Brincar de boneca (tão comum durante a infância para ajudar no desenvolvimento emocional e cognitivo das crianças) tem se tornado um hobby da vida adulta; e o que antes era um objeto colecionável ou brinquedo, percebo que os bebês reborn agora ganharam contornos afetivos e têm despertado vínculos emocionais profundos e, em alguns casos, contribuído para o bem-estar de pessoas em momentos de fragilidade emocional.
Atualmente vivemos em uma sociedade que valoriza a
exposição e o compartilhamento de experiências, por isso acho que o recente
fascínio coletivo dessas bonecas hiper-realistas está profundamente ligado à
intensificação do uso das redes sociais – o que desperta curiosidade e
engajamento.
Influenciadores digitais têm um grande papel em legitimar
certas condutas ao mostrarem suas rotinas com esses bebês, e, de certa forma,
criam um mundo paralelo onde algumas atitudes lúdicas são socialmente aceitas e
até desejadas. Além disso, acredito que o principal motivo dessa “febre” seja o
tempo de solidão emocional, ansiedade e distanciamento, onde essas bonecas
acabam oferecendo uma ilusão, de afeto e vínculo, que conforta muitos
indivíduos.
Percebo que a maneira como determinadas mulheres
cuidam do objeto como filhas de verdade pode estar relacionada ao quão
realistas elas parecem e, em alguns casos, pode ser um substituto simbólico de
perdas (como luto ou infertilidade); em outros, uma forma de preencher lacunas
afetivas. Ela é incondicional: está ali sempre disponível, dócil e pronta para
receber cuidado, o que pode ser extremamente sedutor para quem vivencia
relações humanas desafiadoras. Além disso, não chora, não fica doente, não
reclama, não oferece os desafios de um verdadeiro relacionamento.
Como terapeuta, vejo que transformar as reborn em um
“personagem” pode reforçar uma idealização e um estado de negação da realidade.
Isso pode dificultar a elaboração de dores emocionais e afetar a autoestima
feminina, que passam a se definir por essa relação. A validação pública vira
alimento emocional, o que pode ser perigoso quando não há limites claros entre
o simbólico e o real.
Quando a boneca começa a ocupar o lugar das
relações reais, impedindo a elaboração de experiências dolorosas, temos uma
fuga, e a pessoa se refugia nessa ilusão para não lidar com a dor, o medo ou a
frustração.
Não posso deixar de destacar que muitas mulheres
que cuidam de reborn enfrentam olhares de julgamento ou piadas, especialmente
quando o cuidado ultrapassa os limites do simbólico. Por isso, diversas se
refugiam em comunidades on-line ou presenciais, onde encontram acolhimento e
identificação. Percebo que esses espaços oferecem pertencimento, ainda que
reforcem padrões não saudáveis.
É fundamental olharmos para esse fenômeno com sensibilidade. Por trás de cada bebê reborn há uma história. Antes de julgar, precisamos compreender: o que essa boneca realmente representa para essa mulher? Quando há sofrimento ou prejuízo na vida real, entendo que o diálogo familiar e a escuta profissional (atendimentos psicopedagógicos e arteterapêuticos) podem transformar essa relação simbólica em um caminho de cura, e não de aprisionamento.
Paula Furtado - Psicopedagoga, escritora e contadora de histórias
@paulafurtadopf
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