Especialistas explicam por que os jovens encontram
dificuldade para lidar com sentimentos intensos e apontam caminhos de apoio
para famílias e escolas
A adolescência é um período de transição marcado por um verdadeiro
turbilhão emocional. Entre os 10 e os 19 anos, os jovens enfrentam mudanças
físicas, hormonais, cognitivas e sociais que afetam diretamente a forma como
percebem o mundo e a si mesmos. Se na infância predominava uma visão mais
lúdica, simples e protegida da vida, agora surgem questionamentos, inseguranças
e desafios que tornam essa etapa uma das mais delicadas do desenvolvimento
humano.
A confusão com relação às próprias emoções tem explicação biológica: o córtex pré-frontal, a região do cérebro humano que controla impulsos, que também é responsável pela regulação emocional, planejamento, definição de metas, avaliação de resultados e tomada de decisões, é a última desenvolver-se completamente, por volta dos 25 anos de vida do indivíduo.
“Isso significa que o adolescente sente com intensidade e, muitas vezes, reage de maneira impulsiva, porque ainda não tem todos os recursos cognitivos para avaliar as situações de forma equilibrada”, diz a orientadora educacional da Escola Bilíngue Aubrick (São Paulo-SP), Isis Galindo.
Isis lembra a animação Divertidamente (Inside
Out), que se tornou uma metáfora poderosa para explicar o que acontece na mente
de um adolescente: ao longo do filme, as emoções disputam espaço no controle
das decisões da protagonista Riley. “É justamente assim que muitos jovens
descrevem suas experiências: uma mistura de sentimentos intensos, que chegam a
parecer incontroláveis”.
O peso dos desafios contemporâneos
A dificuldade de lidar com as próprias emoções não se restringe às
transformações biológicas. A realidade contemporânea acrescenta novos elementos
de pressão sobre os jovens. As redes sociais, por exemplo, criam um ambiente de
comparação constante. “Padrões de beleza, fama e sucesso inatingíveis são
projetados diariamente em vídeos e imagens que moldam a autoestima e a forma
como os adolescentes se percebem”, acrescenta Isis.
Adultos tendem a minimizar os sentimentos dos adolescentes
Isis destaca que, muitas vezes, ao olharem para trás, os adultos tendem a guardar lembranças mais leves e afetuosas da adolescência, das amizades, descobertas e conquistas e acabam deixando em segundo plano as inseguranças e desafios que também fizeram parte desse período. Isso é natural, mas pode levar a uma percepção reduzida sobre o que os jovens enfrentam hoje.
Para quem já passou por essa fase, é comum que alguns conflitos adolescentes pareçam exagerados ou passageiros. No entanto, é importante lembrar que cada sentimento vivido pelos jovens tem um peso real em sua experiência. Reconhecer e validar essas emoções fortalece o vínculo entre pais, educadores e adolescentes, favorecendo um diálogo mais aberto, respeitoso e acolhedor.
“Quando acolhemos os sentimentos dos adolescentes,
mesmo aqueles que nos parecem pequenos, transmitimos a mensagem de que eles
importam. Esse cuidado fortalece a autoestima e contribui para o
desenvolvimento da autorregulação emocional”, afirma a orientadora Isis.
O papel da família: presença e exemplo
Pais e cuidadores desempenham um papel central no processo de autorregulação
dos adolescentes. A escuta ativa, sem julgamentos, é o primeiro passo para
estabelecer um ambiente seguro. Mostrar interesse genuíno pela rotina, pelos
desafios escolares e pelas relações de amizade ajuda o adolescente a se sentir
acolhido.
Isis é categórica ao afirmar que o exemplo é essencial. “Crianças e jovens aprendem observando. Pais que demonstram estratégias saudáveis de lidar com frustrações, seja no trânsito, em situações de trabalho ou no convívio familiar, ensinam na prática, como regular as próprias emoções. O adolescente precisa entender que sentir raiva, tristeza ou frustração faz parte da vida. O que importa é a forma como lidamos com esses sentimentos”, ressalta.
A especialista da Aubrick reforça que ensinar
autorregulação significa oferecer ferramentas para que o adolescente reconheça
e compreenda seus sentimentos, em vez de reprimi-los ou ignorá-los. Técnicas
simples, como respiração profunda, escrita de emoções em diários e pausas
conscientes diante de conflitos, são estratégias que ajudam a reduzir a
impulsividade.
A contribuição da escola
A relação entre o papel da família e a contribuição da escola é fundamental para o desenvolvimento emocional saudável dos adolescentes. Enquanto a família oferece o primeiro ambiente de acolhimento por meio da presença, do exemplo e da escuta ativa, a escola amplia esse suporte ao proporcionar espaços seguros de convivência e aprendizado prático sobre a gestão das emoções.
Juntas, família e escola formam uma rede de apoio essencial, em que a família ajuda o adolescente a reconhecer e regular seus sentimentos no dia a dia, e a escola reforça essas aprendizagens, promovendo a resiliência, o respeito às diferenças e o enfrentamento de desafios como o bullying.
A orientadora educacional Leticia Panczel, também da Aubrick, lembra que, antes, o bullying era restrito ao espaço físico da escola, mas hoje ele invade a vida privada do jovem por meio de mensagens, grupos e publicações online, acompanhando-o até dentro de casa. “Isso gera uma sensação de que não há lugar seguro, pois a violência simbólica ou verbal atravessa a fronteira do portão da escola e se instala na intimidade do adolescente, por meio do celular”, observa.
E como os adolescentes passam grande parte do tempo no ambiente escolar, as instituições de ensino assumem um papel decisivo na promoção da saúde emocional. Projetos de convivência, rodas de conversa, atividades artísticas e esportivas funcionam como canais para expressão e acolhimento.
Além disso, professores e orientadores podem ser
figuras-chave de referência. “A escola é o espaço onde o jovem encontra uma
diversidade de ideias, culturas e personalidades. É nesse ambiente que ele
aprende a lidar com diferenças, a resolver conflitos e a desenvolver
resiliência. Por isso, quando a escola se compromete com o bem-estar emocional,
ela se torna parte importante de uma rede de apoio fundamental”, destaca
Letícia.
Setembro amarelo
Frente ao número crescente de casos de ansiedade, depressão e suicídio entre crianças e adolescentes, o Setembro Amarelo, mês dedicado à prevenção e conscientização sobre saúde mental, lança luz sobre essa realidade e reforça a necessidade de diálogo: um convite para a sociedade refletir sobre o cuidado com a saúde mental de crianças e adolescentes. Mais do que campanhas, trata-se de criar um ambiente em que pedir ajuda seja visto como ato de coragem, e não de fraqueza.
“Adolescentes não precisam que os adultos tenham todas
as respostas. Eles precisam saber que não estão sozinhos, que existe um espaço
de escuta e apoio. Quando a família, a escola e a comunidade se unem, aumentam
as chances de que esses jovens desenvolvam habilidades emocionais que os
acompanharão pela vida adulta”, conclui Leticia.
Leticia Panczel - orientadora educacional da Escola Bilíngue Aubrick. Profissional com trajetória na educação básica, na gestão pedagógica e educacional desde o Ensino Fundamental até os anos finais do Ensino Fundamental 2, com especializações em Gestão Escolar, Competências Socioemocionais e Formação da Personalidade Ética, Psicopedagogia e Neuropsicopedagogia.
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