Romper o silêncio sobre a menopausa é essencial para o bem-estar físico e emocional das mulheres. No mês dedicado a refletir sobre à saúde mental, te convido a analisar os impactos emocionais da menopausa
Você acorda e não se reconhece mais no
espelho. Você começa a não compreender quem é aquela pessoa que agora habita o
seu corpo. Há alguém vivendo em você, da pele para dentro, com uma mente
povoada de estranhos pensamentos e você não faz sequer ideia de quem seja. Boa
notícia, ou não: talvez essa seja você adentrando à menopausa, ou melhor, sendo
jogada nela.
Foi assim que me senti quando, aos 49
anos, me vi tendo crises de ansiedades, com tremor e formigamento nas mãos, sem
saber do que se tratava. Pelo que deduzi mais tarde, a perimenopausa já estava
me acompanhando havia um tempo, mas, como ninguém tocava no assunto e a vida
não me deixava parar com as suas infindáveis demandas, eu seguia sem notar que
algo de muito importante estava acontecendo dentro de mim. Como pode algo de
tamanha importância não ser notado? Como não parei antes e olhei com cuidado
para mim mesma? Talvez porque simplesmente ensinem às mulheres a serem
imparáveis, implacáveis, imbatíveis e, sendo assim, terem dores invisíveis. É
tanto prefixo de negação que acabamos por não nos notar!
Quando tive que parar de fato, melhor
dizendo, quando fui parada pelas crises de pânico, que eu sequer acreditava ser
ansiedade — pois achava tratar-se de algum problema neurológico —, foi que a
ficha começou a cair. Não percebi de imediato que a estranheza que me rondava,
a insegurança que passou a morar em mim e a sensação de não pertencimento a mim
mesma faziam parte de um combo trazido pela menopausa.
O peso do silêncio e o tabu do
envelhecimento feminino
As conversas com as mulheres que viviam
o mesmo período que eu também não ajudaram, por incrível que pareça. Estavam na
mesma luta interna, muitas não se sentiam confortáveis em tocar nesse assunto e
tampouco nos seus “trocentos” sintomas. Algumas sequer assumiam estar nesse
momento da vida, pois ele é a prova cabal do envelhecimento feminino, da perda
do viço da pele, do tesão, do desejo e da autoestima. Eu me sentia a chata
sofredora quando tocava no tema. Aquele assunto! E vem ela com aquele papo de
novo? Me sentia na narrativa de Harry Potter bem às avessas, muito às avessas,
aquele assunto que não deve ser nomeado e eu, quase um Voldemort por trazê-lo à
tona. Por muitas vezes me calei, me ressenti (porque a gente passa a sofrer por
tudo) e fingi estar bem, afinal, ninguém quer ser considerada chata.
Cuidar de si é um ato de resistência
A saga de encontrar a solução começou
com um cardiologista após um desmaio. Exausta, com uma insônia atroz, que me
levou a um burnout, uma bela noite levantei durante a noite e caí dura no chão.
Buscar alguns médicos (homens) como um psiquiatra e meu antigo ginecologista,
naquele momento, não me ajudou. Ouvi deles que menopausa era uma fase natural
da mulher e que tudo melhoraria com o tempo. Não quero dizer que todos os profissionais
da saúde do sexo masculino são assim, mas não tive a sorte de ouvir algo que me
acolhesse, muito pelo contrário. Eu precisava me sentir melhor. Queria uma
solução imediata e não esperar anos para essa tal fase ir embora. E ela não
vai. É para todo o sempre.
Entre tantas decisões, sem saber para
onde correr, a mais acertada foi buscar novas perspectivas. Assumi que
precisava ser cuidada, que estava ruindo e que necessitava de ajuda. Decidi me
cercar de profissionais do sexo feminino. Busquei por psicóloga, psiquiatra,
cardiologista e ginecologista. Foi o meu caminho, a forma que me senti
escutada.
Aos poucos comecei a me informar, a me
entender e a me acolher. Aceitei algumas propostas como a reposição hormonal,
algo que realmente mudou a minha vida. Fui me reorganizando, me sentindo
melhor, parecia estar voltando a ser quem eu era. Já conseguia sorrir. Deixei
alguns medicamentos, passei a tomar alguns suplementos, mantive a terapia, a
yoga e a musculação. Enfim, percebi, de uma forma mais forte, que somente eu
sou responsável pela minha felicidade e pelo meu bem-estar. Sendo assim, o
cuidado comigo mesma é algo de minha inteira responsabilidade.
Foi fácil? Não. Precisa ser assim? Não.
Fique esperta! Olhe-se, atende-se às mudanças do seu corpo porque ele fala, só
que muitas vezes não o escutamos. Passe a ver a sua rotina de cuidados, que
agora é necessária, como algo bom e não como um fardo.
Priorize-se! Porque, afinal, uma mulher
que passa pela menopausa com desejo não quer guerra e nem precisa provar nada
para ninguém. Ela tem uma estrada percorrida e sabe que, com saúde, humor e a
autoestima elevada ela, agora sim, cheia de si, é imparável, implacável e
imbatível.
Ana Paula Couto - Professora de língua inglesa por mais de duas décadas, redescobriu na pandemia sua paixão pela escrita, publicando contos e crônicas em antologias antes de estrear na literatura solo com “Amor de Manjericão”, publicado em 2022. Em 2025, lançou “Amor de Alecrim”, continuação da obra, com a personagem aos 50 anos.
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