Adoecimento
emocional cresce no país e especialistas defendem que a TRG seja incorporada à
rotina de cuidado em saúde mental
A consolidação dos transtornos emocionais como uma
das principais causas de incapacidade no mundo reacende o debate sobre o lugar
da terapia na rotina de saúde. Estimativas da Organização Mundial da Saúde
indicam que a depressão afeta cerca de 322 milhões de pessoas e teve aumento
superior a 18% em uma década, com aproximadamente 11,5 milhões de brasileiros
impactados.
No campo da ansiedade, o Transtorno de Ansiedade Generalizada
apresenta prevalência global de 3,7% e chega a 5,1% na população brasileira. Em
paralelo, a fibromialgia atinge cerca de 2,5% da população mundial, com forte
associação a dor crônica, depressão e ansiedade.
Para o psicólogo, pesquisador e fundador do
Instituto Brasileiro de Formação de Terapeutas (IBFT),
Jair Soares dos Santos,
doutorando em Psicologia na Argentina e desenvolvedor da Terapia de
Reprocessamento Generativo (TRG), esses números reforçam a necessidade de
tratar o cuidado emocional como parte do check-up preventivo. “A saúde psíquica
não pode entrar na agenda apenas quando há colapso. Assim como exames de sangue
ou avaliação cardiológica são feitos antes de um problema grave, a terapia
precisa olhar para registros emocionais que vêm se acumulando em silêncio e já
impactam sono, corpo e relações”, afirma.
Os limites dos modelos tradicionais também
pressionam por novas abordagens. Revisões recentes destacam que, mesmo com
múltiplas opções farmacológicas e psicoterapias estruturadas, apenas cerca de
um terço dos pacientes com depressão alcança remissão completa dos sintomas,
com risco elevado de recaídas.
Estudos em países da América Latina apontam
prevalência próxima de 29% de depressão resistente ao tratamento, chegando a
cerca de 40% no Brasil.
No campo da ansiedade, pesquisas indicam que
terapias convencionais, como a Terapia Cognitivo-Comportamental associada a
medicamentos, melhoram sintomas, mas não garantem proteção duradoura nem evitam
o retorno de crises em grande parte dos casos.
É nesse contexto que a TRG vem sendo estudada como
uma abordagem complementar. “A metodologia se baseia em princípios de
neuroplasticidade e no reprocessamento de memórias associadas a experiências
adversas, em vez de atuar na ressignificação cognitiva. A técnica é estruturada
em cinco protocolos sequenciais, cronológico, somático, temático, futuro e de
potencialização que buscam acessar eventos marcantes da infância à vida adulta,
mapear respostas corporais, identificar padrões recorrentes, trabalhar cenários
futuros temidos e fortalecer recursos internos.
Uma revisão crítica publicada em 2024 na revista
Mentalis descreve a TRG como uma abordagem natural e adaptativa, aplicada em
quadros de depressão, ansiedade, fibromialgia, ideação suicida, transtorno de
pânico, transtorno de estresse pós-traumático e compulsão alimentar, com
redução consistente de sintomas em estudos iniciais e relatos clínicos.
Os autores ressaltam, porém, que ainda são necessários ensaios clínicos
robustos para consolidar a evidência e definir parâmetros de uso em larga
escala.
No campo dos transtornos depressivos, um artigo
recente relata quatro casos de pacientes com depressão, ansiedade e ideação
suicida que não haviam obtido resposta satisfatória com terapias convencionais.
Após ciclos de TRG, os participantes relataram interrupção dos episódios
depressivos, diminuição significativa da ansiedade e anulação da ideação
suicida, com melhora da percepção de qualidade de vida.
Todos eles conseguiram desmame medicamentoso sob
supervisão psiquiátrica. “O objetivo não é substituir a medicina, e sim abordar
a raiz emocional que mantém o quadro ativo. Quando o sistema nervoso deixa de
reagir como se o perigo ainda estivesse presente, sintomas como desesperança
crônica e pensamentos de morte perdem força”, resume Soares.
