Análises de 309 linhagens coletadas em oito países apontam que o gênero Escovopsis surgiu há 56,9 milhões de anos, mas só passou a se relacionar com formigas mutualistas atuais 38 milhões de anos atrás, contestando teoria de que todos teriam surgido ao mesmo tempo
Um gênero
de fungos, até então considerado um parasita de fungos associados a formigas,
pode, na verdade, ter funções ecológicas muito mais complexas. Uma evidência é
que eles surgiram 18 milhões de anos antes das próprias formigas com as quais
são associados hoje, conforme indica um estudo publicado na
revista Communications Biology e apoiado pela FAPESP.
Os
resultados são fruto da análise de 309 linhagens do gênero Escovopsis,
coletadas em oito países das Américas. Ao observar fragmentos dos genomas, as
características morfológicas, a distribuição geográfica e a filogenia das
espécies, algo como o parentesco evolutivo entre elas, os pesquisadores
conseguiram determinar em 38 milhões de anos a relação com as
formigas-cortadeiras, sendo que Escovopsis teria surgido 56,9
milhões de anos atrás.
“Nossa
hipótese principal é que eles tenham surgido associados a grupos ancestrais das
formigas cultivadoras de fungos e então passado a conviver com as atuais
formigas-cortadeiras 38 milhões de anos atrás. Outra possibilidade é que tenham
vivido em outro contexto nesses 18 milhões de anos iniciais, fora da associação
com as formigas, como colonizadores de folhas ou degradando matéria orgânica,
por exemplo”, explica Quimi Vidaurre Montoya, primeiro autor do estudo,
realizado como parte de seu pós-doutorado com bolsa da
FAPESP no Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista
(IB-Unesp), em Rio Claro.
As
formigas-cortadeiras (subtribo Attina) cultivam fungos para se alimentar deles.
A relação de mutualismo teria surgido 66 milhões de anos atrás, conforme estudo
recente do grupo publicado em 2024 na revista Science (leia
mais em: agencia.fapesp.br/52937).
“Nosso
trabalho atual é sobre Escovopsis, um gênero de fungos que não é o
cultivado pelas formigas, mas que está presente nas colônias de algumas
espécies de formigas cultivadoras e pode matar alguns de seus cultivares. Por
conta disso, é retratado como um ‘parasita’, quando na verdade só se conhece
uma, de 24 espécies, que pode causar infecção no fungo cultivado pelas
formigas”, esclarece Montoya.
O estudo é
parte de um projeto apoiado pela FAPESP no âmbito do Programa BIOTA,
coordenado por André Rodrigues, professor do IB-Unesp e pesquisador
do Centro de
Pesquisa em Biodiversidade e Mudanças do Clima (CBioClima), um dos
Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) apoiados pela FAPESP.
Adaptações
Os autores
notam que, ao longo do tempo evolutivo, os Escovopsis passaram
por adaptações morfológicas e fisiológicas, aparentemente para incrementar sua
eficiência reprodutiva e se adaptar à vida dentro dos formigueiros. Essas
alterações se deram sobretudo nas vesículas que produzem os conídios,
estruturas que realizam a reprodução assexuada.
“As
vesículas passam de um formato de globo, nas espécies mais próximas do
ancestral comum, para cilíndrico, nas mais recentes. Essas alterações podem ter
sido respostas a barreiras impostas pelas formigas ou pelos seus fungos
simbiontes”, conta Montoya.
Dados
fisiológicos indicam que a taxa de crescimento, número de vesículas, produção e
viabilidade de conídios aumentaram gradualmente à medida que o gênero se
diversificou. Espécies com vesículas cilíndricas podem crescer mais rápido do
que aquelas com estruturas em formato de globo, enquanto as vesículas mais
finas e alongadas de espécies mais recentes exibem produção e viabilidade
consideravelmente maiores de conídios do que as de grupos mais antigos e com
vesículas globosas.
“Aparentemente,
há uma coevolução entre formigas, fungos simbiontes e Escovopsis.
Não sabemos se evoluíram para se tornarem parasitas ou são oportunistas, que se
alimentam de detritos e podem comer o que resta quando o sistema como um todo
entra em colapso. Mas se fosse um hospedeiro virulento especializado, como
parte da literatura assume, destruiria o sistema independentemente de ele estar
em equilíbrio ou não”, opina Montoya.
Fungos pouco conhecidos
O estudo é
um desdobramento de um trabalho mais amplo realizado até hoje sobre o
gênero Escovopsis, que começou ainda no doutorado de Montoya
com bolsa da
FAPESP sob orientação de Rodrigues, com estágio na
Universidade Emory, nos Estados Unidos.
Na
ocasião, o então doutorando analisou as duas maiores coleções existentes desses
fungos: a do IB-Unesp, coletada e mantida pelo grupo de Rodrigues, e a da
Emory, mantida pela professora Nicole Marie Gerardo, sua supervisora no exterior.
Um dos
primeiros resultados daquele esforço foi a descrição de dois novos gêneros, até
então classificados como Escovopsis. Outros dois descobertos
naquele trabalho ainda estão em processo de descrição. Montoya e Rodrigues
lideraram ainda a descrição de 13 novas espécies de Escovopsis, com
outras dez em processo de descrição.
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| Colônia de Escovopsis sp. com produção de micélio aéreo e conídios, cultivada em placa de petri por sete dias (foto: Quimi Vidaurre Montoya/IB-Unesp) |
“Alguns fungos mais virulentos são removidos
imediatamente pelas formigas quando inoculados na colônia. Nos experimentos
com Escovopsis, porém, elas não dão tanta importância para ele”, diz o
pesquisador.
O artigo Digging into the evolutionary history of
the fungus-growing-ant symbiont, Escovopsis (Hypocreaceae) pode ser lido
em: www.nature.com/articles/s42003-025-08654-z.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/fungo-parasita-teria-surgido-18-milhoes-de-anos-antes-de-formigas-com-as-quais-vive-hoje/55845



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