Há cerca de um ano, ao chegar em sua casa em Buenos Aires e ser cumprimentada por apoiadores, Cristina Kirchner – a vice-presidente da Argentina – por muito pouco não foi vítima fatal de um atentado: uma arma calibre 380 foi acionada duas vezes, mas falhou. Recentemente, um morador do estado de Utah, nos EUA, que havia ameaçado várias vezes o presidente Joe Biden e sua vice, Kamala Harris, em suas redes sociais, foi morto a tiros pelo FBI ao ser abordado para investigação. Os agentes inicialmente pretendiam apenas investigar as ameaças, mas não houve conversa.
Foi na mesma semana em que o candidato à
presidência do Equador, o jornalista e ex-deputado Fernando Villavicencio, foi
assassinado em Quito. Em quinto lugar nas pesquisas eleitorais, Villavicencio
tinha como carro chefe de sua campanha o combate à corrupção e ao narcotráfico.
Nessa segunda-feira, dia 14 de agosto, mais um assassinato político no país:
Pedro Briones, dirigente de um movimento político fundado pelo ex-presidente
equatoriano Rafael Correia também perdeu a vida a tiros.
Todos esses recentes acontecimentos – sem contar, é
claro, a tentativa de assassinato do então candidato à presidência do Brasil,
Jair Bolsonaro, em 2018 – destacam a diversidade de desafios significativos
enfrentados pelo continente americano. Essa região que, pouco a pouco, busca
fortalecer as instituições democráticas (à exceção de Cuba, Nicarágua e
Venezuela), se depara agora com essas alarmantes ameaças que testam a
resiliência de jovens democracias.
Enquanto essa infeliz sequência de atos hostis nos
faz refletir sobre o recrudescimento do ambiente político nas Américas, a
Argentina realizou suas primárias eleitorais no domingo, dia 13 de
agosto. Esse pleito, conhecido como "Eleições Primárias, Abertas,
Simultâneas e Obrigatórias" (Primarias Abiertas, Simultáneas y Obligatorias,
em espanhol), ou simplesmente PASO, consiste numa etapa crucial do processo
eleitoral argentino e têm como objetivo definir oficialmente os candidatos que
irão concorrer nas eleições gerais subsequentes.
As PASO têm uma importância estratégica para
determinar quais candidatos serão oficialmente apoiados pelos partidos nas
eleições gerais, além de impactar também na distribuição de financiamento
público para os partidos políticos. Nesse pleito, ocorrido em meio a inflação
recorde de 115,6%, inacreditáveis 118% de juros ao ano e desvalorização
histórica do peso argentino, sagrou-se vencedor o candidato de extrema-direita
Javier Milei.
Milei, economista, professor e deputado de 52 anos,
apresenta propostas bastante radicais para o futuro do país. Dentre suas
propostas, estão a extinção de ministérios como saúde e educação, assim como a
dolarização da economia argentina, ou seja, o uso do dólar no lugar do
desvalorizado peso. Ainda que essa medida possa, no curtíssimo prazo, reduzir
um pouco dos juros e da inflação, no médio e longo prazo as consequências
tendem a ser mais negativas do que positivas; uma vez que os rumos do país
dependeriam diretamente das decisões do Federal Reserve (FED), o Banco Central
dos EUA.
Embora a economia argentina já seja parcialmente
dolarizada – uma vez que a população, escaldada por décadas de uma crise sem
fim, poupa em dólares – o Banco Central de Buenos Aires ainda possui controle
de sua política monetária.
Nas PASO, após a vitória de Milei com cerca de 30%
dos votos, está o governista Sergio Massa (com 21,22%), e a candidata de
centro-direita Patrícia Bullrich em terceiro lugar. Num cenário de atentados e
assombrações à democracia nas Américas, nos resta torcer para que o pleito
eleitoral da Argentina seja pacífico – e que o pais consiga de uma vez por
todas superar décadas de governos populistas que tanto afundaram uma das
economias mais promissoras de outrora.
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