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| A insônia é um dos distúrbios do sono mais prevalentes nos adultos foto: Freepik |
Conclusão é de estudo feito na Faculdade de Medicina da USP com 595 participantes entre 18 e 59 anos. Análises indicam uma associação entre insônia e altos índices de neuroticismo e apontam a ansiedade como parte do problema
Estudo realizado na
Universidade de São Paulo (USP) investigou a influência dos traços de
personalidade no desenvolvimento e na perpetuação da insônia e constatou que há
uma relação direta entre as duas coisas. Dois achados chamaram a atenção dos
pesquisadores: altos índices de abertura foram associados a baixos índices de
insônia, enquanto o alto nível de neuroticismo (caracterizado por instabilidade
emocional) foi bastante prevalente em pessoas com o distúrbio de sono. Os
resultados foram publicados no Journal
of Sleep Research.
“Decidimos estudar a influência
dos traços de personalidade sobre a insônia por se tratar de um transtorno
extremamente prevalente e que traz impactos negativos para a saúde, como maior
risco de hipertensão, diabetes, ansiedade e depressão. Essas diversas condições
de saúde física e mental levam a uma pior qualidade de vida de forma geral”,
explica Bárbara Araújo Conway, psicóloga do sono e autora da dissertação de mestrado defendida no
Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina (FM-USP), com apoio da FAPESP e orientação da professora Renatha El Rafihi-Ferreira,
do Departamento de Psicologia Clínica.
Como explicam as autoras, a
insônia é um dos distúrbios do sono mais prevalentes nos adultos. Estima-se que
cerca de 30% da população mundial sofra com o problema, caracterizado pela
dificuldade de adormecer, de permanecer dormindo ou de voltar a dormir após um
despertar indesejado. No Brasil, especificamente em São Paulo, esse número é
ainda maior: quase metade dos paulistanos (45%) reclama de insônia, segundo
dados do Estudo Epidemiológico do Sono (Episono).
Cinco
traços de personalidade
De acordo com Conway, há uma
teoria bem estabelecida na literatura que propõe a existência dos “3 Ps” da
insônia: predisposição (fatores que tornam um indivíduo mais propenso a ter o
distúrbio), precipitação (gatilhos associados ao surgimento dos sintomas) e
perpetuação (comportamentos que fazem com que a pessoa se mantenha no ciclo
vicioso da insônia).
Assim, os pesquisadores
partiram da hipótese de que o neuroticismo, que é mais prevalente em insones,
poderia ser considerado um fator de predisposição ao transtorno do sono. Além
disso, eles investigaram se os sintomas de ansiedade e depressão poderiam atuar
como mediadores e moderadores da associação entre o neuroticismo e a insônia.
Mas para entender como os
autores chegaram aos resultados do estudo é preciso voltar um passo atrás
e conhecer os traços de personalidade. “São características que estimam um
padrão de como são os sentimentos, pensamentos e comportamentos de determinada
pessoa. São um conjunto de fatores que formam a personalidade e as
características do indivíduo. De acordo com a teoria Big Five, todos
nós temos diferentes níveis dos cinco traços de personalidade”, explicou a
psicóloga. São eles:
1 – Extroversão: pessoas com nível de extroversão mais alto tendem a ser mais falantes, mais dominantes, com perfil de liderança. Preferem atividades em grupo, têm maior facilidade de se relacionar, de criar intimidade e costumam ser mais assertivas. Já as pessoas com baixo nível de extroversão não são necessariamente introvertidas, mas preferem ficar mais sozinhas e costumam ter mais dificuldades em trabalhar com grupos.
2 – Neuroticismo: é um traço de personalidade relacionado ao grau de
estabilidade emocional. Pessoas com alto índice de neuroticismo costumam ser
mais instáveis emocionalmente e tendem a focar em aspectos mais negativos da
vida. São pessoas que, diante de uma adversidade, tendem a se desorganizar e
sofrer mais intensamente, sendo mais suscetíveis ao estresse. A literatura
científica aponta que um alto neuroticismo tem uma correlação com ansiedade e
depressão.
3 – Amabilidade: é um traço de personalidade relacionado à empatia. Pessoas com
altos índices de amabilidade tendem a ser mais empáticas, mais cordiais e
preocupadas com o bem-estar alheio, focando muito na situação do outro (podendo
até ser ingênuas e valorizarem o outro em detrimento de si próprias). Aquelas
com baixos índices costumam ser mais céticas e mais desconfiadas.
4 – Abertura à experiência: a pessoa aberta a novas experiências tende a ser
mais criativa, com comportamento exploratório diante da novidade. Tem interesse
pelo novo, são pessoas curiosas, imaginativas e vivenciam as emoções de forma
mais intensa. As pessoas com baixos índices de abertura são aquelas que
preferem a rotina, evitam o desconforto e tendem a ser convencionais.
5 – Conscienciosidade: também pode ser chamada de realização. Pessoas com
altos índices são determinadas, comprometidas, motivadas, perseverantes e podem
sacrificar prazeres momentâneos em busca de um objetivo maior. Um índice muito
alto pode não ser bom, porque pode levar ao perfeccionismo. Aquelas com baixos
índices são menos exigentes, menos obstinadas, no senso comum seriam mais
“preguiçosas”.
