Projeto dos artistas Maria Vaz e Marlon de Paula mescla artes visuais, literatura, fotografia e inteligência artificial para contar histórias da capital mineira; neste mês, programação conta com duas oficinas e uma conversa aberta, todas gratuitas
Misturando artes visuais, fotografia,
literatura e Inteligência Artificial (IA), com uma boa dose de realismo mágico,
a exposição “Tramontana” joga luz sobre histórias, miragens e mitologias de
Belo Horizonte. Realizado pelos artistas visuais Maria Vaz e Marlon de Paula, o
projeto aborda a capital mineira desde antes de sua fundação, como Arraial
Curral del-Rei do século XIX, até a metrópole habitada por pouco mais de dois
milhões de pessoas na atualidade. Montada na Fazendinha Dona Izabel, casarão
histórico localizado na Barragem Santa Lúcia, a exposição fica em cartaz até o
dia 31 de maio e tem visitação gratuita.
Neste mês, a programação inclui três
atividades formativas, todas igualmente gratuitas, sendo duas oficinas e uma conversa
aberta, que acontece nesta sexta-feira, dia 9 de maio, das 14h às 16h. Na
ocasião, a exposição recebe a professora, socióloga e militante da causa
indígena Avelin Buniacá Kambiwá, para a conversa "Saberes e histórias dos
povos originários e presença indígena no território de Minas
Gerais".
Também no dia 9, das 19h às 21h, e no dia 10
de maio, das 14h às 18h, acontece a oficina “Poéticas do Arquivo”, com a
artista-pesquisadora e curadora Gabriela Sá. As inscrições já estão encerradas.
Já no dia 17 de maio, das 14h às 20h, é a vez dos realizadores de “Tramontana”,
Maria Vaz e Marlon de Paula, ministrarem a oficina “Arquivos Potenciais e
Cartografias do Comum”, cujas inscrições estão abertas e podem ser feitas via
formulário online, disponível neste link.
Atividades
formativas
Indígena da etnia Kambiwá, mãe, professora e
socióloga, Avelin abordará, na conversa aberta "Saberes e histórias dos
povos originários e presença indígena no território de Minas Gerais", os
desafios enfrentados pelas comunidades indígenas em Minas Gerais na atualidade,
além de compartilhar histórias de divindades e encantados presentes na
cosmogonia dos povos originários.
Doutora Honoris Causa pela Faculdade FEBRAICA
(2022), Avelin Buniacá é mestra em Estudos da Ocupação (CPGEO) na Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG) e graduada em Ciências Sociais pela Universidade
Metodista de São Paulo (2011). Atuou como professora de Sociologia na Educação
de Jovens e Adultos (EJA), pela Secretaria de Estado da Educação, foi
palestrante e fundadora do Comitê Indígena Mineiro, além de conselheira e
pesquisadora do Instituto Imersão Latina.
Cursou aperfeiçoamento em Gestão de Políticas
Públicas em Gênero e Raça (GPP-GER), e Formação de Professores em Temáticas
Indígenas (CUPI), ambos pela UFMG. Foi assessora parlamentar na Câmara
Municipal de Belo Horizonte (2017-2022) e idealizadora da Expo Abya Yala, a
primeira feira indígena de Belo Horizonte. Foi, ainda, a primeira indígena
candidata a deputada estadual por Minas Gerais (2022) e atuou como conselheira
municipal de Igualdade Racial na capital, no biênio 2021-2023.
Ministrada pela artista e pesquisadora
Gabriela Sá, “Poéticas do Arquivo” mistura aulas expositivas e ateliê aberto. A
atividade apresenta o pensamento que sustenta a dimensão poética do arquivo,
dando como exemplo diversos artistas que fazem uso deste material em suas
obras. Qualquer interessado pode participar, independente da idade ou da familiaridade
com o tema. Os materiais para a oficina são: papel, lápis, caneta, tesoura,
linha, agulha e cola.
Artista-pesquisadora e curadora, Gabriela Sá
pretende criar junto aos participantes um lugar de experimentação possível
aos gestos de arquivar, contra-arquivar e anarquivar, assim como a fabulação por
entre as lacunas dos arquivos. Doutoranda e mestra em Artes Visuais pela
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Gabriela Sá tem interesse pela
imagem, seja ela estática ou em movimento. Suas pesquisas mais recentes
perpassam os temas da memória e do esquecimento, da história e da ficção, do
real e do imaginário, todos por meio do arquivo e de suas lacunas.
