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sexta-feira, 9 de maio de 2025

“Tramontana”: exposição que ativa imaginários de Belo Horizonte oferece atividades formativas gratuitas e segue em cartaz até o fim de maio



Projeto dos artistas Maria Vaz e Marlon de Paula mescla artes visuais, literatura, fotografia e inteligência artificial para contar histórias da capital mineira; neste mês, programação conta com duas oficinas e uma conversa aberta, todas gratuitas


Misturando artes visuais, fotografia, literatura e Inteligência Artificial (IA), com uma boa dose de realismo mágico, a exposição “Tramontana” joga luz sobre histórias, miragens e mitologias de Belo Horizonte. Realizado pelos artistas visuais Maria Vaz e Marlon de Paula, o projeto aborda a capital mineira desde antes de sua fundação, como Arraial Curral del-Rei do século XIX, até a metrópole habitada por pouco mais de dois milhões de pessoas na atualidade. Montada na Fazendinha Dona Izabel, casarão histórico localizado na Barragem Santa Lúcia, a exposição fica em cartaz até o dia 31 de maio e tem visitação gratuita.

 

Neste mês, a programação inclui três atividades formativas, todas igualmente gratuitas, sendo duas oficinas e uma conversa aberta, que acontece nesta sexta-feira, dia 9 de maio, das 14h às 16h. Na ocasião, a exposição recebe a professora, socióloga e militante da causa indígena Avelin Buniacá Kambiwá, para a conversa "Saberes e histórias dos povos originários e presença indígena no território de Minas Gerais". 

 

Também no dia 9, das 19h às 21h, e no dia 10 de maio, das 14h às 18h, acontece a oficina “Poéticas do Arquivo”, com a artista-pesquisadora e curadora Gabriela Sá. As inscrições já estão encerradas. Já no dia 17 de maio, das 14h às 20h, é a vez dos realizadores de “Tramontana”, Maria Vaz e Marlon de Paula, ministrarem a oficina “Arquivos Potenciais e Cartografias do Comum”, cujas inscrições estão abertas e podem ser feitas via formulário online, disponível neste link


 

Atividades formativas 

 

Indígena da etnia Kambiwá, mãe, professora e socióloga, Avelin abordará, na conversa aberta "Saberes e histórias dos povos originários e presença indígena no território de Minas Gerais", os desafios enfrentados pelas comunidades indígenas em Minas Gerais na atualidade, além de compartilhar histórias de divindades e encantados presentes na cosmogonia dos povos originários.

 

Doutora Honoris Causa pela Faculdade FEBRAICA (2022), Avelin Buniacá é mestra em Estudos da Ocupação (CPGEO) na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e graduada em Ciências Sociais pela Universidade Metodista de São Paulo (2011). Atuou como professora de Sociologia na Educação de Jovens e Adultos (EJA), pela Secretaria de Estado da Educação, foi palestrante e fundadora do Comitê  Indígena Mineiro, além de conselheira e pesquisadora do Instituto Imersão Latina.

 

Cursou aperfeiçoamento em Gestão de Políticas Públicas em Gênero e Raça (GPP-GER), e Formação de Professores em Temáticas Indígenas (CUPI), ambos pela UFMG. Foi assessora parlamentar na Câmara Municipal de Belo Horizonte (2017-2022) e idealizadora da Expo Abya Yala, a primeira feira indígena de Belo Horizonte. Foi, ainda, a primeira indígena candidata a deputada estadual por Minas Gerais (2022) e atuou como conselheira municipal de Igualdade Racial na capital, no biênio 2021-2023. 

 

Ministrada pela artista e pesquisadora Gabriela Sá, “Poéticas do Arquivo” mistura aulas expositivas e ateliê aberto. A atividade apresenta o pensamento que sustenta a dimensão poética do arquivo, dando como exemplo diversos artistas que fazem uso deste material em suas obras. Qualquer interessado pode participar, independente da idade ou da familiaridade com o tema. Os materiais para a oficina são: papel, lápis, caneta, tesoura, linha, agulha e cola. 

