Garantir a segurança de bebês e crianças é o mote da campanha da OMS para o Dia Mundial da Segurança do Paciente de 2025
São Paulo, setembro de 2025 - No Brasil, 1 a cada 10 nascimentos ocorre antes das 37 semanas, colocando o país entre os 10 com maior índice de partos prematuros no mundo[iii] e aumentando a demanda por cuidados essenciais logo no início da vida. O assunto é de tamanha importância que despertou a atenção da Organização Mundial da Saúde (OMS). A entidade escolheu como tema “cuidados seguros para cada recém-nascido e cada criança” para a campanha “Segurança do paciente desde o início” do Dia Mundial da Segurança do Paciente de 2025. A data é celebrada em 17 de setembro.
A imaturidade pulmonar representa uma das principais causas de internação em UTI neonatal, particularmente em prematuros. Entre as complicações respiratórias associadas está a apneia da prematuridade. “Essa condição ocasiona a suspensão do fluxo de ar nas vias respiratórias por um período maior ou igual a 20 segundos, ou por tempo inferior, se associada a quadros de bradicardia (diminuição da frequência cardíaca) ou hipoxemia (diminuição dos níveis de oxigênio no sangue)”, explica a pediatra neonatologista Marta David Rocha de Moura, doutora em ciências da saúde pela UnB e docente do curso de medicina da Escola Superior de Ciências da Saúde de Brasília/DF. Outras condições também podem afetar o recém-nascido prematuro, como a Síndrome do Desconforto Respiratório (SDR) e a displasia broncopulmonar (DBP), todas com elevada morbidade.
Embora a tecnologia e o conhecimento médico avancem continuamente, a internação em uma UTI Neonatal expõe os bebês a riscos importantes, alguns deles relacionados a diferentes formulações de medicações essenciais. “Recém-nascidos exigem prescrições com doses extremamente precisas e, em muitos casos, em volumes reduzidos e de difícil manipulação”, alerta a especialista.
A Resolução da
Diretoria Colegiada (RDC) nº 67, de 2007, da Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (ANVISA), rege a manipulação de medicamentos no Brasil e aprova o
Regulamento Técnico sobre Boas Práticas de Manipulação de Preparações
Magistrais e Oficinais para Uso Humano em farmácias. “Embora a RDC não seja
específica para UTI Neonatal, ela estabelece os requisitos mínimos que todas as
farmácias de manipulação devem seguir para garantir a qualidade, a segurança e
a eficácia dos medicamentos. Além disso, a própria resolução diz que só faz
sentido a manipulação se comprovada a inexistência da medicação no mercado.
Precisamos garantir que todos sigam esses requisitos, inclusive os órgãos fiscalizadores”,
explica a especialista.
Tratamento adequado pode salvar vidas
“O manejo clínico de pacientes recém-nascidos prematuros frequentemente requer intervenções específicas, como a administração de surfactante pulmonar, o uso criterioso de antibióticos frente a risco infeccioso e a introdução do citrato de cafeína como estratégia eficaz para tratamento da apneia. Tais medidas constituem pilares fundamentais para a estabilização clínica e a melhoria dos desfechos neonatais”, afirma a especialista.
No caso da apneia, o citrato de cafeína atua como um estimulante do sistema nervoso central, especificamente no centro respiratório, além de aumentar a atividade elétrica diafragmática e a contratilidade. Isso resulta em um aumento da força muscular respiratória e da frequência das respirações, ajudando a prevenir e tratar os episódios de apneia em bebês prematuros[iv]. “Estudos têm demonstrado que o uso desse medicamento pode reduzir a incidência de displasia bronco pulmonar, que está associada à ventilação mecânica prolongada. A cafeína também tem sido associada à redução nas taxas de paralisia cerebral e atrasos cognitivos, podendo ter um efeito neuroprotetor no cérebro em desenvolvimento de recém-nascidos prematuros”, explica Dra Marta.
