Começo dizendo que, na verdade, nem sei orar. E não
foi por falta de empenho de meus pais que se desdobravam para que eu soubesse
que há uma metafísica, nem do Padre com suas prédicas e nem do Rabi com seu
balanço e sua voz monótona. Nunca consegui aprender, nem mesmo aquelas
rezas decor que saem sem querer de nossas bocas em momentos solenes, como
velórios ou ameaças de cataclismas. Eu só movia os lábios enquanto pensava que
após a liturgia haveria algo para comer.
No entanto, nesses tempos em que vivemos, quando
penso nos insensatos, não sei como mas penso em forma de oração, querendo
dirigir palavras para eles, rogando para Alguém que eles escutem. Sim, é fato,
pode não existir esse Alguém, ou existir e não ouvir bem, ou ouvir tanto que
tudo vira um ruído em seus ouvidos, ou então estar tão longe que nossos apelos
não O alcançam ou estar simplesmente com um fone de ouvidos curtindo uma
playlist celestial. Não importa. Quero orar.
Oro para os insensatos porque seu egoísmo deve ser
um peso enorme sobre seus ombros. Carregar um enorme Eu em torno do qual o
mundo vive e respira, as coisas acontecem ou deixam de acontecer, tudo para
afeta-lo ou prejudica-lo ou impedi-lo de seu sucesso que ninguém reconhece
porque são todos….egoístas, menos ele, que sofre porque há um mundo que
conspira e agora isso, as pessoas não percebem que seu negócio ou até seu
emprego está em risco, e a casa está um lixo porque a empregada que já corre
tantos riscos, agora diz que tem de cuidar da família, imagina, e a família
dele, como que fica, as férias arruinadas, as crianças em casa sem ter o que
fazer, são jovens, saudáveis, e não há um único lugar para se ficar em paz, é
um inferno, isso tem de acabar porque não aguento mais.
Oro para os insensatos porque sua inconsequência
deve obriga-los a viver com os olhos sempre bem fechados, ignorando tudo que
não sejam pessoas com olhos arregalados e ouvidos atentos ao seu sofrimento e
às suas perdas e seus adiamentos porque as pessoas são covardes e burras por
não ouvir suas explicações definitivas.
Oro para os insensatos porque sua raiva deve fazer
mal pra pele, dar enxaqueca, azia, perturbações no sono; oro para os insensatos
porque eles estão sempre querendo ir para outro lugar no qual enfim eles serão
compreendidos e viverão entre os seus, mas esse lugar não existe, pelo menos
não existe fora deles.
Oro pelos insensatos porque eles não se sentem
culpados por nada e sempre acham a quem responsabilizar não só pelo que
acontece com eles mas também com o que acontece por causa deles, afinal
“classificamos de barbárie o que é alheio aos nossos costumes”.
Oro pelos insensatos porque eles me verão e virarão
o rosto ou apontarão o dedo dizendo todas as coisas que penso deles.
Oro pelos insensatos, principalmente, porque tenho
medo de olhar no espelho e reconhecer um insensato mirando-me sem peias e
sem culpa.
Daniel Medeiros - doutor
em Educação Histórica e professor no Curso Positivo
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