 

Artista-pesquisadora e curadora, Gabriela Sá pretende criar junto aos participantes um lugar de experimentação possível aos gestos de arquivar, contra-arquivar e anarquivar, assim como a fabulação por entre as lacunas dos arquivos. Doutoranda e mestra em Artes Visuais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Gabriela Sá tem interesse pela imagem, seja ela estática ou em movimento. Suas pesquisas mais recentes perpassam os temas da memória e do esquecimento, da história e da ficção, do real e do imaginário, todos por meio do arquivo e de suas lacunas. 

 

É curadora do Festival de Fotografia de Tiradentes, desde 2017. Atuou como pesquisadora assistente da plataforma internacional Archivo Platform, entre 2021 e 2022. Foi arte-educadora no CERSAM-AD Venda Nova (2021-2022), no projeto Desembola na Ideia (2017-2021) e ministrou cursos em eventos de arte e escolas livres, como o Núcleo FAC. Desenvolve trabalhos autorais em diversos meios, tendo participado de exposições em várias cidades do Brasil, como Belo Horizonte (MG), Juiz de Fora (MG), Tiradentes (MG), Teresina (PI) e Belém (PA), além de países como Inglaterra, Colômbia e México. Atua, também, no duo .:grão, em parceria com o artista Ícaro Moreno. O duo foi premiado com a Residência Artística Farol, do "11º Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia" (2020), e com o "XVI Prêmio Marc Ferrez de Fotografia" (2021).

 

Ministrada pelos artistas de “Tramontana”, Maria Vaz e Marlon de Paula, “Arquivos Potenciais e Cartografias do Comum”, investiga formas de ativar imagens de arquivo e narrativas orais como estratégias de construção de memórias coletivas e produção de conhecimento situado. Partindo de arquivos visuais da cidade e da escuta sensível de histórias do território, a oficina propõe traçar cartografias afetivas daquilo que se compartilha, se disputa e se reinventa coletivamente. Através de práticas de escuta, análise crítica e criação visual, os participantes serão convidados a questionar os limites dos arquivos e narrativas oficiais e a imaginar e criar outras formas de documentar, lembrar e habitar a cidade.


 

Exposição

 

Com um projeto imersivo, “Tramontana” possui paredes que remetem às esquinas famosas esquinas da capital mineira, popularmente conhecidas como pontos de encontros e referência afetiva para os moradores. E chama a atenção pelas instalações e videoartes, alimentadas por muitos estímulos sensoriais. “Sentimos a necessidade de que algumas obras ganhassem um espaço tridimensional, em que os estímulos sonoros e visuais ajudassem a contar essas histórias”, diz Marlon de Paula. 

 

“Temos uma videoarte sobre o Ricardo Malta, o homem que duelou contra o Capeta do Vilarinho e venceu. E uma videoarte com imagens raríssimas da implosão de um conjunto de edifícios que abrigava a Galeria do Comércio, o Mercado Mauá e o Hotel Panorama, (na região da Lagoinha, porta de entrada de mercadorias e imigrantes que vieram trabalhar na construção da capital), um documento importante para contar as transformações socioespaciais desse bairro, que foi e é fundamental na história da cidade”, completa Marlon.

 

Com ajuda do MidJourney, programa de Inteligência Artificial que cria imagens a partir de descrições textuais e prompts de comando, os artistas produziram “novas Belo Horizontes”, incluindo nesses retratos parte das cosmovisões, dos sonhos e da oralidade de gente comum, que sustenta na memória longínqua uma cidade não registrada em livros ou documentos. Nesse sentido, a exposição remonta histórias de grupos como o Rosas de São Bernardo, formado por mulheres com mais de 60 anos da região Norte de Belo Horizonte, e que preservam cantigas do tempo em que eram crianças. E das raizeiras e lavadeiras do Barreiro, que estão intrinsecamente relacionadas à proteção da Serra do Rola Moça.

 

Para além das criações digitais, as histórias ouvidas pelos artistas Maria Vaz e Marlon de Paula renderam uma série fotográfica noturna, denominada “Luz del Fuego”. A ideia busca representar, a partir de imagens escuras, capturadas com poucos pontos de luz, relatos de uma Belo Horizonte que também se criou no mistério da noite, com suas lendas, a exemplo da Loira do Bonfim, do Aventesma da Lagoinha e do Capeta da Vilarinho, e seus imaginários e personagens marcantes, como a atriz, dançaria, escritora e naturista Dora Vivacqua (1917-1967), mais conhecida como “Luz del Fuego”, que também inspira a série fotográfica. 

