O mundo consome cada vez mais energia a cada ano, impulsionado por avanços tecnológicos, crescimento populacional e novas demandas industriais. No entanto, essa expansão ocorre em meio a um cenário climático cada vez mais instável, marcado por eventos extremos, instabilidades hídricas e pressões regulatórias que estão comprometendo e fragilizando nossa matriz energética. O resultado deste cenário é um desequilíbrio perigoso que exige respostas estruturais — e rápidas - para o setor energético, pautadas pela inovação na busca por fontes alternativas mais sustentáveis e renováveis.
Pesquisas do Centro Polsky do WRI para a Transição
Energética Global apontam que a demanda global por energia deve crescer, pelo
menos, 2,8% ao ano até 2030. Esse aumento, segundo o estudo, é impulsionado por
inúmeros fatores, desde a expansão mundial do transporte elétrico, crescimento
econômico e industrialização, à maior demanda por refrigeração em países em
desenvolvimento, assim como o rápido crescimento de data centers em países
desenvolvidos.
Ao mesmo tempo, grande parte da matriz energética global —
especialmente a brasileira — vem sendo drasticamente impactada por eventos
externos que prejudicam seu devido funcionamento. De secas prolongadas, que
reduzem a capacidade de usinas hidrelétricas, as quais ainda são a base do
sistema nacional; às ondas de calor, que aumentam o consumo de energia; além
das tempestades e eventos extremos que danificam as redes de transmissão e
distribuição.
A crise climática funciona como um “teste de estresse” da
matriz energética, evidenciando os graves problemas que enfrentamos nesse
sentido: forte dependência de hidrelétricas, baixa diversificação em algumas
regiões e limitações no armazenamento de energia. Migrar para outras fontes
mais renováveis e limpas é uma questão de sobrevivência econômica, não apenas
como forma de driblar os impactos desses eventos ambientais, mas, acima de
tudo, de continuar atendendo a demanda mundial de consumo energético contando
com fontes mais ecológicas que contribuam com a manutenção do nosso ecossistema.
A China é um dos maiores exemplos nesse sentido, conduzindo
uma das maiores transformações energéticas do mundo na expansão de suas fontes
renováveis — especialmente a eólica — como peça central para reduzir sua
dependência de petróleo e fortalecer sua segurança energética. Além de seu
baixo custo operacional após instalação, essa fonte de energia tem grande
potencial de escalar em grande quantidade, permitindo que seja distribuída até
mesmo em regiões de pouco acesso, gerando benefícios sociais.
O ponto central não é “copiar” modelos adotados em outros
países, mas entender a lógica por trás deles: nações como a China estão
tratando sua energia como estratégia de Estado, não apenas como
infraestrutura. E é exatamente isso que o Brasil precisa se inspirar, ainda
mais considerando nossas vantagens naturais que são subexploradas positivamente
com um olhar verdadeiramente inovador.
Deveríamos olhar de forma
diferente para nossas fontes de geração de energia renováveis, buscando
soluções que façam sentido para a nossa realidade. Um dos nossos maiores
diferenciais está na extensão da nossa costa oceânica, a qual possui grande
potencial para energia gerada através das ondas e movimento das marés - o que,
além de complementar outras fontes renováveis
(como solar e eólica terrestre), reduziria a dependência de regimes climáticos
específicos, como as secas que já estamos enfrentando em diversas
regiões nacionais.
Em um exemplo prático de como essa estratégia poderia se
converter em resultados vantajosos ao país, o Rio Tietê, cuja bacia termina no
Rio Paraná, onde fica Itaipu, possui seis usinas que geram cerca de 1.834,30
MW. Imagine se a água do Tietê começa a secar a níveis drásticos, isso
comprometeria, diretamente, a capacidade de Itaipu, um dos maiores geradores de
energia limpa e renovável do mundo.
Isso mostra quanto que esse tipo de inovação poderia gerar
novas patentes, conhecimentos e desenvolvimento tecnológico ao mercado interno,
mitigando riscos de que tais crises climáticas afetem o fornecimento de energia
à população, desde que essas iniciativas sejam conduzidas com processos muito
bem estruturados e metodologias robustas que incentivem a colaboração e
engajamento dos profissionais na exploração de possíveis caminhos a serem
seguidos.
A crise climática está redefinindo as regras do jogo no
setor de energia. Não se trata mais apenas de garantir oferta, mas
de assegurar resiliência, previsibilidade e sustentabilidade em um
cenário cada vez mais instável. Países que entenderam isso já estão avançando e
se destacando nesse sentido — transformando desafios em vantagem competitiva. O
Brasil, com seu enorme potencial energético, tem a oportunidade de liderar esse
movimento, se já começar a agir, com estratégia e sabedoria, nessa direção.
Alexandre Pierro - doutorado em energia e mestre em gestão e engenharia da inovação, engenheiro mecânico, bacharel em física e especialista de gestão da PALAS, consultoria pioneira na implementação da ISO de inovação na América Latina.
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