O Brasil de hoje não é
pródigo em boas notícias. Muito ao contrário. Praticamente todos os dias,
jornais, portais e programas informativos trazem notícias sobre corrupção, má
gestão da coisa pública, precariedade nos serviços estatais, só para citar
casos que já se tornaram recorrentes há décadas.
Dias atrás, o ex-ministro das pastas da Defesa e da Segurança Pública, Raul
Jungmann, ocupou manchetes, ao afirmar que o crime organizado controle votos,
elege políticos e faz nomeações para os cargos de alto escalão.
As
declarações foram fonte de enorme polêmica. Entretanto, não há nada a
estranhar. Se considerarmos que parcela considerável dos políticos brasileiros
de todas as instâncias, inclusive do Congresso Nacional, são ficha suja, a
situação é alarmante. Diversas denúncias e escândalos são de conhecimento dos
cidadãos, mas nada muda em virtude da inércia e/ou da omissão daqueles que
deveriam cobrar responsabilidades e punir os autores de maus-feitos.
Um
dos principais problemas desse círculo vicioso é que a população, cada vez
mais, tem dificuldade de acesso ao atendimento público e, quando consegue, é
pessimamente assistida.
Na
saúde, minha expertise, há distintos exemplos de mazelas. Na rede estatal,
falta investimento, os recursos humanos de qualidade estão escassos, as
políticas de remuneração são exploratórias, entre outros problemas. Essa
conjunção de fatores traz prejuízos importantes aos pacientes, que sofrem em
filas gigantescas, padecem com a falta de medicamentos e com o sucateamento das
unidades de assistência.
Um
desavisado pode dizer que ao menos os que possuem planos e seguros saúde
recebem atendimento digno. Só que não é bem assim. Há uma série de empresas que
negam cobertura, pressionam médicos a reduzir pedidos de exames e outros
procedimentos e antecipar altas e por aí vai. Assim, os usuários pagam
mensalidades altíssimas sem ter contrapartida. Prestadores de serviço, têm sua
autonomia aviltada e as mãos atadas, várias vezes, sem conseguir administrar as
melhores técnicas e tratamentos.
Pior é que o quadro tende a se agravar caso uma proposta das operadoras de
planos de saúde vire Lei. Elas querem colocar no mercado produtos segmentados,
que deixarão um contingente gigante à beira da amargura. Para ter uma ideia,
pretendem vender produtos que oferecem internação, mas não acesso a UTI. Que
dão direito a consultas básicas, mas não a especialistas. Circo de horrores.
A
Sociedade Brasileira de Clínica Médica, a qual presido, já fechou questão
contra, ao lado de outras instituições como o Idec, de defesa do consumidor, a
Ordem dos Advogados do Brasil, a Associação Paulista de Medicina e outras 40
entidades da sociedade civil.
Não podemos admitir que qualquer proposta semelhante se concretize. Além de ser
nociva à saúde suplementar, encherá ainda mais as filas do Sistema Único, o
SUS, que também terá de arcar com grandes despesas de alta complexidade,
enquanto as empresas ficarão com o mais light, só amealhando mais e mais
lucros.
Antonio
Carlos Lopes - presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica
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