 

Dora é considerada um símbolo da emancipação das mulheres, sendo a precursora do naturismo no Brasil, responsável por romper com os padrões da sociedade vigente nos anos 1940 e 1950, o que também lhe rendeu ataques e fantasias entorno de suas atitudes e discursos. “Durante as nossas andanças e conversas, ouvimos muito sobre a noite e como certas histórias, personagens e sensações só são possíveis durante a noite. Por isso, uma das séries que criamos é toda feita durante a noite. Mas não é qualquer noite, é a noite escura, pouco iluminada. A noite de uma cidade como Belo Horizonte não acolhe mais essas certas histórias e personagens e sensações, porque ela dá a ver demais”, explica Maria Vaz.

 

Ao olhar para Belo Horizonte como se a capital coubesse em muitas cidades, encantos e desencantos possíveis – e não apenas como uma construção linear de progresso homogêneo – num entrelaçamento entre passado, presente e futuro, a exposição “Tramontana” revela como a memória de um lugar é viva e continuamente transformada. “As histórias de um território, inclusive as que estão arquivadas, são vivas e estão em constante movimento. Elas seguirão se movimentando, ganhando novos pontos, como se conta em todo bom conto”, justifica Maria Vaz.


 

“Vento que sopra do norte”

 

A artista ressalta, ainda, que o nome “Tramontana” é inspirado no conto homônimo de Gabriel García Márquez (1927-2014), publicado no livro “Doze Contos Peregrinos” (1992), e significa um “vento que sopra do norte” ou, nas palavras de Gabo, um “vento de terra inclemente e tenaz”, que modifica, desnorteia, abre e fecha caminhos. A artista Maria Vaz explica que a escolha por essa ideia tem relação com o desejo de deixar-se levar, assim como o vento da tramontana, mas, neste caso, em direção às descobertas de parte de uma Belo Horizonte escondida.

 

“(Há lugares e pessoas) que muitas vezes não estão na história e nos arquivos institucionais da cidade. Resistem na oralidade, na memória coletiva, talvez em arquivos privados. Mais do que isso, e talvez o mais importante, resistem no comum — no coletivo — que é algo que as grandes cidades tendem a seccionar. O que fazemos é tentar ativar isso, esse encantamento que existe no comum, que só é possível com o comum, justamente porque é nele que essas histórias nascem e sobrevivem, se ramificam e se transformam”.

 

Este projeto é realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte.

 

SERVIÇO 

Exposição “Tramontana”, de Maria Vaz e Marlon de Paula

Quando. Até 31/5 | Visitação: quartas e quintas, de 10h a 16h;

sextas e sábados, de 13h a 18h

Onde. Fazendinha Dona Izabel

(Avenida Arthur Bernardes, 3.120 - Barragem Santa Lúcia)

Quanto. Entrada gratuita

Mais. Projeto "Tramontana" no Instagram

 

Conversa aberta com Avelin Buniacá Kambiwá - ‘Saberes e histórias dos povos originários e presença indígena no território de Minas Gerais’

Quando. Dia 9/5 (sexta-feira), das 14h às 16h 

Onde. Fazendinha Dona Izabel

(Avenida Arthur Bernardes, 3.120 - Barragem Santa Lúcia)

Quanto. Entrada gratuita

 

Oficina ‘Poéticas do Arquivo’, com Gabriela Sá

Quando. Dia 9/5 (sexta-feira), das 19h às 21h; dia 10/5 (sábado), das 14h às 18 

Onde. Fazendinha Dona Izabel

(Avenida Arthur Bernardes, 3.120 - Barragem Santa Lúcia)

Quanto: Inscrições encerradas

 

Oficina ‘Arquivos Potenciais e Cartografias do Comum’, com Maria Vaz e Marlon de Paula

Quando. Dia 17/5 (sexta-feira), das 14h às 20h

Onde. Fazendinha Dona Izabel

(Avenida Arthur Bernardes, 3.120 - Barragem Santa Lúcia)

Quanto. Gratuita. Inscrições abertas, via formulário online neste link 

 

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