O estudo
Para chegar aos resultados, os
pesquisadores avaliaram 595 participantes, entre 18 e 59 anos, divididos em
dois grupos: um formado por pacientes insones que buscaram ajuda e receberam
diagnóstico formal feito por um médico especialista em sono e a outra
metade era um grupo-controle, com pessoas sem queixas de insônia.
Os níveis de personalidade de
cada participante foram estabelecidos por meio de um questionário de uso
exclusivo dos profissionais da psicologia, composto por 60 perguntas que
estabeleceram um escore. Os voluntários dos dois grupos responderam às questões
para que os pesquisadores pudessem definir os escores dos traços de personalidade
de cada um.
Após aplicar o questionário
para os dois grupos, cruzar e analisar os dados, Conway constatou que os
pacientes com insônia têm índice muito mais alto de neuroticismo do que os
voluntários sem insônia, além de apresentarem índices mais baixos de
amabilidade, de abertura e de conscienciosidade. Extroversão foi o único traço
de personalidade que não apresentou diferença significativa. “Neuroticismo foi
o traço que mais se destacou, os insones possuem esse índice bem mais alto. Mas
não podemos afirmar que os insones são mais introvertidos”, pondera Conway.
As análises também mostraram
que: 61,7% dos insones apresentaram alto índice de neuroticismo, em comparação
com 32% do grupo-controle; 40,7% dos insones possuíam baixos índices de abertura,
contra 23% do grupo saudável; 31,5% dos voluntários com insônia apresentaram
baixa amabilidade em comparação com 23,2% dos não insones; e 37,7% dos insones
tinham baixa conscienciosidade, contra 24,1% do grupo-controle.
“Após análises estatísticas
mais detalhadas, os resultados do estudo nos permitem afirmar que pessoas com
altos índices de neuroticismo têm uma propensão maior a ter insônia”, afirma a
pesquisadora.
O grupo também fez uma análise
estatística para investigar se algum outro fator poderia interferir na
associação entre neuroticismo e insônia e descobriu que a ansiedade atua como
mecanismo de mediação, ou seja, são os sintomas da ansiedade que de fato fazem
com que o neuroticismo influencie no desenvolvimento da insônia. “Ela explica
todo o efeito do alto neuroticismo na insônia”, diz a pesquisadora. O grupo
também testou o papel da depressão, mas ela não demonstrou ser um mecanismo
importante nessa relação.
Efeito na
prática
Considerando que os traços de
personalidade estão associados a resultados positivos ou negativos no que
concerne à saúde física e mental, o estudo sugere que é importante conhecer os
traços de personalidade mais prevalentes entre indivíduos com insônia, de forma
que o conhecimento possa auxiliar no processo de avaliação, prevenção e
planejamento de tratamentos mais adequados e de acordo com a especificidade de
cada paciente.
Os resultados reforçam que,
para tratar a insônia de um paciente, é preciso também investigar e tratar a
sua ansiedade. “Essas descobertas são importantes na prática clínica, pois ao
receber pacientes com esse traço de personalidade é fundamental pensar em um
plano de tratamento que foque não somente no sono, mas também na ansiedade”,
diz El Rafihi-Ferreira.
Mas, para que isso aconteça, os
profissionais de saúde precisam compreender e avaliar a personalidade dos
pacientes que buscam ajuda quando têm problemas no sono. “Sabemos que a maioria
dos insones tem alto índice de neuroticismo. Esses pacientes merecem investigar
e tratar sua ansiedade para que a insônia também melhore. Por vezes isso envolve
terapias e medicações diferentes, por isso é importante ter um olhar mais amplo
para a história e especificidade de cada indivíduo”, frisa Conway.
Atualmente, o tratamento
considerado “padrão-ouro” para insônia é a terapia cognitivo-comportamental
aplicada à insônia (TCC-I), mas ainda existem poucos psicólogos especializados
em sono no Brasil para oferecê-la. Por isso, os pesquisadores defendem que os
profissionais de saúde tenham um olhar mais amplo e aprofundem na investigação
dos fatores psicológicos dos pacientes.
“A associação entre traços de
personalidade, ansiedade e insônia traz a importância do desenvolvimento de
protocolos de tratamento transdiagnóstico, isto é, que envolvam a integração de
técnicas e processos comportamentais para tratar um conjunto de dificuldades
emocionais que compartilham processos e mecanismos subjacentes às diferentes
queixas”, pontua a orientadora do estudo.
“Já temos um tratamento não
farmacológico para insônia, mas, da mesma forma que não temos um medicamento
que vai ser eficaz para todos os pacientes, uma única abordagem de terapia
também pode não funcionar para todo mundo. Esses resultados contribuem para o
desenvolvimento de novos protocolos psicológicos e comportamentais mais
personalizados para o tratamento da insônia”, finaliza Conway.
O artigo Personality
traits and insomnia: direct and anxiety-mediated associations pode ser
lido em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/jsr.70003.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/tracos-de-personalidade-influenciam-no-desenvolvimento-da-insonia/54411

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