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quinta-feira, 11 de abril de 2019

A culpa não é da bombinha

 Shutterstock


A asma é uma doença que não deveria matar ninguém. Mas, 2500 pessoas ainda morrem por ano, no Brasil, por falta do tratamento


As pessoas que sofrem de asma devem ser tratadas como os pacientes de diabetes ou hipertensão: com medicamentos de uso diário. Porque a exemplo dessas duas doenças, a asma também é uma doença crônica, explica o pneumologista do InCor Rafael Stelmach. O especialista é responsável pela representação brasileira da Iniciativa Global contra a Asma — uma organização não-governamental internacional que promove campanhas de alerta com o objetivo de antecipar o diagnóstico e evitar internações e mortes de asmáticos. Na entrevista a seguir ele explica a origem e características da asma, os medicamentos utilizados no tratamento e como é importante o uso diário dos remédios para manter a doença sob controle.


Referência Incor – Quer dizer que a asma não tem cura?

Rafael Stelmach
– Ela não tem cura, mas pode ser controlada. Os medicamentos de uso contínuo recomendados são anti-inflamatórios e broncodilatadores. Os primeiros, à base de corticoide, reduzem a inflamação e mantêm a doença sob controle. Os broncodilatadores, como diz o nome, abrem as vias respiratórias, aliviando a sensação de falta de ar. Os asmáticos mais graves devem usar os dois remédios na mesma bombinha, diariamente. Os casos mais leves de asma são medicados com o uso do anti-inflamatório, diariamente, e de broncodilatador quando necessário.


RI – Mas esse tratamento não representa risco, quer dizer, o uso diário da bombinha?

Rafael Stelmach –
Não, não existe isso. Quem mata é a doença, não a bombinha. Isso é um mito que não conseguimos, ainda, derrubar. Nos anos 1950, quando criaram os broncodilatadores e as famosas bombinhas para aplicação, eles não eram seletivos para os pulmões e tinham muitos efeitos colaterais – tinham tremores e muita “batedeira no coração” taquicardíaco. Mas, hoje em dia, os efeitos colaterais são menores e se pode usar a medicação com segurança, exceto se a pessoa tiver uma cardiopatia. E os corticosteroides inalados apareceram e começaram a ser usados somente no final do século XX, há muito pouco tempo. O que acontece é que o paciente toma o broncodilatador só na crise, quando aparecem os sintomas. Passada a crise, ele acha que não precisa usar mais nada, quando precisaria manter o tratamento de manutenção com os corticosteroides inalados. Ou pensa que pode até ser perigoso continuar usando.


RI – Daí vai ter outra crise e outra.

Stelmach – Esse é o problema. Por falta de orientação, geralmente, a maioria não segue essa rotina e só usa a medicação na crise. Mas, durante uma crise a pessoa pode ir parar na UTI e, eventualmente, morrer. A inflamação da asma está sempre presente e piora nas crises, obstruindo as vias aéreas.


RI – Qual a origem dessa doença e porque ela não tem cura?

Rafael Stelmach – A maioria das pessoas que tem asma nasce com alergia respiratória, marca genética de família. Em geral ela se manifesta desde a infância. É uma doença inflamatória, associada à alergia. Em geral, começa com dermatite atópica ou rinite e depois evolui para asma, principalmente se os pais ou avós tiverem asma (ou rinite). E, tendo em vista que é uma marca genética, não conseguimos curar uma pessoa de asma até o presente momento. Mas é possível controlar a doença. O tratamento consiste em combater a inflamação com o uso de anti-inflamatórios tópicos – nasais e pulmonares. O uso desses medicamentos deve ser diário para diminuir ao máximo a inflamação e, também, controlar os sintomas. Essa recomendação inclui as crianças.


RI – Sem esse tratamento contínuo a doença vai se agravando?

Rafael Stelmach – Sem o tratamento de rotina, sim, porque a inflamação acomete as paredes de sustentação das vias respiratórias e também a musculatura dos brônquios, que tem de abrir e fechar a todo o momento para a passagem do ar. É como quando cortamos várias vezes no mesmo lugar e se forma um queloide. No caso dos brônquios, a inflamação recorrente, sem o tratamento adequado, gera um enrijecimento deles, diminuindo a passagem do ar e a capacidade de respirar.


RI – Além do uso contínuo da medicação é possível fazer algo mais para evitar as crises?

Rafael Stelmach – É possível evitar a exposição constante aos agentes que produzem alergia. Esses agentes pioram a inflamação e desencadeiam crises. Manter a casa ventilada e limpa, usar aspirador de pó e pano úmido para limpeza diminuem a exposição.  Trocar o lençol de cama, não amontoar coisas no quarto que podem se encher de pó, assim como não dormir com o cachorro ou gato são outras medidas possíveis. Tomar essas providências melhora, mas é impossível controlar a exposição totalmente.


RI – Se a pessoa, por exemplo, vai dormir na casa de alguém que não tem o mesmo cuidado da casa do asmático, pode ter uma crise?

Rafael Stelmach – Sim, pode. E tem essa outra coisa que é frequente de se ver. A pessoa usa o medicamento por um tempo, dois ou três meses, ela fica bem, volta ao médico para uma nova avaliação e é liberada de continuar o tratamento. Essa não é a orientação que recomendo. Porque sem o tratamento continuado a pessoa vai perdendo capacidade respiratória. E, com o tempo, acontece o que chamamos de remodelamento da árvore brônquica – o termo usado na literatura médica internacional –, que é o enrijecimento dos brônquios. É o que a asma faz quando não é controlada. De tantas inflamações, alguns ramos dos brônquios vão fechando em definitivo e o ar não passa mais por ali.


RI – Esses medicamentos para tratamento continuado estão disponíveis no SUS?

Rafael Stelmach – A disponibilidade do corticoide inalatório é muito recente na história da medicina. No Brasil ele começou a ser usado nos anos 1990. No SUS, uma portaria de 2002 deu acesso à medicação nos casos graves. A partir de 2012, porém, as bombinhas contendo as duas medicações (corticoide e broncodilatador) passaram a ser dispensadas de forma gratuita em toda a rede pública.




Fonte: https://referenciaincor.com.br/ 


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