Dr. José Carlos Sadalla explica como a técnica inovadora detecta o DNA do tumor no sangue e pode antecipar o diagnóstico em anos, mas ressalta que a tecnologia ainda está em validação e seu uso exige cautela.
Uma simples coleta de sangue com o
potencial de detectar o câncer anos antes dos primeiros sintomas. Essa é a
promessa da biópsia líquida, uma técnica inovadora que está na
vanguarda da oncologia e representa um dos mais promissores avanços no
diagnóstico precoce da doença. Contudo, apesar do otimismo, a aplicação em
larga escala ainda depende de mais estudos e validação clínica.
O Prof. Dr.
José Carlos Sadalla, especialista em Mastologia e
Oncoginecologia, explica o funcionamento, as vantagens e os desafios dessa nova
fronteira da medicina.
O
que é e como funciona a biópsia líquida?
Diferente
da biópsia tradicional, que remove um fragmento de tecido do tumor, a biópsia
líquida é um exame não invasivo que analisa uma amostra de sangue (ou outros
fluidos corporais) em busca de "rastros" do câncer. A tecnologia
procura por frações do DNA do tumor que circulam na corrente sanguínea, o
chamado ctDNA.
"A
grande revolução da biópsia líquida é a capacidade de nos dar um retrato
molecular do tumor de uma forma muito menos agressiva para o paciente", explica o Dr. Sadalla. "Ao encontrar
e analisar esse DNA tumoral, conseguimos identificar características genéticas
do câncer, monitorar a resposta ao tratamento e até detectar uma possível volta
da doença muito antes de ela aparecer em exames de imagem. É uma janela para o
futuro do tratamento oncológico."
A
tecnologia utiliza inteligência artificial e machine learning para
processar os dados encontrados no sangue e identificar padrões que indiquem a
presença e, em alguns casos, até a origem do câncer. Pesquisas recentes no
Reino Unido, por exemplo, identificaram mais de 100 proteínas no sangue
associadas ao surgimento de câncer até sete anos antes do diagnóstico
convencional.
O
futuro: testes de detecção precoce de múltiplos cânceres (MCEDs)
A
biópsia líquida é a base para o desenvolvimento dos testes MCED (multi-cancer
early detection), que buscam rastrear diversos tipos de câncer de uma só
vez. Grandes estudos estão em andamento, como o do teste Galleri®, com mais de
140 mil pessoas no Reino Unido, cujos resultados são aguardados para 2026. A
ideia é que esses testes possam complementar métodos de rastreamento já
estabelecidos, como a mamografia, ou servir para tumores que hoje não possuem
um método de triagem eficaz, como os de pâncreas e ovário.
Cenário
atual: promessas e limitações
Apesar
de promissora, o Dr. Sadalla ressalta que a tecnologia ainda tem um caminho a
percorrer antes de ser usada em larga escala.
- Vantagens: É menos
invasiva, permite o monitoramento contínuo da doença e ajuda a
personalizar o tratamento.
- Desvantagens: O alto custo
(de R$ 6 mil a R$ 15 mil), a sensibilidade ainda limitada para tumores
muito iniciais e o risco de resultados falso-positivos são os principais
desafios.
"Hoje,
no Brasil, a biópsia líquida já é uma realidade na rede privada para indicações
muito específicas, como monitorar a progressão de uma doença avançada ou
avaliar a necessidade de tratamento complementar após uma cirurgia. Contudo,
ela ainda não está disponível no SUS ou na maioria dos planos de saúde e não
substitui a biópsia de tecido para o diagnóstico inicial",
afirma o médico.
O
perigo dos marcadores tumorais tradicionais
O Dr.
Sadalla também faz um alerta importante sobre a interpretação de exames mais
antigos, como os marcadores tumorais (CA 125, CEA, etc.), que podem gerar
confusão e ansiedade.
"É
fundamental que os pacientes entendam: marcadores tumorais não servem para
diagnóstico de câncer. Eles podem estar alterados por uma infinidade de
condições benignas",
explica. "O exemplo clássico é o marcador CA 125, que pode subir em
casos de endometriose, cistos no ovário ou até hepatite, sem ter nenhuma
relação com câncer. Usá-los de forma isolada para rastreamento pode levar a
pânico e procedimentos invasivos desnecessários. A medicina de precisão, como a
biópsia líquida, busca justamente superar essa falta de especificidade."
Clínica Andrade & Sadalla
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