É curadora do Festival de Fotografia de
Tiradentes, desde 2017. Atuou como pesquisadora assistente da plataforma
internacional Archivo Platform, entre 2021 e 2022. Foi arte-educadora no
CERSAM-AD Venda Nova (2021-2022), no projeto Desembola na Ideia (2017-2021) e
ministrou cursos em eventos de arte e escolas livres, como o Núcleo FAC. Desenvolve
trabalhos autorais em diversos meios, tendo participado de exposições em várias
cidades do Brasil, como Belo Horizonte (MG), Juiz de Fora (MG), Tiradentes
(MG), Teresina (PI) e Belém (PA), além de países como Inglaterra, Colômbia e
México. Atua, também, no duo .:grão, em parceria com o artista Ícaro Moreno. O
duo foi premiado com a Residência Artística Farol, do "11º Prêmio Diário
Contemporâneo de Fotografia" (2020), e com o "XVI Prêmio Marc Ferrez
de Fotografia" (2021).
Ministrada pelos artistas de “Tramontana”,
Maria Vaz e Marlon de Paula, “Arquivos Potenciais e Cartografias do Comum”,
investiga formas de ativar imagens de arquivo e narrativas orais como
estratégias de construção de memórias coletivas e produção de conhecimento
situado. Partindo de arquivos visuais da cidade e da escuta sensível de
histórias do território, a oficina propõe traçar cartografias afetivas daquilo
que se compartilha, se disputa e se reinventa coletivamente. Através de
práticas de escuta, análise crítica e criação visual, os participantes serão
convidados a questionar os limites dos arquivos e narrativas oficiais e a
imaginar e criar outras formas de documentar, lembrar e habitar a cidade.
Exposição
Com um projeto imersivo, “Tramontana” possui
paredes que remetem às esquinas famosas esquinas da capital mineira,
popularmente conhecidas como pontos de encontros e referência afetiva para os
moradores. E chama a atenção pelas instalações e videoartes, alimentadas por
muitos estímulos sensoriais. “Sentimos a necessidade de que algumas obras
ganhassem um espaço tridimensional, em que os estímulos sonoros e visuais
ajudassem a contar essas histórias”, diz Marlon de Paula.
“Temos uma videoarte sobre o Ricardo Malta, o
homem que duelou contra o Capeta do Vilarinho e venceu. E uma videoarte com
imagens raríssimas da implosão de um conjunto de edifícios que abrigava a
Galeria do Comércio, o Mercado Mauá e o Hotel Panorama, (na região da Lagoinha,
porta de entrada de mercadorias e imigrantes que vieram trabalhar na construção
da capital), um documento importante para contar as transformações
socioespaciais desse bairro, que foi e é fundamental na história da cidade”,
completa Marlon.
Com ajuda do MidJourney, programa de
Inteligência Artificial que cria imagens a partir de descrições textuais e prompts de
comando, os artistas produziram “novas Belo Horizontes”, incluindo nesses
retratos parte das cosmovisões, dos sonhos e da oralidade de gente comum, que
sustenta na memória longínqua uma cidade não registrada em livros ou documentos.
Nesse sentido, a exposição remonta histórias de grupos como o Rosas de São
Bernardo, formado por mulheres com mais de 60 anos da região Norte de Belo
Horizonte, e que preservam cantigas do tempo em que eram crianças. E das
raizeiras e lavadeiras do Barreiro, que estão intrinsecamente relacionadas à
proteção da Serra do Rola Moça.
Para além das criações digitais, as histórias
ouvidas pelos artistas Maria Vaz e Marlon de Paula renderam uma série
fotográfica noturna, denominada “Luz del Fuego”. A ideia busca representar, a
partir de imagens escuras, capturadas com poucos pontos de luz, relatos de uma
Belo Horizonte que também se criou no mistério da noite, com suas lendas, a
exemplo da Loira do Bonfim, do Aventesma da Lagoinha e do Capeta da Vilarinho,
e seus imaginários e personagens marcantes, como a atriz, dançaria, escritora e
naturista Dora Vivacqua (1917-1967), mais conhecida como “Luz del Fuego”, que também
inspira a série fotográfica.