Na fibromialgia, condição marcada por dor difusa e
comprometimento emocional, um estudo de caso publicado em periódico
internacional descreve uma paciente que, após anos de tratamento com
medicamentos e Terapia Cognitivo-Comportamental sem remissão, passou por 12
sessões de TRG ao longo de quatro meses.
Questionários aplicados antes e depois do processo
mostraram melhora em indicadores de satisfação com a vida, relações afetivas,
autoconfiança profissional e visão de futuro. As crises de dor tornaram-se cada
vez mais raras até cessarem, com manutenção dos resultados por mais de dois
anos de acompanhamento.
As investigações também apontam para a relação
entre sintomas físicos sem causa orgânica clara e registros emocionais não
processados. Revisões sobre ansiedade, depressão e somatização indicam que uma
parcela relevante das queixas em atenção primária envolve dores crônicas,
fadiga, distúrbios de sono e mal-estar persistente em pessoas com histórico de
sobrecarga emocional ou trauma prévio.
Na prática clínica, parte desses pacientes circula
por diferentes especialidades, com múltiplos exames normais, sem encontrar
explicações satisfatórias. “Quando o corpo repete um sintoma sem que os exames
mostrem alteração, muitas vezes ele está cumprindo um papel de mensageiro. Se o
tratamento se limita a silenciar o sinal, sem investigar o que o produz, o
problema tende a retornar por outra via”, diz o pesquisador.
Para especialistas ligados ao IBFT, o desafio nos
próximos anos é aproximar o discurso da prevenção emocional da rotina dos
serviços de saúde, de empresas e da população em geral. A proposta é que
pessoas busquem acompanhamento antes de crises evidentes, em situações como
irritabilidade constante, sensação de urgência interna, anestesia afetiva, uso
crescente de medicamentos apenas para “aguentar o dia” ou repetição de dores e
sintomas sem diagnóstico orgânico conclusivo.
Soares defende que esse movimento requer mudança
cultural, mas também uma base científica sólida. Nos últimos anos, o IBFT
estruturou um departamento de pesquisa, aprovou projetos em comitês de ética no
Brasil e passou a apresentar trabalhos em congressos nacionais e internacionais
sobre o uso da TRG em depressão, ansiedade, fibromialgia e ideação
suicida.
“Terapia não deveria ser lembrada apenas em
momentos de colapso. Se o cuidado emocional entrar para o calendário com a
mesma naturalidade de exames e consultas de rotina, a tendência é reduzir
afastamentos, evitar agravamentos e diminuir o peso silencioso que hoje recai
sobre indivíduos, famílias e sistemas de saúde”, conclui.
Jair Soares dos Santos - psicólogo, terapeuta, hipnólogo, pesquisador e professor, além de ser o fundador do Instituto Brasileiro de Formação de Terapeutas (IBFT). Criador da Terapia de Reprocessamento Generativo (TRG), sua trajetória é marcada por desafios pessoais que o motivaram a buscar soluções eficazes para o sofrimento emocional. Após enfrentar episódios de depressão e insatisfação com abordagens terapêuticas tradicionais, Jair dedicou-se ao desenvolvimento de uma metodologia que pudesse proporcionar alívio real e duradouro aos pacientes. Sua formação inclui graduação em Psicologia pela Faculdade Integrada do Recife e especializações em áreas como hipnoterapia e análise comportamental.Atualmente é doutorando em Psicologia pela Universidade de Flores (UFLO) na Argentina, onde desenvolve uma pesquisa com a TRG em pessoas com depressão e ansiedade, alcançando resultados promissores com a remissão dos sintomas nestes participantes. Há mais dois doutorados com a TRG a serem desenvolvidos neste momento.
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Instituto Brasileiro de Formação de Terapeutas - IBFT
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