As
sanções econômicas aplicadas por parte das nações ocidentais contra a Rússia
como meio de retaliação após o início desta guerra, ainda sem data para seu
final, se mostraram efetivas e muito rápidas, contudo uma específica foi a mais
forte de todas: a sanção financeira atrelada às moedas que são
internacionalmente aceitas como reserva de valor e meio de trocas a nível
mundial.
Neste
contexto, a proibição de parte das empresas e do governo russo de transacionar
com o dólar norte-americano, a libra esterlina, o euro, o iene japonês e o
franco suíço, além do congelamento de ativos financeiros vinculados a essas
moedas, colocou a Rússia na pior das situações entre as nações em
desenvolvimento. As citadas moedas são poderosas, pois representam a confiança
internacional de seus países emissores e conjuntamente representam
aproximadamente 92% de todas as reservas internacionais do planeta; elas são
usadas em aproximadamente 80% de todas as transações comerciais internacionais.
Após
essas informações, chegou-se à conclusão de que quem controla a emissão e a
circulação dessas moedas controla também, indiretamente, o fluxo de recursos e
autoriza que terceiros possam manter essas moedas como uma reserva de valor
além de suas fronteiras, por isso a moeda é hoje considerada um instrumento de
poder geoeconômico. Essa característica referente às principais moedas mundiais
já era algo estudado na academia e no ambiente das relações internacionais,
principalmente durante as crises econômicas, em que essas nações se mostram com
uma maior capacidade de executar uma política monetária expansionista, tendo em
vista sua conversibilidade em praticamente quase todas as moedas estrangeiras e
sua elasticidade em relação a preços.
Entretanto,
esta é a primeira vez que, conjuntamente, essas moedas são efetivamente usadas
como um instrumento de “combate” , digamos, dentro de uma guerra, mostrando na
prática, e com vigor, sua capacidade destrutiva quando se torna necessário seu
uso dentro da ótica do poder geoeconômico financeiro. Estamos assistindo à
história sendo escrita. Mais que isso, conseguimos compreender o poder que a moeda
possui de destruir uma economia. Não há neste texto qualquer interesse de expor
crítica pelas sanções. Muito pelo contrário, acredito que elas são
verdadeiramente as melhores e mais eficazes “armas” a serem utilizadas para
enfrentar a Rússia sem que se dê início a um conflito em escala mundial.
Prevendo
o mundo pós-guerra na Ucrânia, segue-se uma explicação prática do que já havia
sido afirmado em artigos anteriores, o fato de que o Estado, ao deter o
controle exclusivo da emissão de moeda e seu poder perante os agentes que a
usam, apresenta uma capacidade de exercer seu poder a nível internacional;
portanto, nunca os Estados deverão abrir mão de tal importante poder
voluntariamente.
Por
tal motivo, enalteço a crítica às criptomoedas como possíveis sucessoras das
moedas nacionais. Ora, a existência de moedas como Bitcoin, Ethereum, Cardano e
outras são de fato ameaças existenciais ao poder do Estado no âmbito
financeiro, pois se hipoteticamente se tornassem os principais meios
transacionais e de reserva de valor de Estados nacionais, o poder geoeconômico
das moedas, como conhecemos tradicionalmente, seria extinto. Nesse contexto,
acredito que a regulação dos ativos e a sua adoção pelos Estados devem se
tornar uma tendência, devidamente alocada dentro da margem do sistema
financeiro, algo focado em nichos de investimento e não necessariamente dentro
da economia real de trocas de bens e serviços. Existem diversas críticas aos
criptoativos, seja por fraudes, pela instabilidade ou mesmo pelo uso no submundo
da economia, e esses são elementos que contribuem para a manutenção do poder
dos Estados sobre as moedas em escala global.
O
que outrora fora uma desconfiança pelo uso em guerras desse poder por parte das
nações mais industrializadas do mundo, hoje já é uma realidade contra a Rússia
e despertou o olhar antes cético de nações do mundo árabe, como ocorre na
Arábia Saudita, que passa seriamente a discutir a venda de petróleo em Yuan,
moeda corrente da China, temendo que suas reservas internacionais em Dólares e
Euros possam um dia ser usadas contra eles mesmos em conflitos internacionais,
tais como está ocorrendo na Rússia.
Se
por um lado essas nações têm um extraordinário poder financeiro ao exercer o
controle das principais moedas de transação e reserva de valor do planeta, por
outro o uso delas em um conflito internacional também pressupõe questionamentos
sobre sua adoção internacional, como um possível “Cavalo de Troia” para nações
não liberais e para aquelas em que o seu alinhamento não é total e irrestrito
em conflitos internacionais. A manutenção do poder dessas moedas e sua
composição a nível internacional certamente serão um importante campo de estudo
para a academia no campo da economia e das relações internacionais, bem como um
tema a ser debatido, no âmbito da estratégia internacional das nações, em um
mundo no qual a Realpolitk volta a se impor com centralidade internacional.
Igor Macedo de Lucena - economista e empresário, Doutor em Relações Internacionais na Universidade de Lisboa, membro da Chatham House – The Royal Institute of International Affairs e da Associação Portuguesa de Ciência Política.
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