2026 deverá ser um ano de normalidade econômica com
algum crescimento e mais um ciclo de postergação com foco prioritário na
próxima eleição. Será, na prática, mais um ano de adiamento de decisões, de
ajustes e de responsabilidades.
As previsões mostram um crescimento inferior ao do
ano anterior – apesar de todos os estímulos já anunciados e implantados. Alguns
indicadores irão sustentar essa narrativa mas, por trás dela, o país aprofunda
desequilíbrios, posterga ajustes e transfere custos para os próximos ciclos.
Em anos pré-eleitorais, a economia costuma contar histórias
melhores do que aquelas que os fundamentos conseguem sustentar. Indicadores
escolhidos melhoram, a atividade se mantém em movimento e o discurso da
evolução ganha tração. Mas, por trás dessa visão mais favorável, acumulam-se
tensões que não desaparecem e apenas são adiadas.
Este ano tende a ser marcado por um baixo
crescimento econômico e, ainda assim, artificialmente sustentado. A combinação
de estímulos fiscais, expansão do crédito direcionado, políticas de renda,
programas de auxílio e investimentos públicos com forte viés eleitoral devem
manter a atividade em funcionamento, ainda que com baixo crescimento nominal,
ou mesmo desempenho real negativo, quando deflacionados nos segmentos de varejo
e consumo, como aconteceu em 2025.
Os dados recentes de desempenho do final do ano
envolvendo shoppings centers, foodservice e varejo das lojas físicas apontam
que a maioria dos segmentos de comércio, quando deflacionados pela inflação
média das categorias envolvidas, mostra desempenho real negativo com exceção do
setor de e-commerce e de algumas poucas categorias, o que deve se repetir em
2026.
Mudança estrutural no consumo
e no varejo
Trata-se de uma economia “bombada” por estímulos
artificiais de toda ordem, capaz de preservar indicadores no curto prazo, mas
que aprofunda as desigualdades, amplia a insegurança econômica e social e
posterga ajustes estruturais inevitáveis. O resultado é um crescimento instável
e artificial apesar de um momento global altamente favorável ao país por conta
de todas as questões que envolvem seus diferenciais na produção de alimentos,
energia e recursos minerais estratégicos.
Esse cenário implica numa reconfiguração estrutural
do consumo e do varejo. De um lado, cresce de forma consistente a participação
do varejo de valor, aquele do mais por menos, impulsionado por consumidores
mais sensíveis a preço e prazo de pagamento, mais endividados e com menor
margem de erro no orçamento doméstico. De outro, o segmento de luxo se mantém,
e tende a ampliar seu ritmo de crescimento, sustentado por rendas menos
dependentes do ciclo econômico e elevadas remunerações ligadas a aplicações
financeiras e por uma demanda estruturalmente mais resiliente.
Nunca convivemos com um consumo tão pressionado na
base e tão eufórico no topo.
Ao mesmo tempo, avança a participação dos serviços
e soluções associados a produtos como saúde, manutenção, cuidados pessoais,
assinaturas, financiamento, seguros e outras modalidades. O consumidor compra
menos itens, mais baratos, mas exige mais funcionalidade, conveniência e
parcelamento dos pagamentos ao longo do tempo, mesmo que com taxas de juros das
mais altas no mundo.
Observa-se também um aumento da participação direta
da indústria de bens de consumo no varejo, seja por canais próprios,
marketplaces e modelos híbridos, mas sempre com maior envolvimento na relação
direta com o consumidor final. Esse movimento intensifica a disputa por margem,
dados e fidelidade, elevando de forma estrutural a pressão competitiva sobre o
varejo tradicional.
Paralelamente continua a crescer a destinação de
renda para apostas online (bets), aprofundando a desconexão entre aumento da
massa salarial e consumo produtivo. Esse fenômeno contribui para o avanço do
endividamento das famílias e para níveis elevados de inadimplência com impactos
diretos sobre a qualidade, a previsibilidade e a sustentabilidade do consumo.
As bets deixaram de ser um desvio marginal e
passaram a competir diretamente com categorias essenciais do consumo.
Pressão competitiva
exponenciada
O resultado desse conjunto de forças é um ambiente
de competição mais intensa e rentabilidade pressionada na maior parte do varejo
e dos serviços, com exceção do segmento de luxo e de algumas categorias que
preservam maior poder de precificação, diferenciação e fidelização.
No final, 2026 se apresentará menos como um ano de
consolidação e mais como um tempo de adiamento.
A aparente normalidade econômica mascara
fragilidades que tendem a emergir no ciclo seguinte, quando os estímulos
perderem força e a necessidade de correção se tornar inevitável.
Nesse contexto, é fundamental a integração das
lideranças empresariais dos setores de varejo, consumo e serviços pessoais. Ela
deixa de ser desejável para se tornar imperativa, para muito além de questões
político-partidárias. Em um ambiente no qual os três Poderes da República
mostram-se de forma majoritária mais comprometidos com o curto prazo, com
agendas próprias e interesses imediatos e, cada vez mais afastados da
construção de um Projeto de Nação de longo prazo, cabe ao setor produtivo
assumir um papel mais ativo e responsável.
Se os setores privado e produtivo não ocuparem o
espaço do longo prazo, ele será ocupado pelo improviso e pela visão estreita da
próxima eleição. E o custo, como sempre, será transferido para a Nação.
Pela capilaridade, capacidade de geração de emprego
e renda, proximidade diária com o consumidor e peso econômico, esses setores
deveriam se integrar, se posicionar e atuar de forma coordenada para construir
alternativas ao que hoje parece inevitável.
Isso pode ser feito por meio de agendas comuns e
integradas, inovação colaborativa, autorregulação, educação do consumidor ou
propostas concretas para o debate público.
O quadro futuro não pode estar dado. Ele pode ser
moldado pela capacidade coletiva de agir com visão de longo prazo, senso de
urgência e compromisso real com a Nação.
Mais do que a reflexão, é preciso ação.
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