Com apoio do
Sebrae, empreendedores apresentam, em São Paulo, produtos a partir do cacau,
caju, pescado e café, que carregam origem, técnica e afeto
Na BR que corta Ouro Preto do Oeste, em Rondônia,
Melissa Almeida vende chocolate, rapadura de cacau e gelatos sem lactose nem
glúten em um trailer à beira da estrada. É ali, no meio do caminho, que muita
gente descobre que o cacau da região pode ter outro destino, de menos commodity
e mais identidade. “Eu via a necessidade de criar um produto que tivesse a
nossa cara, algo regional mesmo”, diz. A resposta veio na forma de uma rapadura
de cacau, inventada com a ajuda da avó mineira, que saiu de Belo Horizonte para
dar o ponto do doce. “Como eu inventei, é algo exclusivo. Só a gente tem.”
Foi esse tipo de produto que o Sebrae decidiu levar
para a Anuga Select Brazil 2026. Não
alimentos in natura, mas produtos já prontos para prateleira, com marca,
embalagem, certificações e lastro produtivo. O evento, a principal feira de
negócios de alimentos e bebidas das Américas, acontece até o dia 9 de abril, no
Distrito Anhembi, em São Paulo.
A estratégia do Sebrae na feira se baseia em três
pilares: valorização da origem dos produtos, experiência gastronômica e geração
de negócios. De acordo com Bruno Lopes, gestor de Alimentos e Bebidas do Sebrae
Nacional, o foco é mostrar o caminho do alimento até chegar à mesa do
consumidor. “A gente trouxe produtos com identidade, com origem e com
capacidade de chegar ao mercado, tanto no Brasil quanto fora. Produtos que só
tem no Brasil”, afirma.
A marca de Melissa Almeida, Cacau Raiz, nasceu com
apoio direto do Sebrae, que orientou desde a formalização até identidade
visual, embalagem e estrutura do negócio. O crescimento também passou por uma
escolha que extrapola o produto. Melissa estruturou uma rede de fornecimento
com mulheres da agricultura familiar, que ela chama de “Divas da Cacau Raiz”.
São produtoras de cacau, frutas e insumos que
abastecem a empresa e ampliam o impacto do negócio na região. "É uma forma
de incentivar outras mulheres, de fazer o dinheiro circular e de mostrar que é
possível crescer juntas", diz Melissa.
Caju do Ceará
Mais ao Nordeste, o caju aparece de outro jeito.
Nas mãos de Rosimeire Silva, no Ceará, ele vira doce, melado, ingrediente e
também elo. Ela comanda uma agroindústria no Maciço de Baturité e construiu,
com apoio do Sebrae, um negócio que combina produção, beneficiamento e
articulação local. "A gente faz essa conexão com as mulheres da
região — que é quem mais trabalha! — com quem produz, com quem
transforma", afirma Rosimeire.
Ao redor da operação, ela também mobiliza
estudantes da Unilab, incluindo jovens de países como Guiné-Bissau e Angola,
além de alunos de agronomia e engenharia de alimentos, que encontram ali espaço
de prática e geração de renda.
A empresa começou no campo, com milho e cana, e
ganhou escala com a profissionalização da marca, rotulagem, certificações e
entrada em novos mercados. Hoje, além da venda em lojas e restaurantes,
Rosimeire recebe visitantes interessados em conhecer o processo produtivo e o
chão de onde brotam tantos produtos que despertam curiosidade e apetite. “Quem
não é visto não é lembrado. Então a gente precisa aparecer.”
Chocolate com cacau baiano e
paraense
O mesmo cuidado aparece no chocolate da Clemmens,
feito com cacau da Bahia e do Pará, em Brasília. A produção segue critérios
rigorosos, com cacau fino, poucos ingredientes e linhas orgânicas certificadas.
O resultado são barras intensas, com sabores limpos e ingredientes rastreáveis.
“Na hora que a pessoa prova, ela entende”, diz Isabel Corá.
A empresa cresceu com apoio do Sebrae em feiras,
capacitações e acesso a mercado. A certificação orgânica, exigente e custosa
foi incorporada desde o início como valor da marca. Hoje, o desafio é expandir
sem perder o controle sobre a qualidade e a cadeia produtiva.
Café de origem quilombola
Na outra ponta do estande, o café chega com mais
uma camada de significado. O Café Quilombo, apresentado por Tarsila Geovana,
nasce de uma produção quilombola no Espírito Santo, na divisa com a Bahia. O
grão conilon, cultivado em comunidades tradicionais, ganha tratamento cuidadoso
e posicionamento que valoriza sua história e sua origem. "É um café que
carrega identidade, que carrega território", diz Tarsila.
A marca aposta em diferentes formatos — grão, moído
e cápsula — e vem ampliando presença com apoio do Sebrae, que atua na
estruturação comercial e na inserção em feiras. O resultado é um produto cheio
de personalidade e com aquele sabor que só a roça tem.
Gastronomia com brasilidade
Essa combinação ganha forma e aroma na cozinha
montada no espaço. Ali, a chef pernambucana Negralinda, à frente da Gastronomia
do Mangue, conecta tudo. Filha de pescadores, ex-marisqueira, ela transforma
ingredientes dos produtores em pratos que fazem o visitante parar. Paella vira
“paelha do mangue”, brownie ganha passa de caju e cheesecake chega com jabuticaba. "A
gente pega produtos que só tem no Brasil e faz essa releitura com muita
brasilidade", afirma a chef.
Hoje, com uma linha de produtos congelados e
padronizados, ela também atua na formação de outras mulheres. O trabalho
envolve técnica, precificação e organização produtiva. “Quando a pessoa entende
o processo, ela passa a valorizar o produto de outro jeito.”
Entre um pedaço de chocolate orgânico, um gole de
café de origem quilombola ou uma garfada de “paelha do mangue”, a feira vai
revelando um padrão difícil de copiar. Em um mercado cheio de produtos
parecidos entre si, esses pequenos produtores chegam com textura e sotaques bem
brasileiros. Produtos que carregam as muitas identidades de um povo que está
aprendendo a se celebrar e que começam a ganhar espaço justamente por isso.