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sábado, 17 de maio de 2025

A menina quis fazer-se morrer

Uma menina quis se fazer morrer. Valentina Maureira. Tinha 14 anos e padecia de doença grave. Dado que em seu país, o Chile, fazer-se morrer de forma digna, com suporte técnico, é ilegal, ela pediu ajuda à então presidenta da sua República pelo Facebook. Pôs-se um alarido: grupos contra e a favor. Apelos à medicina e apelos a Jeová, o deus lá prevalente.

Sua postagem foi gesto voluntário. Surpreendeu a todos. Tento imaginar a dor dos pais: sua criança pedindo para morrer. Entrei na página da menina e noutras que se envolveram com a questão. Ela concedeu entrevistas e expôs serenamente seus argumentos. E o fez de forma lúcida, sensata, determinada. Sabia o que queria e o porquê do querer. Isso é o triste.

A menina conhecia a doença de que padecia e o que a aguardava. Suportava uma fibrose cística, doença hereditária e degenerativa que afetava seus pulmões, fígado e pâncreas. O seu irmão morrera por conta do mesmo mal. Ela já passara por cinco cirurgias com dor e sofrimento. Prometeram-lhe melhora. As coisas, como não poderia deixar de ser, pioraram.

“Peço com urgência para falar com a presidente, porque estou cansada de viver com esta doença e ela pode autorizar a injeção para que eu durma para sempre.” Milhares de curtidas. Ocorre que a presidenta, ainda que o quisesse, não poderá ajudá-la. Entre o desejo que a acudissem e a lei, a menina foi vencida pela igreja católica: Jeová proverá; não proveu.

Não empresto crença nenhuma a essas “divindades intervenientes”, sobras do medieval europeu. Evito polemizar com crentes. Não que inexista o gosto em terçar ideias sobre o “De onde viemos? Para onde vamos?”. Mas troco, se houver, argumentos, não declarações infundadas de fé pela fé. Recuso o “creio, logo é”. A mim me valem as evidências das coisas.

Sociologicamente, entretanto, religião se me torna relevante: é quando se consubstancia em argumento de poder, em formatação ideológica de crianças, em controle da política, em restrição à vida laica. No Chile, o catolicismo é a ideologia prevalente. À época, a eutanásia ou o suicídio assistido eram proibidos, assim como o aborto sob quaisquer circunstâncias.

A presidenta chilena introduziu reformas, incluindo um projeto azucrinante ao conservadorismo, que mudaria a lei de aborto. Seus planos, todavia, não mencionam eutanásia e o governo não atendeu, nem poderia fazê-lo, ao pedido de Valentina. Resumo: crentes com orações, médicos com mitigação do sofrimento; a menina definhou até que a morte a acolheu.

Valentina morreu em agonia, vítima de insuficiência respiratória. Desnutrida, pesava 35 quilos ao ser internada. O Chile se compadeceu, a presidenta da República fez-lhe visita cerimoniosa. A menina, todavia, conhecia seu destino: tinha seis meses quando teve a doença diagnosticada pela primeira vez; sabia tudo sobre o padecimento do seu irmão; era inteligente.

De sua causa não adveio a eutanásia, o Chile, porém, legalizou o aborto em certas circunstâncias em 2017 e liberou a sua realização até 14 semanas de gravidez em 2021, como sucede nos países destacados por altos níveis educacionais. Interessante, o corpo, após a Revolução Francesa, foi declarado propriedade pessoal. Em boa parte, uma vã declaração.

Mas... que há entre propriedade de si, aborto e eutanásia? As pessoas eram propriedade: o corpo, de um rei; a “alma”, da igreja católica. Agora, embora a Revolução Francesa, o corpo não é bem disponível: tem que ficar vivo a seu contragosto e não pode decidir sobre seguir grávido por contra própria. O corpo ainda sofre mais censura do que goza liberdade.

 

Léo Rosa de Andrade
Doutor em Direito pela UFSC.
Psicanalista e Jornalista.


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