Para especialista,
maternidade segue como um fator de exclusão em ambientes corporativos que não
incorporaram práticas verdadeiramente inclusivas
Apesar dos avanços nas pautas de diversidade e
inclusão, a maternidade continua sendo um divisor de águas na trajetória
profissional de muitas mulheres. Segundo a pesquisa “Esgotadas”, da Think Olga,
mulheres dedicam, em média, 21,4 horas semanais ao trabalho de cuidado não
remunerado, quase o dobro do tempo dedicado por homens (11 horas). Em um ano,
são mais de 1.100 horas a mais — o equivalente a 24 dias inteiros de
diferença.
O desequilíbrio afeta diretamente a permanência, o
desempenho e o bem-estar de mulheres no mercado de trabalho, sobretudo mães e
cuidadoras, que também apresentaram os maiores índices de insatisfação com
saúde emocional, situação financeira e carga de responsabilidades
Para Laura
Salles, CEO da PlurieBR — startup
especializada em gestão de dados em tempo real de diversidade, equidade,
inclusão e pertencimento (DEIP) —, essa exclusão não é acidental. “O viés da
maternidade ainda pesa nos processos de contratação, promoção e até avaliação
de desempenho. Muitas empresas falam de inclusão, mas ainda operam sob uma
lógica que penaliza a experiência da maternidade”, afirma.
Ana Conti, conselheira e consultora da PlurieBR,
acredita que a maternidade não enfraquece a performance — o que pesa é o
julgamento enviesado. “Como mãe de três filhos e executiva, sempre observei que
mulheres voltam da licença maternidade com ainda mais foco, disciplina e
potência. O problema nunca foi a performance, é o olhar viciado de quem prefere
reforçar estereótipos a enxergar o valor real que elas entregam”, declara.
Estigma silencioso e perda de
talentos
Estudos e relatos de profissionais demonstram que
mães continuam sendo alvo de suposições sobre produtividade, disponibilidade e
comprometimento. O impacto disso vai além das barreiras de entrada: afeta
também a permanência, o desenvolvimento e o acesso a cargos de liderança.
“Mulheres estudam mais, entregam melhores resultados e ainda assim seguem como
minoria nas lideranças — e isso tem tudo a ver com a forma como a maternidade é
tratada”, pontua Laura Salles.
“Quando a responsabilidade do cuidado recai quase
exclusivamente sobre elas, surgem estereótipos que atravessam até processos
seletivos, como quando se pergunta se a candidata é ou pretende ser mãe, como
se isso comprometesse sua performance. Uma amiga me disse algo que não esqueço:
‘Com dois filhos pequenos e sendo VP, eu sou mais eficiente porque sei que
preciso usar bem o tempo que tenho. E isso me faz valorizar tanto o trabalho
quanto a maternidade’”, completa.
Segundo ela, ambientes corporativos que não
integram a maternidade como parte da equação da diversidade estão perdendo
talentos valiosos. O afastamento de mães do mercado de trabalho representa, na
prática, perda de inovação, criatividade e capital intelectual. “Há uma
desconexão entre o discurso e a prática. E quando isso acontece, a cultura
organizacional se torna excludente por padrão”, analisa.
Estratégia de pertencimento
com base em dados
A exclusão de mulheres mães não é uma questão
individual — é reflexo de modelos de gestão que ainda não foram redesenhados
para realidades plurais. Para Laura, é preciso que empresas adotem práticas
mensuráveis de apoio à maternidade, e não apenas ações pontuais. Isso inclui
desde o mapeamento do impacto da parentalidade nas taxas de turnover até a
criação de trilhas de carreira flexíveis e redes de suporte entre
colaboradoras. “É fundamental que o debate sobre parentalidade considere o
papel da primeira e da segunda pessoa cuidadora, com políticas flexíveis de
licença que respeitem a estrutura de cada família”, afirma Laura.
“Só assim vamos combater os estigmas que ainda
recaem sobre a maternidade. Quando o pai tem cinco dias e a mãe quatro meses de
licença, já começamos com um desequilíbrio que se reflete em demissões no
retorno, interrupções de carreira e desigualdades profundas no ambiente de
trabalho”, destaca.
Ela lembra ainda que políticas eficazes de apoio à
parentalidade devem contemplar também o papel dos pais e responsáveis,
promovendo corresponsabilidade e quebrando estigmas de gênero no cuidado.
“Falar de maternidade é falar de pertencimento. E ambientes com senso real de
pertencimento são mais resilientes, inovadores e produtivos. Incluir mães não é
só uma pauta social, é uma decisão estratégica de negócio”, conclui.
Laura Salles - fundadora e CEO da PlurieBR, primeira plataforma SaaS de gestão e acompanhamento de dados em tempo real de diversidade, equidade, e inclusão e pertencimento (DEIP) do Brasil, que mapeia métricas em tempo real e apoia ações direcionadas nessa área. Laura, que possui mais de oito anos de experiência em gestão de operações, comunicações e pessoas, é formada em hospitalidade, e é especialista em Diversidade, Equidade e Inclusão pela Universidade Cornell. Atua também como conselheira de inovação da ACSP, e professora do MBA de ESG da Saint Paul e de cursos de DEI da Trevisan.
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