Opinião
O sociólogo espanhol Manuel Castells tornou-se conhecido por sua ampla análise das redes de comunicação e de sua influência na sociedade contemporânea. Em sua trilogia "A Era da Informação", Castells examina como a revolução digital e a globalização econômica reconfiguraram as estruturas sociais, políticas e culturais. Ele destaca a ascensão das redes de comunicação digitais como um novo paradigma de organização social, que conecta e molda comunidades em escala global.
De uns anos para cá, a tecnologia acabou também no
centro de disputas internacionais, refletindo as dinâmicas de poder, economia e
cultura em escala global. É fato que a dependência internacional da tecnologia
e das telecomunicações é um reflexo da nossa atual realidade interconectada,
moldada pela globalização e pelo avanço tecnológico.
É justo quando estamos tão dependentes de cabos e
satélites que não vemos, é justo quando países competem de forma cada vez mais
acirrada por preponderância tecnológica, e quando a sociedade já está
absolutamente permeada pelos efeitos do contato constante com meios
tecnológicos que uma situação geopolítica distante ameaça drasticamente o
trânsito global de dados, informações, vídeos e vozes: os Houthis do Iêmen.
Os Houthis, também conhecidos como Ansar Allah
(Partidários de Deus), são um grupo rebelde xiita do Iêmen, originários da
região do Saara, no norte do país. O movimento surgiu na década de 1990, se
opondo ao governo de Sanaã, que considera corrupto e controlado por grupos
estrangeiros. Desde então, os Houthi têm lançado uma série de insurgências
armadas contra o governo iemenita, resultando em conflitos que se arrastam há
anos.
Recentemente, e em especial após o início dos
ataques do Hamas a Israel, os Houthi estão atacando navios que transitam pelo
Mar Vermelho, no que afirmam ser uma vingança contra Israel pela sua campanha
militar em Gaza. Por isso, as maiores companhias marítimas e petrolíferas do
mundo deixaram de transitar na região. Navios que partiam da Ásia para a Europa
e buscavam atravessar o canal de Suez, no Egito, hoje optam por uma rota muito
mais longa, contornando a África. Pelo Mar Vermelho, onde os Houthi vêm
atacando sistematicamente embarcações variadas, passam cerca de 12% do comércio
global.
Em resposta aos ataques, em janeiro deste ano os
Estados Unidos e o Reino Unido iniciaram ataques aéreos a alvos Houthi no
Iêmen, o que fez com que o grupo elevasse o tom. Os rebeldes iemenitas agora
ameaçam sabotar os cabos submarinos de internet e comunicação que passam pelo
Mar Vermelho. Um canal do Telegram ligado aos Houthi publicou um mapa dos cabos
que estão no leito marítimo daquela região, acompanhado de uma mensagem que
reiterava a importância estratégica do Iêmen para as telecomunicações
internacionais.
Ao longo das últimas décadas, testemunhamos uma
expansão sem precedentes na conectividade global, impulsionada por cabos
submarinos e satélites de comunicação. Os cabos submarinos, que se estendem por
milhares de quilômetros pelos oceanos, são as principais artérias que conectam
continentes e países e transportam enormes volumes de dados a velocidades
impressionantes. Eles formam a espinha dorsal da internet global.
Aproximadamente 17% do tráfego mundial de internet
circulam pela região, numa velocidade de cerca de 40GB por segundo, em cabos
não muito mais grossos do que mangueiras de jardim, e altamente vulneráveis a danos
externos. Em algumas regiões, os fios que carregam quase um quinto das
informações do planeta estão a apenas 100 metros da superfície do oceano, de
modo que não é necessária grande tecnologia de submarinos para alcançá-los.
Cargas de profundidade ou minas subaquáticas dariam conta do recado.
Uma das infraestruturas digitais mais importantes
do mundo, que liga uma série de países, pode simplesmente ser rompida a
qualquer momento – afetando muito mais do que esses países, mas o planeta todo.
O porta-voz dos Houthi, Mohammed Abdul Salam, afirmou que o grupo está disposto
a usar novas táticas para impedir o que chamou de “agressão americano-britânica
contra o Iêmen”. Estamos prontos para voltar a era do fax?
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