Uma menina quis se fazer morrer. Valentina Maureira. Tinha 14 anos e padecia de doença grave. Dado que em seu país, o Chile, fazer-se morrer de forma digna, com suporte técnico, é ilegal, ela pediu ajuda à então presidenta da sua República pelo Facebook. Pôs-se um alarido: grupos contra e a favor. Apelos à medicina e apelos a Jeová, o deus lá prevalente.
Sua
postagem foi gesto voluntário. Surpreendeu a todos. Tento imaginar a dor dos
pais: sua criança pedindo para morrer. Entrei na página da menina e noutras que
se envolveram com a questão. Ela concedeu entrevistas e expôs serenamente seus
argumentos. E o fez de forma lúcida, sensata, determinada. Sabia o que queria e
o porquê do querer. Isso é o triste.
A menina
conhecia a doença de que padecia e o que a aguardava. Suportava uma fibrose
cística, doença hereditária e degenerativa que afetava seus pulmões, fígado e
pâncreas. O seu irmão morrera por conta do mesmo mal. Ela já passara por cinco
cirurgias com dor e sofrimento. Prometeram-lhe melhora. As coisas, como não
poderia deixar de ser, pioraram.
“Peço com
urgência para falar com a presidente, porque estou cansada de viver com esta
doença e ela pode autorizar a injeção para que eu durma para sempre.” Milhares
de curtidas. Ocorre que a presidenta, ainda que o quisesse, não poderá
ajudá-la. Entre o desejo que a acudissem e a lei, a menina foi vencida pela
igreja católica: Jeová proverá; não proveu.
Não
empresto crença nenhuma a essas “divindades intervenientes”, sobras do medieval
europeu. Evito polemizar com crentes. Não que inexista o gosto em terçar ideias
sobre o “De onde viemos? Para onde vamos?”. Mas troco, se houver, argumentos,
não declarações infundadas de fé pela fé. Recuso o “creio, logo é”. A mim me
valem as evidências das coisas.
Sociologicamente,
entretanto, religião se me torna relevante: é quando se consubstancia em
argumento de poder, em formatação ideológica de crianças, em controle da
política, em restrição à vida laica. No Chile, o catolicismo é a ideologia
prevalente. À época, a eutanásia ou o suicídio assistido eram proibidos, assim
como o aborto sob quaisquer circunstâncias.
A
presidenta chilena introduziu reformas, incluindo um projeto azucrinante ao
conservadorismo, que mudaria a lei de aborto. Seus planos, todavia, não
mencionam eutanásia e o governo não atendeu, nem poderia fazê-lo, ao pedido de
Valentina. Resumo: crentes com orações, médicos com mitigação do sofrimento; a
menina definhou até que a morte a acolheu.
Valentina
morreu em agonia, vítima de insuficiência respiratória. Desnutrida, pesava 35
quilos ao ser internada. O Chile se compadeceu, a presidenta da República
fez-lhe visita cerimoniosa. A menina, todavia, conhecia seu destino: tinha seis
meses quando teve a doença diagnosticada pela primeira vez; sabia tudo sobre o
padecimento do seu irmão; era inteligente.
De sua
causa não adveio a eutanásia, o Chile, porém, legalizou o aborto em certas
circunstâncias em 2017 e liberou a sua realização até 14 semanas de gravidez em
2021, como sucede nos países destacados por altos níveis educacionais.
Interessante, o corpo, após a Revolução Francesa, foi declarado propriedade pessoal.
Em boa parte, uma vã declaração.
Mas... que
há entre propriedade de si, aborto e eutanásia? As pessoas eram propriedade: o
corpo, de um rei; a “alma”, da igreja católica. Agora, embora a Revolução
Francesa, o corpo não é bem disponível: tem que ficar vivo a seu contragosto e
não pode decidir sobre seguir grávido por contra própria. O corpo ainda sofre
mais censura do que goza liberdade.
Doutor em Direito pela UFSC.
Psicanalista e Jornalista.
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