Dora é considerada um símbolo da emancipação
das mulheres, sendo a precursora do naturismo no Brasil, responsável por romper
com os padrões da sociedade vigente nos anos 1940 e 1950, o que também lhe
rendeu ataques e fantasias entorno de suas atitudes e discursos. “Durante as
nossas andanças e conversas, ouvimos muito sobre a noite e como certas
histórias, personagens e sensações só são possíveis durante a noite. Por isso,
uma das séries que criamos é toda feita durante a noite. Mas não é qualquer
noite, é a noite escura, pouco iluminada. A noite de uma cidade como Belo Horizonte
não acolhe mais essas certas histórias e personagens e sensações, porque ela dá
a ver demais”, explica Maria Vaz.
Ao olhar para Belo Horizonte como se a
capital coubesse em muitas cidades, encantos e desencantos possíveis – e não
apenas como uma construção linear de progresso homogêneo – num entrelaçamento
entre passado, presente e futuro, a exposição “Tramontana” revela como a
memória de um lugar é viva e continuamente transformada. “As histórias de um
território, inclusive as que estão arquivadas, são vivas e estão em constante
movimento. Elas seguirão se movimentando, ganhando novos pontos, como se conta
em todo bom conto”, justifica Maria Vaz.
“Vento
que sopra do norte”
A artista ressalta, ainda, que o nome
“Tramontana” é inspirado no conto homônimo de Gabriel García Márquez
(1927-2014), publicado no livro “Doze Contos Peregrinos” (1992), e significa um
“vento que sopra do norte” ou, nas palavras de Gabo, um “vento de terra
inclemente e tenaz”, que modifica, desnorteia, abre e fecha caminhos. A artista
Maria Vaz explica que a escolha por essa ideia tem relação com o desejo de
deixar-se levar, assim como o vento da tramontana, mas, neste caso, em direção
às descobertas de parte de uma Belo Horizonte escondida.
“(Há
lugares e pessoas) que muitas vezes não estão na história e nos arquivos
institucionais da cidade. Resistem na oralidade, na memória coletiva, talvez em
arquivos privados. Mais do que isso, e talvez o mais importante, resistem no
comum — no coletivo — que é algo que as grandes cidades tendem a seccionar. O
que fazemos é tentar ativar isso, esse encantamento que existe no comum, que só
é possível com o comum, justamente porque é nele que essas histórias nascem e
sobrevivem, se ramificam e se transformam”.
Este
projeto é realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de
Belo Horizonte.
SERVIÇO
Exposição “Tramontana”, de Maria Vaz e Marlon de Paula
Quando. Até 31/5 | Visitação: quartas e
quintas, de 10h a 16h;
sextas e
sábados, de 13h a 18h
Onde. Fazendinha Dona Izabel
(Avenida Arthur
Bernardes, 3.120 - Barragem Santa Lúcia)
Quanto. Entrada gratuita
Mais. Projeto "Tramontana" no Instagram
Conversa aberta com Avelin Buniacá Kambiwá - ‘Saberes e
histórias dos povos originários e presença indígena no território de Minas
Gerais’
Quando. Dia 9/5 (sexta-feira), das 14h
às 16h
Onde. Fazendinha Dona Izabel
(Avenida
Arthur Bernardes, 3.120 - Barragem Santa Lúcia)
Quanto. Entrada gratuita
Oficina ‘Poéticas do Arquivo’, com Gabriela Sá
Quando. Dia 9/5 (sexta-feira), das 19h
às 21h; dia 10/5 (sábado), das 14h às 18
Onde. Fazendinha Dona Izabel
(Avenida
Arthur Bernardes, 3.120 - Barragem Santa Lúcia)
Quanto: Inscrições encerradas
Oficina ‘Arquivos Potenciais e Cartografias do Comum’, com
Maria Vaz e Marlon de Paula
Quando. Dia 17/5 (sexta-feira), das 14h
às 20h
Onde. Fazendinha Dona Izabel
(Avenida
Arthur Bernardes, 3.120 - Barragem Santa Lúcia)
Quanto. Gratuita. Inscrições abertas, via
formulário online neste link

Nenhum comentário:
Postar um comentário