Segundo a especialista, a manipulação dessa medicação pode representar um alto risco. “Com a manipulação não há como garantir a concentração exata do princípio ativo em cada dose. Pequenas variações na pesagem ou na homogeneização podem levar a sub dosagem, comprometendo a eficácia no tratamento da apneia, ou a superdosagem, aumentando o risco de toxicidade. Além disso, a estabilidade e o prazo de validade de medicamentos manipulados tendem a ser mais limitados, comprometendo sua conservação e eficácia terapêutica. Apesar das boas práticas farmacêuticas, a preparação individualizada também pode gerar troca de insumos, contaminação cruzada ou rotulagem inadequada.
Por isso, a
conscientização dos riscos associados aos medicamentos é fundamental.
“Familiares e profissionais da saúde informados podem participar mais
ativamente das decisões sobre o tratamento dos bebês. Aqueles que compreendem
os efeitos adversos de um medicamento podem estar mais atentos a qualquer sinal
ou sintoma incomuns no bebê. Isso pode ser vital para a detecção precoce de
problemas”, finaliza Dra Marta.
Segurança neonatal e pediátrica é tema de campanha do Dia Mundial da Segurança do Paciente
Os números preocupam: 1 em cada 10 pacientes sofre danos durante o atendimento médico, sendo que 50% deles são evitáveis. Além disso, metade dos danos é relacionado a medicações[v] . Dados também mostram que erros em pacientes de UTI neonatal são 8x mais frequentes que em adultos, sendo os erros de medicação mais comuns provenientes de dose, frequência e via de administração[vi]. Estima-se também que 15% de todas as admissões em unidades de terapia intensiva neonatal são seguidas de eventos adversos[vii].
Este ano, a Organização Mundial da Saúde vai se dedicar ao tema "Cuidados seguros para cada recém-nascido e cada criança" na campanha anual do Dia Mundial da Segurança do Paciente, celebrado em 17 de setembro. “A iniciativa quer mostrar a importância de garantir a segurança dos pacientes desde o início da vida, com foco em cuidados durante o parto, pós-parto, segurança da medicação e imunização, diagnóstico seguro e prevenção de infecções”, explica Karina Pires, diretora executiva do Instituto Brasileiro de Segurança do Paciente, referência nacional em Consultoria, Conteúdo Científico e Educação para Segurança do Paciente. “Essa é uma grande oportunidade de direcionar os holofotes para um problema que merece toda a dedicação e atenção: os riscos e a redução de danos evitáveis em serviços de neonatologia e pediatria”, complementa Karina.
A campanha também quer aumentar a conscientização e o engajamento do público, melhorando a compreensão global sobre a segurança do paciente recém-nascido e crianças.
[I] Eichenwald EC; Committee on Fetus and Newborn, American Academy of Pediatrics. Apnea of Prematurity. Pediatrics. 2016 Jan;137(1). doi: 10.1542/peds.2015-3757.
[II]Schmidt B, Roberts RS, Davis P, Doyle LW, Barrington KJ, Ohlsson A, Solimano A, Tin W; Caffeine for Apnea of Prematurity Trial Group. Caffeine therapy for apnea of prematurity. N Engl J Med. 2006 May 18;354(20):2112-21. doi: 10.1056/NEJMoa054065.
[III] Ministério da Saúde [homepage na internet]. São Paulo registra redução no número de partos prematuros [Acesso em 18 jun, 2025]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias-para-os-estados/sao-paulo/2024/novembro/sao-paulo-registra-reducao-no-numero-de-partos-prematuros
[IV] Zidan TBB, Troster EJ, Beck J, Sanches LR, Ferreira CES, Zacharias RSB, et al. (2025) Effect of caffeine citrate on diaphragmatic electrical activity in pre-term newborns. PLoS ONE 20(4): e0320992. https:// doi.org/10.1371/journal.pone.0320992
[V] World Health Organization [homepage na internet]. Segurança do Paciente [Acesso em 02 set, 2025]. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/patient-safety
[VI] Fiocruz [homepage na internet]. Atenção ao recém-nascido [Acesso em 02 set, 2025]. Disponível em: https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/atencao-recem-nascido/principais-questoes-promovendo-seguranca-rn/
[VII] Ventura CM, Alves JG, Meneses Jdo A. Eventos adversos em Unidade de Terapia Intensiva Neonatal [Adverse events in a Neonatal Intensive Care Unit]. Rev Bras Enferm. 2012 Jan-Feb;65(1):49-55. Portuguese. doi: 10.1590/s0034-71672012000100007.
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