
doutor.
AVC: fatores de
risco e sinais de alerta - O AVC
está diretamente associado a fatores como envelhecimento, hipertensão,
diabetes, tabagismo, sedentarismo, estresse, colesterol elevado e histórico
familiar. Pessoas acima de 55 anos têm maior risco, especialmente quando
acumulam essas condições.
“É uma soma de fatores. A hipertensão,
sozinha, já é um risco importante, mas quando combinada com outros hábitos e
doenças, o perigo aumenta exponencialmente”, destaca dr. Fábio.
Os sinais de alerta exigem atenção imediata: alteração no equilíbrio e coordenação; dificuldade para falar ou compreender; alteração na visão; dor de cabeça súbita e intensa; e fraqueza ou paralisia em um lado do corpo. “Diante de qualquer um desses sintomas, não se deve esperar. O tempo de resposta é determinante para evitar sequelas e até a morte”, reforça o intensivista.
Tipos de AVC - Existem dois tipos principais de AVC:
·
Isquêmico: causado pela
obstrução de uma artéria, impedindo a chegada de oxigênio ao cérebro (cerca de
85% dos casos)
·
Hemorrágico: ocorre quando há
rompimento de um vaso cerebral, com sangramento (mais grave e com maior risco
de morte)
Falhas
no atendimento ainda agravam casos de AVC - Apesar de ser uma condição tratável, o AVC ainda enfrenta
falhas importantes no cuidado em saúde e muitas delas evitáveis.
Na fase inicial, é
comum a dificuldade em reconhecer os sinais ou até a sua subestimação, além da
confusão com outras condições, como enxaqueca ou vertigem. Também há atrasos na
realização de exames essenciais, como a tomografia, o que compromete decisões
rápidas.
Durante o
atendimento, um dos principais problemas é a perda do tempo ideal para uso de
medicamentos que dissolvem o coágulo, além do controle inadequado da pressão
arterial e da falta de encaminhamento para procedimentos que podem retirar o
coágulo do vaso, quando indicados.
“Cada minuto
perdido no AVC significa perda de função cerebral. Quando o atendimento falha,
o impacto pode ser irreversível”, alerta o cardiologista.
Na internação,
persistem falhas como erros de medicação, monitoramento insuficiente e
problemas na comunicação entre equipes, além da prevenção inadequada de complicações,
como pneumonia e trombose.
Após a alta, a
ausência de um plano estruturado de reabilitação e a investigação incompleta da
causa do AVC aumentam significativamente o risco de novos episódios.
Infarto:
sinais que não podem ser ignorados - Os
principais sintomas de infarto incluem dor ou pressão no peito — que pode
irradiar para braço, mandíbula ou costas — além de falta de ar, suor frio,
náuseas e tontura.
Em alguns casos,
os sinais podem ser confundidos com problemas digestivos, o que atrasa a busca
por atendimento. “Desconfortos abdominais, como náuseas e indigestão, também
podem indicar infarto e não devem ser ignorados”, alerta o cardiologista.
“Muitos pacientes ainda chegam tarde ao hospital porque não reconhecem os
sinais. Isso reduz drasticamente as chances de recuperação”, complementa.
Erros
evitáveis no cuidado ao infarto - Entre
as falhas mais comuns estão o atraso no atendimento, problemas no uso de
medicamentos, diagnóstico tardio e falta de continuidade do cuidado após a alta
hospitalar.
Esses fatores
impactam diretamente a evolução do paciente e aumentam o risco de complicações
e morte. “Não basta tratar o evento agudo. É fundamental garantir continuidade
do cuidado para evitar novos episódios”, destaca.
Acreditação:
organização que salva vidas - A
adoção de processos estruturados de qualidade e segurança — como os modelos de
acreditação em saúde, a exemplo da Organização Nacional de Acreditação — tem
impacto direto na prevenção de eventos graves, como infarto e AVC.
Instituições
acreditadas operam com protocolos rigorosos que permitem identificar
precocemente pacientes de risco e agir com rapidez em situações críticas. Isso
se traduz em monitoramento mais eficiente, atendimento padronizado, redução de
erros e maior integração entre equipes.
Mais do que
processos, a acreditação fortalece uma cultura de segurança, na qual sinais não
são ignorados e decisões são baseadas em evidências.
“Quando falamos de infarto e AVC, tempo e precisão fazem toda a diferença. Serviços organizados conseguem agir mais rápido, reduzir complicações e salvar vidas”, conclui.



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