O agronegócio brasileiro vem crescendo a cada safra, ampliando constantemente sua capacidade de produção. De acordo com as informações divulgadas pela Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), a safra de grãos 2024/2025 está estimada em 330,3 milhões de toneladas. Se confirmado, será o maior volume já registrado na série histórica da companhia. Isso representa um aumento de 32,6 milhões de toneladas na comparação com o ciclo 2023/2024.
No entanto, por trás desses expressivos números
esconde-se um gargalo estrutural crônico e perigoso: a incapacidade do país de
armazenar adequadamente o que é produzido. Com uma capacidade estática de
armazenagem de só 210 milhões de toneladas, considerando toda a infraestrutura
construída até hoje, o Brasil enfrenta um déficit alarmante de 120 milhões de
toneladas.
Esse número não é só uma estatística, é um freio ao
nosso potencial e um risco à segurança alimentar e econômica do Brasil.
A matemática é clara e preocupante. Para evitar que
o déficit aumente, o Brasil precisaria investir cerca de R$ 15 bilhões por ano
em novas estruturas de armazenagem. Contudo, estamos longe de alcançar essa
meta.
A cada colheita recorde, o problema se agrava e
ignorar essa necessidade compromete a rentabilidade do produtor e a estabilidade
de preços para o consumidor. A capacidade de formar estoques reguladores é uma
ferramenta vital para controlar a inflação de alimentos e garantir o
abastecimento, especialmente em tempos de instabilidade climática e geopolítica.
O PCA (Programa de Construção e Ampliação de
Armazéns) foi criado para mitigar esse problema, oferecendo linhas de crédito
como o “PCA Grãos”, com juros de 7% ao ano e prazos estendidos para estruturas
de até 6.000 toneladas. Na prática, porém, o acesso a esses recursos é um desafio,
principalmente para os pequenos e médios produtores.
A falta de recursos suficientes alocados ao
programa e a excessiva burocracia dificultam o acesso ao financiamento por quem
mais precisa. O custo elevado da implantação, cerca de R$ 1.500 por tonelada de
capacidade, considerando equipamentos, montagem, energia e obras civis,
contribui para a perpetuação do déficit.
Outro agravante é a má distribuição geográfica das
estruturas de armazenagem. Só 15% dos silos estão dentro das fazendas, onde
seriam mais eficazes. Os 85% restantes concentram-se em áreas urbanas,
complexos industriais e portos. Essa distância entre a colheita e o armazenamento
causa perdas significativas de grãos, eleva substancialmente os custos
logísticos com frete e cria um fluxo ineficiente em toda a cadeia produtiva.
O produtor, sem a possibilidade de estocar a safra
na origem, fica pressionado a vender rapidamente durante o pico da colheita,
muitas vezes a preços inferiores, sobrecarregando o sistema de transporte e
perdendo poder de negociação.
O contraste com outros grandes produtores
agrícolas, como os Estados Unidos, é enorme. Lá, a capacidade estática de
armazenagem supera a produção de uma safra inteira, com mais da metade dos
silos localizados dentro das propriedades rurais. Esse modelo confere maior
eficiência e controle ao produtor, beneficiando o país como um todo.
É preciso encarar com seriedade o fato de que o
deficit de armazenagem é um dos maiores entraves ao desenvolvimento sustentável
do agronegócio brasileiro. Não basta produzir em volumes recordes se não formos
capazes de administrar essa produção de forma eficiente, estratégica e
inteligente.
A expansão da capacidade de armazenagem,
especialmente nas propriedades rurais, deve ser tratada como uma prioridade nacional.
Isso exige mais recursos para programas como o PCA, desburocratização do acesso
ao crédito e novos modelos de incentivo e investimento público-privado.
Superar o gargalo dos silos é fundamental para
destravar o pleno potencial do agro, garantir a segurança alimentar e
fortalecer a economia brasileira. Manter o cenário atual é aceitar um futuro de
ineficiência, perdas e vulnerabilidade.
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