Com quase metade das funções
já expostas à IA, cresce a pressão emocional no trabalho e empresas passam a
lidar com uma nova variável: a ansiedade produtiva
A inteligência artificial deixou de
ser apenas uma ferramenta de ganho de eficiência para se tornar um novo vetor
de pressão emocional no ambiente de trabalho. Se, até pouco tempo, o debate
girava em torno de produtividade e inovação, agora ele passa, cada vez mais,
pela saúde mental.
Dados discutidos no Starbem Summit 2026 mostram a velocidade dessa transformação. Há um ano, 36% dos empregos tinham pelo menos 25% das tarefas expostas à inteligência artificial. Hoje, esse número já chega a 49% e o mais relevante: os profissionais mais impactados são justamente os mais experientes, com maior escolaridade e salários mais altos.
Esse movimento marca uma ruptura em relação a revoluções tecnológicas anteriores, que afetavam principalmente funções operacionais. Agora, a pressão recai sobre cargos estratégicos, ampliando a sensação de instabilidade e exigindo adaptação constante.
“A pergunta que começa a surgir não
é mais se a tecnologia vai mudar o trabalho, mas como cada carreira vai se
transformar nos próximos cinco anos”, afirmou Michelle Schneider durante o
evento.A velocidade de adoção da inteligência artificial ajuda a explicar esse
novo cenário. O ChatGPT atingiu 1 milhão de usuários em apenas cinco dias, um
ritmo sem precedentes. Essa aceleração cria o que especialistas chamam de
“tempo digital”, muito mais rápido do que a capacidade humana de adaptação.
Na prática, isso se traduz em uma sequência de emoções no ambiente corporativo: primeiro, a sensação de ganho de poder e eficiência; em seguida, o medo da substituição; e, por fim, um estado constante de antecipação do futuro. “Quando tentamos prever o que vai acontecer com o nosso trabalho, começamos a viver esse futuro no presente e isso gera ansiedade”, foi um dos pontos discutidos no Summit.
Esse fenômeno já tem nome: ansiedade
produtiva. Trata-se de um estado em que o profissional se sente permanentemente
pressionado a evoluir, aprender novas ferramentas e provar relevância, mesmo
sem uma ameaça concreta imediata.
O paradoxo da IA: acolhimento e pressão ao mesmo tempo
Ao mesmo tempo em que aumenta a pressão, a própria tecnologia começa a ser usada como ferramenta de apoio emocional. Um levantamento apresentado no evento mostra que 35% da Geração Z já utiliza inteligência artificial como suporte para lidar com sentimentos, enquanto 40% afirmam se sentir mais confortáveis para falar com a IA do que com outras pessoas.
Esse comportamento ajuda a explicar o crescimento do conceito de AI Care, o uso da tecnologia como canal de acolhimento psicológico. Na Starbem, por exemplo, as interações com a assistente virtual Stela cresceram 523% em apenas três meses. O dado revela uma mudança importante: o colaborador busca cada vez mais espaços de escuta que sejam imediatos, acessíveis e livres de julgamento.
“A tecnologia aumentou a
disponibilidade, hoje, o cuidado também precisa acompanhar esse ritmo”,
destacou Renato Barbosa, CPTO da Starbem.
O novo desafio das empresas: evitar o
esgotamento em escala
Esse cenário coloca um novo desafio para as empresas. Se, por um lado, a inteligência artificial impulsiona produtividade e inovação, por outro, intensifica a sensação de cobrança permanente e acelera o desgaste emocional.
A discussão deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser estrutural. Como equilibrar alta performance com sustentabilidade emocional em um ambiente onde tudo acontece mais rápido?
A resposta começa a surgir na forma
como organizações estão redesenhando suas estratégias de gestão. O uso de IA na
triagem de saúde mental, a criação de canais de escuta contínua e o
monitoramento de indicadores emocionais passam a fazer parte da agenda
corporativa, trata-se de uma adaptação necessária a um novo modelo de trabalho
em que a tecnologia não apenas transforma tarefas, mas redefine a relação das
pessoas com o tempo, com o desempenho e com o próprio futuro.
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