Organização
divulga relatório "Arriscando suas Vidas para Sobreviver", que expõe
atrocidade dos ataques contra a população, incluindo mulheres e crianças
KINSHASA – Médicos Sem Fronteiras (MSF) testemunha uma nova onda de violência e
atrocidades na província de Ituri, no leste da República Democrática do Congo
(RDC), onde suas equipes médicas estão oferecendo cuidados de saúde para civis
com graves ferimentos. Em um relatório divulgado hoje (25/03), “Arriscando suas
Vidas para Sobreviver”, a organização ressalta as necessidades extremas de
muitas comunidades ameaçadas pelos ataques recentes, pelo aumento do
deslocamento e pela redução da ajuda humanitária.
Durante décadas, as pessoas em Ituri, no nordeste
da RDC, foram alvos diretos dos ataques e tratadas apenas como um efeito
colateral em um conflito complexo, caracterizado pela violência, divisões
étnicas e a participação de vários grupos armados. Este
conflito também prejudicou o acesso das pessoas a cuidados de saúde e aos meios
de subsistência, inclusive comida, enquanto a oferta restrita de ajuda
humanitária causou ainda mais sofrimento entre uma população que já recebe
pouca atenção internacional.
MSF apela a todos os grupos armados em Ituri para
que poupem os civis e também as instalações de saúde, que são locais
extremamente essenciais para a sobrevivência das comunidades locais. A
violência em Ituri deslocou cerca de 100.000 pessoas desde o início do ano, de
acordo com a ONU[1]. Somente entre janeiro e fevereiro, também foi
relatada uma intensificação da violência contra civis, com ataques deixando
mais de 200 mortos e dezenas de feridos. Em fevereiro, as equipes médicas de
MSF trataram crianças de até quatro anos e mulheres grávidas com ferimentos de
facão e bala, após ataques de milícias no território de Djugu.
“Esses ataques mais recentes seguem décadas de
violência e suas consequências devastadoras para civis, incluindo mulheres e
crianças em Ituri”, disse Alira Halidou, coordenadora de projeto de MSF na RDC
. “A crise aqui é caracterizada por deslocamentos repetidos, nos quais a
violência força os civis a se recompor e recomeçar suas vidas diversas vezes. O
pior é que as histórias que os pacientes e as comunidades nos contam
representam apenas a ponta do iceberg. ”
Dificuldade de acesso aos
cuidados de saúde
Apenas uma pequena proporção de pessoas pode ter
acesso a cuidados de saúde em Ituri, onde as unidades de saúde também são
vítimas de ataques. No território de Djugu, o hospital geral de Fataki foi
obrigado a suspender suas atividades e evacuar pacientes em meados de março
após ameaças de grupos armados. Este fechamento afeta milhares de pessoas que
ficaram sem acesso a cuidados médicos. Na zona de saúde de Drodro, também em Djugu, cerca
de 50% dos centros de saúde foram parcial ou totalmente destruídos e tiveram
que ser realocados. Quando a violência aumentou nesta mesma época, no ano
passado, uma paciente foi morta em sua cama em um ataque armado ao hospital
geral de Drodro.
Esses ataques não só fazem com
que os pacientes fiquem relutantes em ir a instalações médicas, mas também
colocam a equipe médica em risco. Um médico
entrevistado para o relatório contou que um centro de saúde foi forçado a
fechar por dois meses, mesmo assim ele ainda foi lá para realizar cesáreas.
“Era perigoso e eu estava arriscando minha vida,
mas não tínhamos escolha”, disse o médico. “Tivemos que nos esgueirar para ir
até lá com as mulheres, caso contrário, elas teriam morrido.”
Os mais vulneráveis são alvos
Até meados de março de 2025, mais da metade das 39
vítimas de violência tratadas por MSF na clínica de Salama, Bunia, eram
mulheres e crianças. Uma mãe, cujo filho de quatro anos foi ferido, perdeu seu
bebê de seis meses e seu marido durante um ataque com facão. Duas irmãs de
quatro e 16 anos levaram golpes de facão na cabeça e nos braços, e sua mãe
(grávida de oito meses) também foi gravemente ferida por múltiplos ferimentos
de facão. Tratamos um menino de nove anos com um ferimento a bala no abdômen
que testemunhou agressores atacarem e matarem sua mãe e dois irmãos com facão.
Quando civis buscam refúgio em
acampamentos de deslocados, eles ainda não estão seguros. Em um caso em
setembro de 2024, MSF tratou cinco civis com ferimentos de bala após um ataque
ao acampamento de Plaine Savo, na zona de saúde de Fataki.
Quando há um aumento nos ataques contra civis, o
número de vítimas de violência sexual que chegam às instalações de MSF também
cresce. As mulheres, em particular, enfrentam ataques quando saem em busca de
comida para elas e suas famílias. Em Drodro, entre 2023 e 2024, cerca de 84%
das vítimas de violência sexual tratadas pela organização foram atacadas
enquanto trabalhavam nos campos, coletando lenha ou na estrada.
As necessidades básicas estão
aumentando
Apesar dos esforços do Ministério da Saúde, MSF e
outras organizações humanitárias, as necessidades das pessoas excedem em muito
os recursos disponíveis. A insegurança alimentar piorou acentuadamente em Ituri
em 2024 e agora é crônica para 43% da população. Condições precárias de higiene
e abrigo em acampamentos de deslocados significam que doenças diarreicas e
respiratórias se espalham facilmente, afetando principalmente crianças menores
de cinco anos.
As pessoas em Ituri devem ter
acesso seguro a cuidados de saúde e não devem ser forçadas a arriscar suas
vidas em busca de alimentos e outras necessidades básicas.
Acesse o relatório completo, clicando aqui.
[1] RDC: perto de 100.000
pessoas deslocadas devido à violência em Ituri | Informações da ONU
Nenhum comentário:
Postar um comentário